Capítulo 3. Reencontro

Os dois fixaram seus olhares um no outro e ficaram assim por um tempo, até que Mário falou:

— Olá, Lili.

Ela pareceu acordar do torpor que ficou e saiu de onde estava para ir até ele, passando pelo balcão de doces. Contemplou ele por completo, do topo da cabeça até os sapatos nos pés, que brilhavam. Parecia continuar o mesmo rapaz, porém, trazia em si uma aura de responsabilidade e vigor, que ultrapassaram a que ele tinha, quando mais jovem.

— Você voltou…

Ela falou como se ele estar ali, fosse um sonho que finalmente se realizou. Infelizmente para ela, ele chegou muito tarde. Ela o esperou durante muitos anos, ansiosa e esperançosa de que ele chegasse para salvá-la da vida que ele mesmo a proporcionou. Uma vida de lutas e guerras contra a discriminação e a desonra, mas não podia nunca esquecer que foi muito amada, por aqueles que ela nem esperava que um dia poderia contar.

Mário por sua vez, também contemplava ela e reparou que parecia a mesma menina, porém suas feições estavam mais amadurecidas e diria até um pouco endurecidas. Não tinha rugas ou pele flácida, mas era a expressão dela que demonstrava que aqueles últimos cinco anos, não foram vividos em vão.

— Sim, voltei. Cheguei ontem.

— Vai ficar para o Natal?

— Sim, vou. — ele estava tão envolvido pelo sentimento abrangente do amor por ela, que se decepcionou consigo mesmo por aquelas tão poucas palavras. Tinha tanto a dizer mas estava paralisado.

— Que bom que você veio ver sua família, sua mãe sempre sentiu muita saudade.

— Sim, eu sei e você, sentiu saudades? — perguntou ele, ansioso.

— Ahran, ahran… — a mesma jovem com quem Lili falava antes, chamou-lhes  a atenção. — Por que vocês não se sentam naquela mesinha de canto e eu levo para vocês um café com brioches.

— Boa idéia, Rachel, mas traga um mini panetone, também. — ela o guiou até a mesinha sugerida, sentou-se, apoiando o cotovelo na mesa e encarou-o. 

— Você continua com o mesmo rosto de menina, só mais experiente. — conseguiu dizer ele e ela ficou séria.

Ele nem fazia ideia de tudo que passou e sofreu, inclusive com sua família, que a destratou, achando que ela não merecia ele.

— Você parece maior e mais importante, já era bonito quando foi embora, mas agora, é um homem de verdade. Casou? — era impossível pensar em um homem daquele, solteiro.

Mário franziu a sobrancelha diante daquela pergunta. Será que ela havia esquecido a promessa que fez a ela, em um momento tão íntimo e de tanta entrega? Será que ela era muito nova para isso? Rachel chegou com o café, serviu os dois e se retirou.

— Não casei e você?

— Casei com o trabalho… — disse ela servindo-o.

— Você construiu algo estupendo aqui e em muito pouco tempo. Parabéns.

— Obrigada, sempre foi meu sonho trabalhar com confeitaria e acabei me especializando em panetones. — ela cortou o pequeno panetone ao meio e serviu-o — prove.

Ele tirou um pequeno pedaço com a mão, provou e era delicioso, até se surpreendeu.

— É delicioso e olha que nem sou chegado a doces.

Um sininho tocou na mente dela: como se dariam bem se eram tão opostos?

— Espero que se divirta muito, passando o Natal com seus pais. Volte mais vezes, tenho salgados também. Agora preciso voltar ao trabalho. Foi bom te ver novamente, Mário.

Ela se retirou sem dar chance dele falar nada e ele ficou parado, segurando o panetone, vendo ela ir para dentro da área restrita aos funcionários. 

"O que foi que eu fiz?"  Perguntou-se em pensamento.

Terminou seu café, na esperança de que ela voltasse, mas isso não aconteceu. Então se levantou e saiu, trombando com uma menininha afoita, que se desviou logo e continuou seu caminho correndo, sem sequer se desculpar pelo encontrão. Seguiu-a com o olhar para descobrir quem eram os pais, que não lhe deram educação, mas ela sumiu por dentro do estabelecimento. Enfim, ele foi embora, aquele dia havia sido decepcionante.

Chegou em casa e sua mãe logo notou que ele não estava satisfeito.

— O que foi, filho?

— Encontrei Lili, mas ela foi tão fria.

— Ah, querido, esquece essa menina, ela não te merece. Tem muitas jovens bonitas e de boa família, que darão excelentes esposas. Você é um excelente partido, está montando seu escritório, trazendo uma excelente bagagem e atrairá as melhores jovens. — aconselhou sua mãe.

Mário estranhou a fala de sua mãe, o que existiria por trás disso. O que será que fez Lili, para sua mãe dizer que ela não o merecia?

— Eu passei cinco anos trabalhando duro, para voltar e casar com ela. Nós nos comprometemos antes de eu ir embora e não entendo o que aconteceu. — explicou Mário, triste e parado a frente da janela, observando o pinheiro enfeitado do lado de fora, no jardim.

— Que tal você se arrumar para o jantar? Descanse um pouco e tudo ficará melhor. Agora, você está com sua família e tudo dará certo.

Ela pousou as mãos em seus ombros em um carinho de mãe e ele sentiu-se amparado. Daria tempo ao tempo, buscaria se aproximar de Lili e descobrir o que aconteceu durante esses cinco anos, para ela estar tão fria. De uma coisa tinha certeza, continuava a amando intensamente e não desistiria dela.

*

Na manhã seguinte, se dedicou à obra de seu escritório e ficou satisfeito com a aparência que estava adquirindo, logo poderia entrevistar candidatos para os cargos de recepção e secretaria, além de outros auxiliares e novos advogados. Ter seu próprio escritório, na sua cidade natal, sempre foi seu sonho. Se deu esse presente de natal, trabalhando duro e se arriscando em investimentos pesados, agora podia se dar ao luxo de se dedicar ao que queria.

Saiu, junto com os funcionários, trancou a porta e foi à confeitaria, tomar café e comer alguma coisa. Atravessou a rua e quando estava entrando na confeitaria, mais uma vez foi atropelado, mas dessa vez, ele foi mais rápido e pegou a menina pelo braço.

— Espere aí, sua mal educada, você não pode atropelar as pessoas e sair correndo. Tem que se desculpar.

— Você num é meu pai. — o chute dela em sua canela foi tão forte, que ele largou a menina para segurar a perna e ela sumiu de vista, igual ao dia anterior.

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Comments

Celia Chagas

Celia Chagas

Kkkkk pai e filha se afrontando 😁😁

2024-05-08

4

lucivania oliveira

lucivania oliveira

😂😂😂 pelo menos sabe se defender.

2023-12-04

1

lucivania oliveira

lucivania oliveira

é , ou que fez sua família à ela, para ela tratar você como tratou.

2023-12-04

2

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