O dia amanheceu e Mário acordou com a gritaria das crianças, com certeza estavam abrindo os presentes de Natal e ele não queria perder isso, por nada, levantou-se rapidamente, se arrumou e desceu. Havia uma verdadeira balbúrdia, papel de presente para todo lado e as crianças felizes e brincando. Quando o viram, largaram os brinquedos e vieram correndo, abraçá-lo e agradecer.
— Tio Mário, tio Mário, adorei o autorama que você me deu.
— Eu também gostei do video game.
— Eu gostei mais da minha bonequinha que faz xixi.
— Bonequinha que faz xixi? Não fui eu que te dei isso.
— Foi a Lili, filho. Estava debaixo da árvore e não pude impedi-los de abrir. Esses são o meu e o seu. Se você quiser, eu não abro, você ainda pode devolvê-los.
— Pare com isso mãe, eu não vou desistir de Lili por conta do que pensam dela.
Ele pegou o seu presente e subiu para o seu quarto, abriria lá sozinho e veria o que sua amada deu-lhe de presente. Sua mãe ficou olhando para ele preocupada e resolveu abrir o presente que Lili levou para ela. Não conseguiu conter as lágrimas, era a caixinha de música que ela, por anos, procurou e não encontrou. Sua mãe deixou para ela, mas sua irmã mais nova gostava tanto, que deixou com ela e sua irmã havia vendido, mas não lembrava onde.
Foi para um sofá, sentou-se e abriu a caixinha devagar, ouvindo a música tocando e observando a bailarina dançando. As lágrimas não paravam de cair e a emoção a inundou completamente. Nestor ao vê-la assim, foi até ela, sentou no braço do sofá e a amparou em seu peito.
— Calma, querida. Está tudo bem.
O choro foi diminuindo aos poucos e ela pegou a caixinha para examinar, havia visto sua mãe mexendo naquela caixinha, várias vezes e não era só para ouvir música, havia alguma coisa guardada dentro dela, mas não sabia como abrir. Foi Nestor quem descobriu que, a bailarina era uma chave que se enfiava do lado e quando rodava, expulsava uma gavetinha da parte de baixo.
Ali, Eloíse encontrou algumas cartas e um anel de brilhantes.
— Segredos de família, Eloise. Acho melhor você ir para a sua saleta e ler sozinha e sossegada.
— Você está certo.
Ela subiu para sua saleta e sozinha começou a abrir as cartas. Duas eram de um amante apaixonado e assinadas por alguém que ela não conhecia. A outra, era endereçada a ela e achou estranho, mas abriu e leu:
" Filha querida,
Escrevo esta carta, pois tenho um segredo que diz respeito a você e preciso que saiba. Eu era noiva e estou deixando o anel para você — Eloise olhou o anel na caixa —, nos amávamos muito e me entreguei a ele antes que ele fosse para a guerra. Ele morreu lá e não voltou, mas você já estava em meu ventre. Quando descobri, fiquei desesperada e não sabia o que fazer e contei para o melhor amigo dele, que voltou ileso da guerra e ele se casou comigo. Me perdoe por nunca ter lhe contado, mas esse segredo seria minha ruína. Se descobrissem, meus pais e os amigos, não perdoariam minha situação. Uma mulher solteira, naquela época, era taxada de promíscua e era banida da sociedade. Douglas cuidou muito bem de mim e tivemos mais dois filhos, seus irmãos. Não posso me queixar, mas o grande amor da minha vida, sempre foi seu pai.
De sua mãe,
Cândida."
Eloíse recostou na poltrona onde estava, apoiando a carta no peito e pensando como era triste aquela situação. Ela entendia bem o que sua mãe teria passado naquela época e na de hoje, continuavam a rejeitar as mulheres solteiras que tinham filhos. Era o caso de Lili e por que não dizer, sua nora. Ela não apoiou Mick, mas também não defendeu Mário e Lili. Em sua mente, ainda havia uma grande dúvida, mas com essa carta, pode entender o quão ruim era a discriminação. Ficou ali mais um tempo, meditando no assunto, até que vieram chamá-la para descer.
Mário, em seu quarto, sentou-se na cama recostado na cabeceira e abriu seu presente. Ali estava a verdade à sua frente. Era um porta-retratos, com uma foto linda de Lili, com Mag no colo, menor um pouco do que estava agora. Preso no canto da moldura havia um cartão com os dizeres:
" Agora só falta você, papai."
Foi como um soco na boca do estômago, aquela foto refletia mãe e filha e só então ele percebeu com quem Mag se parecia. Os cabelos eram loiros iguais aos dele e os olhos azuis iguais aos da mãe. Então aquela pequena pirralha peralta, era sua filha?!
Agora entendia o porquê dela fazer tanto segredo. Ela deve ter sofrido muito para não contar a ninguém que era ele, o pai de sua filha. Com certeza, fez isso pensando em proteger a reputação dele, como um advogado, não era bom ser acusado de ter abandonado uma namorada grávida.
A história agora estava completa, provavelmente, o pai dela descobriu que ela estava grávida e ela ainda era de menor, com 16 anos, embora não fosse crime a prática de sexo, o pai dela deve ter perguntado quem era o pai e provavelmente, ela disse que não sabia ou não quis revelar quem era e acabou pagando o preço por isso. Claro que tudo isso eram conjecturas de sua mente, mas precisava falar com ela, urgentemente e esclarecer tudo.
— Sou pai!
Saiu do quarto e desceu as escadas rapidamente, procurando por sua mãe, levando o seu presente na mão. Quando a encontrou, ela também o viu e veio direto ao seu encontro, segurou as duas mãos dele e olhando em seus olhos pediu perdão.
— Eu fui uma tola, filho. Discriminei a menina sem sequer perguntar a ela qual era a real situação. A culpei por algo que nem sei se ela tem culpa.
— Não tem mãe, aqui está a prova. — ele entregou o porta retratos para a mãe.
Eloise pegou o porta-retrato e foi se virando aos poucos para olhar melhor na claridade e ficou absorta, vendo mãe e filha juntas e percebendo o quanto aquela menina se parecia com o pai e a mãe.
— Meu Deus, tenho muito que pedir perdão. Será que ela vai me perdoar?
— O que foi, mãe? — perguntou Mick.
Ela ainda estava muito chocada e não perdeu tempo falando, entregou a foto para que ele visse. Ele empalideceu, percebendo o grande erro que cometeu no dia anterior e que poderia ter destruído a vida de seu irmão com o amor de sua vida. Olhou com tristeza para Mário e Mário friamente, olhava de volta para ele, mas não ficou ali para se condoer de ninguém, nem de si próprio. Foi até eles pegou o retrato de volta e saiu.
Ele não queria mais saber de estar com aquela família, pelo menos, não agora, pois sentiu algo que nunca esperava sentir de seus familiares, a discriminação. Foi muito difícil ver a rejeição deles, para com a mulher que ele mais amava e que precisou tanto da proteção da família e não teve. Subiu, pegou suas roupas e enfiou dentro da mala de qualquer jeito e foi embora. Entrou no carro e seguiu para sua casa, que ainda não estava pronta, mas que pelo menos, era sua.
Não se despediu de ninguém, achou que ninguém merecia. Eles poderiam ter falado com ele e explicado a situação, antes de toda aquela desavença na noite de natal. Agora não sabia como voltaria a se aproximar de Lili, também não sabia como encararia Mag, agora que sabia que era sua filha.
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Atualizado até capítulo 28
Comments
Celia Chagas
Poderia ter ido atrás dela na mesma hora mais ficou em choque agora vai sofrer mais um pouquinho 😏😏
2024-05-08
6
Maria
linda história, vou votar muito
2024-02-12
1
lucivania oliveira
você realmente foi um grande idiota, nada melhor que sua família.
2023-12-04
2