...Fábio...
— Não entendo por que ele tem que ir com a gente — resmungou Christopher sem nem se dar ao trabalho de diminuir o tom de voz.
— Fui convidado — você fez questão de ressaltar enquanto se inclinava, ficando entre os dois bancos na frente, analisando cada movimento meu. — Se quiser reclamar com alguém, reclame com seu funcionário que me convidou.
— Não acredito que vocês dois vão ficar trocando farpas até a gente chegar — grunhi, já exausto de tantas brigas em sequência. — O dia foi bem cansativo, então se puderem ficar em silêncio, vou agradecer bastante.
— Deixe esse garoto em casa e vamos para uma boate — disse o presidente, ignorando por completo minha súplica por paz. — A de sempre, é claro.
— Aposto que é uma boate gay — você se intrometeu como se gostasse de provocá-lo. Não era como se você não tivesse a mínima noção do quão perigoso isso podia ser, muito pelo contrário, você desafiava o perigo que Christopher representava sem sequer hesitar.
— Daniel... — tentei intervir antes que as coisas tomassem proporções maiores.
— É melhor você controlar seu aluninho antes que eu seja obrigado a fazer isso. — As narinas dele inflaram. — E você sabe muito bem que não sou delicado.
— Só acho uma hipocrisia você lutar tanto para legalizar a cura gay, sendo que você faz absolutamente tudo o que condena.
— E que provas você tem disso? — O presidente virou o rosto para te fitar. A expressão era tão rígida e amedrontadora que fiquei surpreso por você não ter se encolhido.
— Não preciso de provas — você disse, cheio de si. — Nunca vi um viado mais enrustido do que você.
— Seu filho da puta! — Ele praticamente se jogou entre os bancos para te alcançar. Sua sorte foi que o cinto de segurança estava fixo e o impediu de chegar até você. Minha espinha gelava só de imaginar o que podia acontecer se Christopher pusesse as mãos em você.
Lancei ao presidente um olhar de advertência e Christopher grunhiu outro palavrão.
— Me deixe na margem — disse, enfim desistindo daquela ideia de me arrastar para uma boate. Eu queria ficar a sós com você, então deixar Christopher na margem seria o ideal. — Estou com saudade da minha ilha, saudades do Ben... — Soltou um suspiro pesado e fiquei mais tranquilo por você não ter feito nenhuma piadinha disso. — Tenho medo de voltar para a Ilha Beris e o Ben não estar lá.
— Ilha Beris? — você perguntou de um jeito menos rude. — Onde fica isso?
— Não compartilho a localização da minha casa por motivos de segurança, mas é a minha ilha particular. Não é tão grande quanto essa, mas é onde eu moro com o Ben. — Confesso que fiquei surpreso por ele responder de forma quase pacifica. Eu já estava preparado para uma nova discussão sem sentido. — Em Chechênia tenho alguns apartamentos, mas minha mansão fica na Ilha Beris.
— Uma mansão — você repetiu, admirado. — Uau.
— Ela tem vários andares — gabou-se, parecendo apreciar a conversa. — Ben tem seu próprio andar. Acho que é o ideal porque assim ele consegue sua própria independência. Seria sufocante vivermos sempre no mesmo teto porque eu não teria para onde ir quando brigássemos e brigamos muito.
Relaxei no assento, satisfeito com a conversa. Pensei que teríamos uma briga de cão e gato até chegarmos a bendita margem, mas minhas súplicas surtiram algum efeito.
Christopher grudou a cara no vidro da janela assim que fui desacelerando o veículo devido ao sinal vermelho. Ele estava muito concentrado em alguma coisa. Apenas dei de ombros e foquei na estrada, torcendo para o sinal abrir logo.
— Pare o carro! — gritou Christopher assim que o sinal abriu e o fluxo absurdo de carros foi aumentando.
— Não posso parar agora! — Minhas mãos tremiam ao redor do volante. — Tem muito carro.
— É melhor você parar ou então vou fazer esse carro capotar. A escolha é sua. — Seus olhos endureceram. Eu conhecia aquele olhar e eu nunca ousaria contrariá-los.
Fiz um ziguezague até conseguir parar na calçada. Carros buzinavam ao serem fechados por mim e fui xingado por diversos motoristas.
— Pronto. — Eu já estava sem fôlego quando estacionei. A adrenalina correndo solta pelo meu corpo. — O que você queria, afinal? — minha voz estremeceu. Eu ainda estava um pouco assustado com aquela mudança brusca.
Ao invés de responder, Christopher destravou as portas e abriu a sua, saindo sem mais nem menos. Eu estava tão em choque que nem consegui impedi-lo. Acabei saindo do carro também para tentar entender aonde ele estava indo.
Tinha um garoto apoiado na parede. Ele parecia ter no máximo uns dezessete anos. Assim que meus olhos pousaram nele, me dei conta do que atraiu o presidente. Era a mesma aparência que o obcecava. Sempre que ele via um rapaz que carregava esses traços específicos, Christopher não descansava até tomá-lo para si. Era um comportamento extremamente doentio do qual eu nunca entenderia.
Ambos estavam imersos numa conversa. Mesmo com minhas dúvidas, bati a porta do carro e fui até lá.
— Christopher — o chamei assim que fiquei perto o suficiente para ser ouvido. — Mas que porra foi essa?
— Pode ir sem mim — respondeu sem tirar os olhos do rapaz. — Ligo para o meu motorista me buscar depois.
— Oi. — O rapaz sorriu para mim. Ele tinha o rosto muito juvenil. Tinha traços semelhantes ao Ben, mas parecia um pouco mais novo do que ele.
— Quantos anos você tem? — Engoli em seco, pois eu já estava ficando nervoso com a hipótese de Christopher sair por aí com um menor de idade.
— Deze... Vinte. — Ele pigarreou e começou a encarar os próprios pés ao ser pego na mentira.
— Viu? Ele tem vinte. — Esboçou um sorriso sedutor que ele sabia que derreteria o pobre coitado.
Christopher sempre foi bom em seduzir esses garotos, porém sempre me incomodou a forma como ele os tratava. O excesso de idolatria era quase doentio. Cheguei a sugerir que fizesse algum tipo de acompanhamento psicológico para conseguir lidar com essa obsessão que ele tinha pelo Ben e por sua fisionomia. Era muito assustador até pra mim que sempre fui amigo dele.
— Acredita mesmo que esse pivete tem vinte anos? — Pisquei, incrédulo. — Não ligo se quiser ficar com os caras, mas um menor de idade...
— Ele não é menor de idade. — Revirou os olhos. — De qualquer forma, é só uma noite. Não é como se eu tivesse pedindo ele em casamento.
— Isso é muito errado. — Mordi o lábio inferior e deixei que meu olhar preocupado colidisse com o do garoto que estava encantado demais com o homem bonito dando trela para notar o alerta em meu olhar. — Ele deve estar no ensino médio ainda. Christopher, vamos...
— Leve o Daniel para a casa — disse, segurando a mão do menino. — Isso foi uma ordem.
Bufei, inconformado. Eu não era ninguém para confrontá-lo. A mente dele era complicada demais para que eu conseguisse entender todas as nuances. Não importava quanto tempo eu passasse com ele, nunca o entenderia por completo.
Voltei para o carro sem questionar. Fui pisando duro durante todo o trajeto. Você saiu do banco traseiro e estava acomodado no banco da frente ao meu lado. Não ousei ficar bravo com isso, muito pelo contrário. Era bom estar ao seu lado.
— O que houve? — Senti uma preocupação quase alarmante em seu tom. Suas sobrancelhas douradas estavam unidas. Eu queria desesperadamente tocar seu rosto, mas ao invés disso apenas liguei o carro e dei partida.
— Christopher e suas loucuras — murmurei com um suspiro.
— Ele deve te tirar do sério — você disse com certa compaixão. Isso trouxe uma quentura agradável em meu peito.
— Você não faz ideia. — Dei risada e sacudi a cabeça.
Ficamos em silêncio até eu estacionar em frente ao seu prédio. Eu não queria te deixar ir. Não agora que sua presença passou a me acalmar tanto. Soltei o ar com alívio ao me dar conta de que você também não parecia inclinado a me deixar.
— Bem... — Sua voz tremeu e seus dedos foram de encontro aos meus como um ímã precisando desse contato. Você pareceu um pouco receoso. Talvez porque estava temendo que eu te rejeitasse.
Acariciei os nós de seus dedos e fiquei tão entretido com seu sorriso em resposta que nem consegui me policiar para manter a postura. Acabei te pegando pelo queixo, querendo que viesse até mim.
Você foi sem nem pestanejar. Estava tão encantado por mim que não hesitou em se aconchegar em meus braços. Eu te agarrei pela cintura. Suas pernas se dobraram enquanto ajeitava sua posição, de modo que ficasse sobre mim. Suas costas estavam apoiadas no volante, os braços rodeavam meu pescoço e gemi ao sentir suas delicadas mãos afagando minha nuca.
Foi impossível não sentir a corrente elétrica quase palpável que se instalou entre nós. Segurei seu rosto com cuidado, meus dedos se demoraram em suas maçãs do rosto. Minha mandíbula travou e meu coração afundou no peito ao tocar seus lábios. Sua respiração estava tão acelerada que a minha acabou se acelerando também.
Nossos corações batiam no mesmo ritmo descompassado. Eu finalmente estava te sentindo de verdade. Estava tocando cada centímetro seu do jeito que sempre ansiei.
Pensei que eu fosse dar o primeiro passo, mas você foi bem mais rápido. Talvez estivesse tão desesperado quanto eu. Afastei uma mecha de seu cabelo da testa antes de você colá-la na minha. Nossos hálitos se misturavam e seus olhos pareciam mais azuis e hipnotizantes do que nunca. A batida seguinte fez meu coração doer.
Eu tinha certeza de que Christopher era o homem mais lindo que eu já tinha visto, mas era difícil continuar acreditando nisso com você na minha frente me encarando desse jeito. Sua beleza era completamente diferente da dele e ainda assim me atraía tanto quanto.
Seu nariz tocou o meu de leve. Você virou a cabeça um pouco e encostou os lábios nos meus. Aquilo me deixou eufórico ao ponto de eu não conseguir raciocinar direito. Notei que era apenas uma mera tentativa sua. Só quando gemi sem dar indícios de que te rejeitaria foi que sua boca me recebeu de verdade.
Desci minhas mãos, deixando seu rosto para contornar suas costas. Sua mão direita pressionou meu peito, sentindo as batidas enlouquecidas do meu coração. Eu deveria me sentir envergonhado por estar agindo assim, mas meus músculos enfraqueceram e tudo o que eu conseguia pensar era em nossas línguas se encontrando e em nossos corações batendo no mesmo ritmo.
Eu estava acelerado. Você estava acelerado. Pela primeira vez compartilhávamos a mesma sintonia e eu apreciava isso.
Seus lábios desgrudaram dos meus e foram descendo até meu pescoço. Um arrepio subiu pela minha espinha e te abracei com mais força. As pálpebras fechadas, o sentimento que estava contido enfim se desprendendo das amarras que eu mesmo coloquei.
— O que foi? — você quis saber, descansando a cabeça na minha. — Já está arrependido?
— Não. — Colei minha testa na sua e te abracei temendo que se eu não o fizesse, você desapareceria. — Eu não queria que você fosse embora. — Me senti patético ao admitir isso.
— Posso não ir. — Sua voz arrepiou os pelos da minha nuca.
— A sua mãe não vai ficar preocupada? — Minha própria pergunta me fez gelar.
Sua mãe, Daniel.
A minha namorada.
Mas que merda!
O que eu estava fazendo?
Onde eu estava com a cabeça?
Beatriz não merecia isso.
Você não merecia isso.
E eu não merecia nenhum dos dois.
— É melhor você ir, está ficando tarde. — Te empurrei com cuidado e você pareceu entender bem o recado, embora estivesse confuso. Não te culpo por isso. Se soubesse a verdade, sinto que ficaria ainda mais machucado do que com uma simples rejeição.
— Se arrependeu de ter me beijado? — O modo como sua voz falhou fez meu coração apertar. Sem querer, acabei te magoando. Era nítido isso.
— Não — respondi depressa na esperança de desfazer essa sua expressão de dor. — Eu queria isso — prossegui e eu me senti mal por essa verdade. Porém, eu preferia me machucar do que te ferir. De todas as pessoas, você foi a única que me aceitou e eu não estava disposto a abrir mão disso. Eu não estava disposto a abrir mão de você.
Era egoísmo? Sim e eu lamentava amargamente por isso.
— Eu também queria — você murmurou, inclinando-se para roubar mais um beijo.
Eu queria te afastar, mas perdi essa batalha interna assim que seus lábios fundiram novamente nos meus. Seu toque fazia minha pele formigar e minha respiração acelerava assim como os batimentos enlouquecidos em meu peito.
Eu queria mais disso.
Eu queria mais de você.
— Você é diferente dos outros — sussurrou enquanto eu acariciava seu rosto com meu polegar. Você era tão lindo que eu temia que fosse uma mera ilusão minha. — Meu coração foi partido tantas vezes.
Abaixou a cabeça e seus olhos azuis ficaram maiores, tomados pela tristeza.
— Não sei se conseguiria me recuperar se o partissem de novo.
Quando voltou a me encarar, consegui sentir sua súplica quase desesperada.
— Promete que não vai partir meu coração? — sua voz pareceu estrangulada e sem vida. Aquilo doeu. Quantas pessoas que passaram pela sua vida te feriram dessa forma? Sem sombra de dúvidas eu não queria fazer parte dessa lista.
— Se algum coração tiver que ser partido, vou me certificar de que seja o meu. — Esbocei um sorriso e você retribuiu. Era o sorriso mais perfeito que já vi.
Fiquei tão encantado que nem consegui antecipar o próximo beijo, tão ardente e de tirar o fôlego quanto o anterior.
É, eu podia me acostumar com isso.
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Atualizado até capítulo 44
Comments
Vilma Lima
nossa doeu ouvir isso 😔😔😔😔
2023-01-21
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