Meus neurônios já estavam fritando quando cheguei no corredor do campus.
Permaneci encostado na parede, esperando Valentin sair da aula de anatomia. Claro que não demorou muito para um otário vir perturbar minha paz interior.
— E aí, viadinho de merda. — A voz de Ivan reverberou pelos meus ouvidos feito uma música ruim.
— Tá falando comigo? — Decidi fazer a egípcia. Sinceramente, minha paciência com atletas esgotou há séculos.
— Está vendo outro viadinho por aqui? — sua provocação me fez dar um sorrisinho de canto de boca.
— Estou olhando para um agora. — Chutei a parede para me desgrudar dela e levantei a cabeça para encará-lo.
Ivan era um dos otários que foi rejeitado por mim porque queria mais do que sexo. Desde então, sua meta de vida era tentar fazer da minha existência um verdadeiro inferno. Porém, eu era evoluído demais para ser atingido por pequenas coisas.
— Vou te meter a porrada, seu merda. — Suas mãos se fecharam num punho e não demonstrei qualquer tipo de medo. Eu sabia que ele estava caidinho demais por mim para me bater de verdade.
— Ah, por favor. — Me esforcei para soar o mais doce possível, tão doce que minha voz saía em tom de gemido. — Faça isso. — Ele se encolheu um pouco quando me aproximei. Seus amiguinhos encaravam a situação de um jeito meio apático. — Meu pau fica duro só de imaginar você metendo qualquer coisa em mim.
As narinas dele inflaram e os olhos semicerraram.
— Deixe ele em paz! — Dimitri surgiu atrás de Ivan. A camisa do time pendurada no ombro.
— Por que diabos está defendendo ele? — Ivan pareceu indignado com a intromissão.
— Não precisa me defender. — Revirei os olhos. — Vão correr atrás de uma bola porque é isso que vocês fazem de melhor e parem de tentar tomar conta da minha vida.
Ouvi Dimitri gritando meu nome assim que comecei a me retirar, mas ignorei. Acabei esbarrando em Valentin, que segurava com afinco seu pesado livro de anatomia. Pela forma como suas pálpebras caíam, tudo me levava a crer que não teve uma boa noite de sono.
— Estou cansado pra caralho — disse enquanto enfiava de qualquer jeito o livro na mochila.
Valentin era o tipo de cara que não tinha muitas papas na língua. Era esquentadinho demais. O único que conseguia domar aquele garoto era seu namorado. Douglas merecia um Oscar por conseguir lidar com ele sem enlouquecer. Para o meu azar, Douglas estava viajando em algum retiro de igreja, o que só deixava Valentin ainda mais estressado e quem tinha que lidar com isso? Euzinho, é claro.
A camisa azul que Valentin usava estava amarrotada. Se ele não fosse um amigo muito querido, jamais andaria do lado dele. Ao contrário de mim, ele não prezava tanto assim pela sua aparência. Era nítido que ele não tinha nenhum senso de moda.
Comprei até um creme para ele passar na pele, só que claramente ele nem tinha se dado ao trabalho de usar. Os olhos estavam opacos e cabisbaixos, implorando por uma boa noite de sono.
A pele negra ficaria ainda mais bonita se ele usasse os cosméticos que lhe dei de presente. Se antes ele não se cuidava muito bem, agora que ele entrou na faculdade, se cuidava menos ainda. Se não fosse por mim, duvido que pararia tudo para comer alguma coisa.
Os estudos viraram prioridade na vida dele e eu não o culpava. Depois do inferno que passou por conta do nosso presidente e sua temível cura gay, querendo ou não, os estudos eram uma ótima válvula de escape.
— Há quanto tempo você não dorme? — Acariciei o topo de sua cabeça, deixando que meus dedos entremeassem em seus cabelos crespos.
— Um bom tempo. — Tive a impressão de que ele desmaiaria a qualquer momento, então passei meu braço pelos seus ombros e comecei a guiá-lo até a lanchonete para beliscar alguma coisinha. — Douglas me liga na madrugada por causa do fuso horário.
— Que inconveniente. Manda esse garoto dormir. Ele não sabe que você está louco por causa da Medicina?
— Sabe. — Valentin deu de ombros. — Por isso mesmo me liga. Gosto de ouvir a voz dele.
— Argh! Você tá mais meloso do que o Otávio. — Mencionar meu primo era uma coisa que eu fazia com frequência.
Ele era o alvo das minhas principais comparações, até porque cresci com meu cousin cosy do meu lado. Mesmo que agora ele tenha se tornado um cantor tão famoso que mal pode sair para comprar pão sem arrastar uma legião de fãs, ele sempre foi meu ídolo. Claro que isso é um segredo meu. Nunca seria louco de contar isso para ele e deixá-lo ainda mais arrogante. Otávio já se achava a última coca-cola do deserto sem essa informação.
— Ainda temos que entrar num grupo — falei assim que nos acomodamos numa mesa do refeitório. — Eu tava pensando no de música, o que acha?
Os roncos altos de Valentin deixaram bem claro que minha pergunta foi ignorada com sucesso. Bufei e fui até a fila comprar comida e abastecer esse corpinho. Como já era típico, algumas garotas se aglomeraram ao meu redor com os gritinhos exagerados e pulinhos. Parecia que eu era alguém muito famoso.
— Dani, fiz isso para você. — Uma garota tímida me entregou uma caixa cheia de doces. — É a receita da minha mãe. Passei a madrugada inteira preparando. Descobri que você gosta de bolinhos de chuva, então tive que fazer.
Agradeci e quase fiquei cego quando vi um flash na minha cara. Nunca entendi por que as garotas gostavam tanto de tirar fotos minhas. Sempre que eu ia me aventurar na fila do refeitório, saía com várias comidas que nunca comprei. As próprias garotas me entupiam de tudo quanto é tipo de petiscos e quitutes. Quem era eu pra reclamar, não é? Eu tinha um fã clube muito dedicado.
— Já decidiu em que grupo vai entrar? — perguntou outra garota, igualmente tímida por falar comigo.
— Acho que o de música, Anna — respondi, ainda pensativo.
— Ah, meu Deus! — ela deu um gritinho que quase me fez pular de susto. — Ele lembrou meu nome!
— Eu disse para você que ele iria para o de música. — Uma deu cotovelada na outra que estava muito ocupada entrando em choque por eu ter lembrado o nome dela. — Temos que nos inscrever logo antes que não tenham mais vagas. — Ela esticou uma sacola e seu rosto ficou vermelho quando a peguei. — Comprei esses sprites para você.
— Valeu. — Saí da fila na mesma hora porque não via mais sentido em permanecer nela.
— Vai para a festa da fogueira no sábado? — Eram tantas garotas falando ao mesmo tempo, que era difícil acompanhar o fio da meada.
— Uma festa não é uma festa sem Daniel Pavlova, não acham? — Ofereci meu melhor sorriso e achei que elas fossem desmaiar. Nem queria saber como elas reagiriam se encontrassem alguém famoso de verdade.
— Eu nem ia, agora eu vou — disse Anna, sacudindo seus cabelos curtos, castanhos e desfiados. Dava pra ver que estava pensativa. — Acha que eu devo ir com qual vestido? Qual cor?
— Rosa, sempre rosa — murmurei porque era óbvio para mim e devia ser para elas também, até porque todas elas usavam justamente essa cor porque era a minha favorita. Como eu disse: meu fã clube era bem dedicado.
— Ah, claro. Que burrice a minha! — Anna deu um tapa na própria testa. — Vamos nos inscrever no grupo de música. Vai me ensinar violão, Dani?
— Ele vai ter que ensinar para mim também — uma gritou indignada.
— Pra mim também — ouvi outra dizer.
— Posso ensinar para todas. — Esbocei um sorriso meio amarelado, sem revelar que eu não fazia ideia de como se segurava um violão.
Porém, isso deixou todas tão satisfeitas que correram para se inscrever no grupo de música, cuja primeira aula rolaria no fim do dia. Ou seja, tinha que me inscrever o mais rápido possível antes que as vagas se esgotassem.
Voltei para a mesa e fiquei um pouco mais feliz em saber que Valentin estava acordado. A última coisa que eu queria era lidar com seu mau humor ao tentar acordá-lo e nunca obter êxito.
— Nunca vou entender esse seu fã clube bizarro. — Valentin meneou a cabeça. — Você não sofre bullying dos atletas por roubar todas as garotas?
Abri a caixa de bolinhos de chuva e peguei dois sprites, dando um para o Valentin antes de abrir o meu. Minhas meninas eram exageradas e sempre me davam oito ou nove latas por dia. Nem queria imaginar a despesa semanal que eu dava a elas.
— Que atletas? Aqueles que eu como no vestiário depois do treino? — questionei em tom de malícia.
— Ainda trepa com o capitão? Achei que tinha desencanado — disse, mordiscando um dos bolinhos.
— Claro que trepo. Ele é gostoso como esse bolinho. — Dei uma piscadela e Valentin revirou os olhos. — Eu era meio virgem quando conheci ele.
— Citando ''Meninas Malvadas'' numa hora dessas?
— ''Meninas Malvadas'' é minha religião. Enquanto sua meta de vida é ser médico, a minha é ser Regina George. — Recostei-me na cadeira de plástico, cruzando as pernas.
— Só você mesmo. — Meneou a cabeça. — Ficou sabendo que meu primo vai dar aulas aqui? Bem, ele vai ser o professor do grupo de música.
— Que ótimo porque é exatamente para onde vou. Vai ser bom ter mais um membro da família Costa na minha vida — tentei não soar tão irônico, mas acho que não deu muito certo. Valentin já dava trabalho o suficiente.
— Seja bonzinho com ele, ok? Fábio é meio tímido.
— Não sei por que está falando assim. Você também vai para o grupo de música comigo.
— Eu não posso. Vou ter grupo de estudo e preciso focar nisso. Ao contrário de você, não tenho tanto tempo livre assim. Meu curso infelizmente não permite muito lazer.
— Então quer dizer que vou ter que enfrentar mais um Costa sozinho? Por Gaga, que perigo!
— Fábio é bem diferente de mim, então relaxe. Só prometa que não dará em cima dele. Ele é professor, então espero que tenha um pouco de respeito — o jeito mandão dele me fazia ter vontade de gargalhar bem alto porque nunca levei muito a sério. — Sei muito bem que você dá em cima de qualquer coisa que se mexa.
— Nunca dei em cima de você.
— Claro. Eu nunca cairia no seu papinho.
— Até parece! — Dei um tapa na mesa. — Se eu quisesse te pegar, com certeza teria pegado. Qual é, ninguém resiste aos meus encantos.
— Há, é claro. — Valentin riu como se eu fosse uma piada. — O lendário Daniel Pavlova que passa o rodo em todo mundo.
— Exato. Tenho uma reputação a zelar — decidi ignorar os traços de sarcasmo em sua afirmação. — Mas fique tranquilo. Não tenho interesse em conquistar um Costa, muito menos um professor. Eles me dão dor de cabeça o suficiente em sala de aula.
— Daniel. — Senti uma mão masculina em meu ombro e nem precisei me virar para saber que era o Dimitri. Aquilo já estava virando um caso de perseguição. Tudo bem que eu era irresistível, mas precisava ficar no meu pé o tempo todo? — Posso te ligar hoje? — a forma quase desesperada como disse aquilo me fez querer vomitar. Sério que esses garotos não se mancavam? Que parte do sexo casual eles não entendiam?
— Poder você pode. — Arrastei a cadeira e me levantei, farto daquela conversa, daquele refeitório e principalmente desses atletas que me perseguiam. Meu novo objetivo era assinar meu nome no grupo de música e me isolar em algum lugar mais calmo. — Só não garanto que vou atender. — Sorri de um jeito forçado e dei o fora antes que Dimitri tivesse a chance de retrucar.
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Oiii meus anjos mais um capítulo espero que gostem ♡
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Atualizado até capítulo 44
Comments
🌟OüTıß🌟
Rapaz,nem sabia q vc conhecia minha família!
2024-08-13
0
Vilma Lima
Daniel arrasa já sou fã dele
2022-11-29
2