Senti meu corpo inteiro anestesiar pelo pânico em vê-lo ali. Afastei-me de Fábio na mesma hora e fiquei de pé, indo na direção de Dimitri .
— O que faz aqui? — perguntei, tendo aquela impressão esquisita de ter sido flagrado.
— Resolvi dar uma passadinha na lanchonete. — Me mostrou uma sacola de papel cujo cheiro era delicioso. — Fiquei com preguiça de fazer algo pra comer. — Seus olhos foram de mim até Fábio. — Quem é esse? — O ciúme praticamente gritava em sua pergunta.
— Fábio. — Apontei para meu professor. — Ele está me dando aulas particulares de violão. Sabe que meu sonho sempre foi ganhar o coração dos jurados no festival, não é?
— E ele precisa ficar tão perto de você para ensinar? — Aproximou-se de mim, tocando meu rosto de forma íntima. O jeito como ele tentava a todo instante marcar território me dava nos nervos. — Sabe que não gosto que outros caras fiquem te agarrando.
— Ele não estava me agarrando — tentei defendê-lo mesmo sabendo da verdade. — E mesmo se estivesse, não te diz respeito.
— Que roupa é essa que você está usando? — Agarrou meu cotovelo um pouco forte demais. — Já te falei para não sair assim na rua, as pessoas podem...
— Está interrompendo a minha aula. — Fábio se levantou e passou o braço pelos meus ombros. — Solte meu aluno, por favor.
— Não preciso que me defenda — grunhi, puxando meu braço de volta antes de Dimitri o apertasse mais. A marca perfeita de seus dedos ficaram desenhadas em minha pele num doloroso tom vermelho. Se eu não tivesse arregaçado as mangas da jaqueta, talvez o couro tivesse protegido meu cotovelo do atrito, mas era tarde demais para me arrepender. — Vaza daqui, Dimitri .
Mesmo ciente da minha raiva, o idiota ousou se aproximar ainda mais e afagar meu rosto. Segurou-me pela nuca e tocou meus lábios com os seus de leve. Senti Fábio me largar imediatamente assim que percebeu que eu estava correspondendo ao beijo por mais errado que fosse. Dimitri era babaca em todos os aspectos, mas eu não podia negar que beijava como ninguém.
Assim que a mágica do beijo se dissipou, Dimitri olhou para os lados alarmado como se só agora se desse conta de que estávamos em Chechênia: o país do preconceito que odiava gays. Eu estava sem fôlego quando ele coçou a cabeça e suspirou de alívio ao se certificar de que ninguém viu a gente se pegando.
— Nos vemos amanhã — disse sem me tocar de novo e foi embora sem olhar para trás.
Me acomodei na grama, a cabeça girando.
— É o seu namorado? — O incômodo presente na voz dele me deixou bem satisfeito.
— Não — respondi automaticamente. — É só um dos caras com quem eu trepo.
— Um dos caras — repetiu de forma amarga. — Com quantos caras você fica?
— Muitos, tantos que é meio difícil contar nos dedos. — Esbocei um sorriso. — Eles são meio possessivos, acham que tem o direito de me dizer o que fazer. Já passei por muitos relacionamentos abusivos, então acabo me entregando apenas ao sexo. Me machuquei tanto que a única coisa que tenho a oferecer é meu corpo, então é o que faço.
— Isso é meio triste — murmurou, tirando a franja dos meus olhos e colocando atrás da orelha. — Não te conheço muito bem, mas não acredito que alguém possa te atingir desse jeito. Quer dizer, você parece tão... seguro.
— Tenho uma autoestima que vai até a lua, isso é um fato. Mas não sou seguro e nem ingênuo. É difícil lidar com as críticas diárias que recebo o tempo todo.
— Sobre isso, quero me desculpar pela forma como te julguei pelas roupas.
— Já me pediu desculpas.
— Eu sei. — Suas mãos desceram do meu rosto até meu colo, onde acabou entrelaçando os dedos nos meus. O calor da sua palma irradiava de tanto aconchego. — Sou idiota, muito idiota. A verdade é que acho incrível a sua coragem. Não são muitas pessoas que tem culhões de andar por aí de salto rosa sendo homens e fui insensível em fazer piada disso.
— Já vi que temos muito o que ensinar um ao outro — falei, pressionando de leve as costas de sua mão com meu polegar suado.
— Sou obrigado a concordar. — Sorriu e tudo dentro de mim amoleceu. — Sabe, achei que você fosse o típico romântico incurável como eu, que aquelas provocações de mau gosto fossem apenas fachada.
— Não sou lá muito romântico — admiti, dando de ombros. — A verdade é que meu mundo gira em torno de sexo. É o que me permito conhecer. Vamos combinar que é mais fácil entregar o pau do que o coração, né?
— E você é feliz assim? — questionou sem rir da minha frase de efeito.
— Não vou negar que seria incrível me apaixonar por alguém de novo, sentir aquele êxtase de um novo amor. Só que pra mim é difícil ver o conto de fadas do começo se transformando num drama de novela mexicana que vai destruindo minha sanidade. Amar é bom, mas dói e ninguém te prepara para isso.
— Sei do que está falando. — Soltou minha mão e não curti nadinha isso. — Já amei desse jeito. Uma vez. Foi a pior época da minha vida.
— Deixa eu adivinhar: tem a ver com o bonitão da lanchonete? — Pisquei, ansioso por uma retratação. — O jeito como ele falou de você me deu a impressão de que...
— Sim — disse tão rápido que nem consegui terminar minha linha de raciocínio. — Tem a ver com ele, mas não quero falar disso.
— Tudo bem. — Tentei não deixar tão na cara que sua falta de explicação me deixou meio chateado. — A última coisa que quero é estragar tudo fazendo você chorar de novo.
— A surpresa em vê-lo foi o que me fez chorar — explicou e era nítido o quanto aquele assunto era delicado para ele.
— Então você é gay? — perguntei porque querendo ou não era o que me afligia. — Se bem que por namorar uma garota, pode ser que você seja bissexual. Sexualidade é algo muito mais amplo do que simplesmente hétero ou gay.
— Sou gay, sempre fui — falou com tanta naturalidade que nem parecia o tipo de pessoa que trabalhava para o verme Christopher Alvarez Leal: a personificação da homofobia.
— E ainda assim ajuda o presidente a encontrar uma cura para a homossexualidade. — Resisti ao impulso de rir porque a situação em si era ridícula a esse ponto.
— Christopher tem os motivos dele para se odiar e eu tenho os meus. — Deu de ombros como se isso não fosse nada de mais, como se vidas não fossem jogadas fora com aquele método absurdo de tortura em busca de uma cura para uma doença que nunca existiu. — Apesar de ele sempre parecer deslumbrante e carismático diante das câmeras, ele é um homem repleto de demônios. A homossexualidade é um peso, um fardo insuportável para ele e não o julgo por tentar reverter isso.
— O problema é que ele usa seu ódio para tirar a vida dos outros — mal consegui falar devido ao nó que se instalou em minha garganta.
Eu tinha vontade de berrar até não poder mais só de lembrar do ex-namorado do Valentino, que atravessou um verdadeiro inferno naquela terapia de reversão ou o primeiro amor do Otávio, que morreu durante o tratamento. Eles foram simplesmente eliminados como insetos e ninguém fez nada a respeito.
— Não ligo para o ódio que ele sente dele mesmo — cuspi, inconformado. — Na real, se eu fosse ele, teria vergonha de me olhar no espelho. O que me incomoda é ele manipular a população e matar pessoas a troco de nada. É quase como se Hitler tivesse voltado a todo vapor.
— Não concordo com o método dele, por isso eu estava tentando desenvolver um que fosse menos cruel — disse e nem de longe me deixou satisfeito. A mera palavra ''cura gay'' já me deixava com os nervos à flor da pele. — Acredito que se você suprimisse todas as lembranças que te fizeram homossexual, talvez você deixasse de ser um. Se você esquecesse o dia em que seu coração bateu mais forte por um garoto, que seu pau subiu na presença de um... Isso talvez possa ser uma cura mais satisfatória.
Coçou a cabeça, parecendo desconcertado por alguma razão.
— Percebi que falo demais quando estou com você, o que pode ser um problema — prosseguiu. — Eu nem devia ter te contado isso porque é meio sigiloso, mas acho que Christopher não me mataria por expor esse plano.
— Isso é loucura. — Era tanta asneira que não consegui acreditar como uma pessoa pode ter a mente tão atrasada. — Mesmo que seu cérebro esquecesse, seu coração iria lembrar. Não é uma doença. Por que vocês não se empenham em curar o câncer, por exemplo? A única coisa ruim na homossexualidade são os homofóbicos de plantão que não conseguem aceitá-la. Pode falar que não compactua com Christopher, mas suas atitudes mostram o oposto. Tem alguma coisa muito quebrada dentro de você ao ponto de não tolerar a felicidade dos outros porque é incapaz de correr atrás da sua própria.
— Vai me dizer que está feliz? — Sua pergunta me atingiu como farpas. — Que se pudesse ser normal, não aceitaria?
— Sou muito feliz com quem sou, obrigado pela preocupação. — Doía saber que a pessoa por quem eu estava começando a me apaixonar tinha o pensamento tão mesquinho. Chegava a ser triste ver um homem dez anos mais velho do que eu pensando como adolescente homofóbico, que acreditava que o mundo se resumia a Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo. Me poupe! Nessa ladainha sem futuro eu não cairia nem fodendo. — Se eu pudesse ser normal, não aceitaria. Normal é chato, devia saber disso.
— Prefere apanhar na rua então? — sussurrou como se fosse a única coisa que importava.
— Não entendo você — grunhi. — Disse que eu era corajoso por ser desse jeito e agora está me dizendo que eu deveria mudar? Você tem algum tipo de transtorno de personalidade?
— Não. — Emitiu um suspiro pesado e abaixou a cabeça, provavelmente refletindo sobre o que diria. — Admiro você. Quem sou eu pra impor como você deve ou não agir? Eu só queria que entendesse o meu ponto.
— Ainda não entendo — cuspi com rispidez. — O que te incomoda tanto no amor dos outros?
— E-E-Eu... — Ele fechou os olhos, parecia prestes a chorar de novo e fiquei com medo de ter sido duro demais com ele. Porém, se tinha um assunto que me tirava do sério era o preconceito. Todo mundo tinha preconceito, isso era óbvio. Sempre tive ranço de quem não gostava de Madonna, mas eu não dizia que elas iam queimar no inferno por isso. — Se eu te contar, você promete que não vai dizer a ninguém?
— Prometo. — Minha curiosidade ficou tão atiçada que quase voei em cima dele para fazê-lo desembuchar de uma vez.
— O problema não é a homossexualidade em si, pelo menos não pra mim. — Pausou e isso me frustrou. Eu detestava pessoas que não iam direto ao ponto e ficavam enrolando eternamente. — Não nasci biologicamente um homem. — A dor ao dizer aquilo queimava em seu olhar. — Nunca me vi como uma garota, por mais que o espelho refletisse uma.
Embora me encarasse, ele não parecia me enxergar. Tive a leve impressão de que estava imerso em pensamentos, nadando num mundo só seu, do qual eu provavelmente nunca faria parte.
— Eu me sentia um menino, sempre foi assim. — Cada palavra vinha com uma carga enorme de agonia. Senti que estava cutucando uma ferida que ainda não cicatrizou. — Conforme eu crescia, me dei conta de que os garotos também me atraíam.
— Então você é um homem transexual — murmurei na esperança de facilitar para ele e diminuir ao máximo aquela sessão de tortura.
Acabei me lembrando do meu primo Ian, que por muito tempo teve problemas com sua identidade de gênero. Acompanhei todo o processo de hormonização dele, ouvi suas choradeiras em nossas inúmeras ligações. A insegurança com o próprio corpo, o peso de ter nascido diferente. Claro que me tranquilizava saber que mesmo passando por todo esse inferno, Ian conseguiu ser feliz e se amar do jeito que era, deixando de se enxergar como um erro, como algo defeituoso que não deveria existir.
Mesmo tendo certo contato um transexual, foi um baque e tanto ouvir aquilo porque Fábio não tinha nenhum traço feminino, o que só podia indicar o uso de hormônios. Sua voz era bem mais grossa do que a minha e seu corpo bem mais masculino do que o meu. Para ser sincero, era difícil acreditar. Ainda assim, fiquei com medo de que ele encarasse minha reação de puro choque como algo negativo, como uma rejeição.
— Sim. — Parecia ter muita dificuldade em sequer olhar para mim como se eu fosse tacar milhares de pedras nele por conta disso. — Além de eu ser diferente, também existe o preconceito na própria comunidade gay. Não são muitos caras que aceitam sair com homens de vagina. Isso machuca. — Sua expressão partiu meu coração de tal modo que me vi na obrigação de segurar a mão dele e afagá-la. — Ser rejeitado por isso machuca, então entende por que prefiro não ser gay? Vai muito além da sexualidade em si, tem a ver comigo, do que tem errado comigo.
— Não tem nada errado com você — rebati, soltando sua mão para secar as lágrimas que começaram a descer pelo seu rosto.
A forma como ele ia aos poucos expondo sua vulnerabilidade mesmo me conhecendo tão pouco era bem satisfatória. Poucas pessoas confiavam em mim o bastante para se expor desse jeito e fiquei grato por ele ser uma delas.
— E não acho que esquecer quem você é sirva de saída para qualquer coisa — sussurrei, meus lábios ficando mais secos a cada palavra. — Fugir nunca é a solução. Lido com isso o tempo todo, chega a ser desgastante na maioria das vezes. Mas eu nunca trocaria quem sou por uma vida mais fácil e você devia se sentir assim também.
— Mas não me sinto. — Mordeu o lábio inferior enquanto fungava. — Nem minha namorada sabe disso e sempre penso em como ela reagiria.
— Se você é gay, então por que namora uma mulher? — Por mais que eu tentasse assimilar, aquilo não entrava na minha cabeça de jeito nenhum.
— Porque assim sei que não vou me apaixonar. E se eu não me apaixonar, as chances de eu me magoar são menores — disse como se aquela explicação absurda fizesse todo o sentido na cabeça dele. — Christopher disse que...
— Por favor, não cite qualquer frase desse idiota metido — grunhi, já tendo dores fortes de cabeça só com aquela conversa. Era tanta coisa sobre Fábio que descobri num único dia que chegava a ser difícil digerir tudo. — Por que me contou sobre sua transexualidade? — Se ele era tão inseguro, então não fazia sentido despejar tal fato na nossa primeira aula particular.
— Não sei. — Sacudiu a cabeça. — Acho que confio em você. Talvez uma parte de mim sinta que você me entenderia. — Emitiu um longo e torturante suspiro. — É melhor dizer logo isso antes que descubra sozinho. Todos que descobriram por conta própria me machucaram mais porque eu já estava envolvido tempo o suficiente para o afastamento doer. Então se quiser declarar seu ódio por mim, é melhor que seja antes que eu acabe me afeiçoando a você.
— Acha mesmo que eu seria tão babaca ao ponto de te odiar por isso? Logo eu?
— Não, quer dizer... — Ele parecia em conflito consigo mesmo. — Até Christopher que é o cara que mais respeito no mundo não me vê exatamente como um homem, então aprendi a não esperar a aceitação das pessoas porque ninguém nunca me aceitou de verdade. As pessoas apenas toleram.
— É frustrante viver esperando a aceitação dos outros — murmurei porque eu já tinha desistido há tempos de viver como um escravo das expectativas alheias. — Então se contente apenas com a sua. Se você está feliz assim, é o que importa.
— Queria que fosse fácil assim.
— Não é. — Resisti ao impulso de abraçá-lo porque era isso que meu coração disparado implorava que eu fizesse. — É uma luta diária. A aceitação vem com o tempo, mas é o primeiro passo. A primeira pessoa que deve te aceitar é você mesmo, o resto vem com o tempo.
Antes que ele pudesse me responder, seu celular vibrou no bolso e ele atendeu, a voz embargada de antes se transformando numa mais firme em questão de segundos.
— Claro, Christopher — disse e não pude deixar de fazer uma careta de nojo ao escutar a mera pronuncia daquele nome. — Tudo bem, já estou indo.
Desligou e colocou o aparelho no bolso. O acompanhei assim que ele ficou de pé, limpando a calça suja de grama. Observei com um aperto no peito ele guardando o violão de volta na capa. A última coisa que eu queria era que ele fosse embora. Por mim, nossa aula não acabaria nunca. Queria saber mais sobre ele, sobre suas inseguranças, seus medos. Queria ajudá-lo nisso, queria fazê-lo enxergar as cores que seus olhos vendados pelo preconceito não tinham acesso.
— A gente conversou mais do que tocamos violão — disse com uma risada, passando a correia do violão pelo meu ombro. — Vou deixá-lo com você para que pratique. Na próxima aula, prometo que vou me expor menos e me concentrar apenas em te ensinar a tocar.
— Não precisa. Gosto quando fala de si mesmo. É bom desabafar, sabe?
— Você foi basicamente a única pessoa no mundo que não me julgou, que não me olhou torto. — Confesso que fiquei lisonjeado com a admiração quase explosiva que parecia nutrir por mim. — Obrigado por isso.
— Não há de que — respondi, embora não fosse nem de longe tudo o que eu queria dizer.
— Por que não te conheci antes? — murmurou, colando a testa na minha, fazendo minha garganta se fechar imediatamente.
— Antes de quê? — Fechei os olhos porque não tinha coragem de abri-los e olhar para ele.
— Antes — foi só o que disse e estremeci ao sentir seus lábios pressionando em minha testa suada de tanto nervosismo. — Até amanhã, Daniel.
Abri as pálpebras assim que parei de sentir o cheiro adocicado de seu perfume. Meu coração parou de bater tão dolorosamente quando deixei de sentir sua presença. No entanto, não tê-lo por perto era pior do que quase desmontar ao lado dele.
— Britney que me proteja porque estou muito fodido — sussurrei para ninguém em particular apenas para ilustrar o quão desnorteado uma simples aula me deixou.
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Atualizado até capítulo 44
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