CAPÍTULO 11

Oii anjos esse capítulo vai ser diferente, vamos descobrir um pouco mais sobre quem é Fábio Costa espero que gostem e boa leitura...

...Fábio...

É possível se machucar mesmo estando morto por dentro?

Essa pergunta martelava em minha cabeça, arranhando meu cérebro como uma coroa de espinhos. Tal questionamento pulsava em mim como a batida de um coração descompassado. Era como uma música composta única e exclusivamente para confundir meus neurônios.

A fragrância doce ainda dominava minhas narinas.

Um mero lembrete seu.

Um mero lembrete de que eu poderia me perder ainda mais.

Abri a porta da frente do apartamento. Era bom estar em casa. Era bom sentir que eu pertencia a algum lugar no mundo. No entanto, era triste que o único lugar em que eu podia ser eu mesmo estivesse soterrado por tanta tragédia ao ponto de fechar minha garganta, dificultando minha respiração momentaneamente.

Aos poucos, seu cheiro doce e tão intenso em minhas narinas, foi substituído pelos de remédios, sangue e vômitos. Era a realidade na qual eu me encontrava. Uma realidade em que você não fazia parte.

— Cheguei. — Coloquei a pasta em cima da mesa junto com o molho de chaves. Me despi da jaqueta e segui o cheiro forte de remédio, que me levou até a sala de estar.

A televisão estava ligada como sempre num canal aleatório. Aidan não estava assistindo, pois estava muito ocupado se debruçando sobre um balde aos seus pés. O odor amargo do vômito me deixou nauseado. Não fazia sentido. Eu já devia ter me acostumado com aquilo.

Thiago Pavlova mantinha as mãos nas costas de Aidan, trazendo o balde para mais perto. Aidan fechou os olhos com força e secou os lábios franzidos com a manga do moletom cinzento. Thiago passou os dedos por entre os fios loiros num topete desalinhado e pegou o gorro de lã azul para cobrir a careca reluzente de Aidan.

Podia ser apenas impressão minha, mas ele parecia cada vez mais doente. Era como se a quimioterapia não estivesse dando qualquer resultado promissor. Ver meu irmão definhando dia após dia me machucava. Saber que talvez ele não tivesse chances de sobreviver, me matava. Aquela era a prova concreta de que sim, era possível se machucar mesmo estando morto por dentro.

— Veio cedo hoje — murmurou Aidan com a voz mais fraca e sem vida do que o habitual.

— Comeu alguma coisa? — perguntei, já prevendo a resposta.

— Não estou com fome. — Aidan cruzou os braços e estremeci ao ver o quão esquelético estavam seus braços.

— Não foi isso que eu perguntei. — Levantei o olhar, mirando Thiago. — Não deu nada para ele comer?

— Dei. — Thiago não tirou os olhos de Aidan ao responder. — Mas ele vomitou tudo.

— Não estou com fome — repetiu, agarrando a manga do jaleco de Thiago.

— Isso não é desculpa. — Thiago esboçou um sorriso que fez Aidan sorrir também. — Vou preparar alguma coisa pra você, coisinha.

— Estou tão enjoado. — Aidan pressionou a barriga. — Posso comer amanhã. Quero dormir.

— Você vomitou muito hoje — disse, acariciando a testa dele. — Precisa se alimentar. Repor as energias.

— Tá bem. — Abaixou a cabeça em sinal de derrota. Thiago era a única pessoa que conseguia convencer meu irmão a fazer qualquer coisa que fosse. Claro que por ser seu médico, suas recomendações possuíam mais valores do que as minhas.

Acabei seguindo Thiago até a cozinha, pois eu sabia que minhas perguntas irritavam Aidan. Decidi lhe dar alguns minutinhos de paz, já que sua saúde se mostrava mais frágil a cada dia que se passava.

— Ele está melhor? — perguntei, apoiando os cotovelos na pia enquanto Thiago cortava os temperos.

— Ele precisa do transplante. — Thiago não olhou para mim ao murmurar. Não respondeu minha pergunta, o que só agravou meu nervosismo. — Urgente.

— Mas a quimio...

— Está em andamento. Esses efeitos colaterais são comuns durante o tratamento. Ainda assim, precisamos encontrar um doador o quanto antes. — Os músculos de seus braços ficaram rígidos. — Christopher está fazendo o possível para encontrar algum que seja compatível.

— Eu sei. — Enterrei meu rosto nas mãos, suspirando bem alto. — O que me apavora são as chances do corpo dele rejeitar as células tronco.

— Não seja tão negativo. — Thiago sacudiu a cabeça. — Aidan é um rapaz muito forte.

— Sei disso. — Verbalizar meus medos daquela forma sempre me deixava um tanto desconfortável, então decidi mudar de assunto bruscamente antes que eu ficasse ainda mais deprimido. — Você por acaso conhece Daniel Pavlova? — perguntei, já que a semelhança no sobrenome me chamou a atenção.

— Claro, é meu primo. — Thiago levantou uma sobrancelha e despejou os temperos numa travessa. — É o mais criticado da família. Sinto pena dele nas nossas reuniões familiares. Nossos parentes adoram apedrejar o coitado só porque se veste de um jeito diferente. — Deu de ombros.

Meu coração retraiu ao me dar conta da quantidade de julgamentos que te cercavam, Daniel. Foi impossível não me sentir culpado por ter feito a mesma coisa assim que nos conhecemos oficialmente pela primeira vez.

— Nossa família abomina o diferente. Por isso fiz Medicina. Pensei que talvez assim, meus parentes me perdoassem por não ter uma esposa, mas me enganei. Como todos os Pavlovas são fiéis escudeiros do presidente, não tive outra saída a não ser me aliar. É difícil esconder quem você é o tempo todo. — Esboçou um sorriso triste. — Pena de morte aos homossexuais.

— Sem direito a julgamento — completei, tendo calafrios com aquela sentença que Christopher criou. — Prisão perpétua para beijo e pena de morte àqueles que cometem o ato sexual em si.

— Não é fácil viver em Chechênia. — Seus ombros encolheram e ele gemeu. — Me preocupo com Aidan. Ele já conversou com você sobre isso?

— Sobre o quê? — Pisquei, sem entender.

— Ele... — O ar pareceu escapar de seus pulmões. — Já tem dezessete anos e parece não ter a menor ideia da dimensão do mundo caótico em que a gente vive. Eu queria protegê-lo desse preconceito, mas é difícil quando tudo o que passa no noticiário são discursos do presidente sobre a legalização da cura gay. Ele me questiona o tempo inteiro sobre isso. Essas notícias são capazes de deixa-lo ainda mais doente.

— Aidan não é gay — murmurei e a expressão que Thiago me lançou acabou me convencendo do contrário. — Pera, ele conversou com você sobre isso? — A minha garganta pareceu fechar, bloqueando de certa forma minha respiração.

— Ele confia em mim — foi só o que me disse sem se alongar muito na explicação. — Faça com que ele confie em você também. Quando ele vencer a leucemia, vai precisar de você para vencer a sociedade podre que nos cerca.

— Mas a cura gay...

— Não existe — a firmeza das palavras dele cortou por completo minha linha de raciocínio. — Não é uma doença, então não tem como haver uma cura.

— Diga isso para Christopher. — Meus dentes rangeram ao sussurrar.

— Christopher está perdido dentro dele mesmo. Sua mente é vazia e seu intelecto é nulo. Não posso ensinar alguém que se recusa a aprender, entendo o seu lado, mais nada justifica as suas ações.— Thiago picotou o frango em cubos antes de despejar na panela junto com os temperos. — Me admira você estar do lado dele.

— Minha relação com Christopher é mais complicada do que parece — bufei porque nem eu entendia a complexidade da nossa relação.

Ele era o tipo de pessoa que eu deveria odiar com todas as forças por reprimir quem eu era. Ao mesmo tempo, ele foi a única pessoa que me estendeu a mão enquanto todos ao meu redor viraram as costas quando meu mundo desabou. Eu o respeitava por mais que não fosse mutuo, por mais que ele me visse como uma aberração da natureza. Estar perto dele me destruía por dentro. No entanto, era tudo o que eu tinha.

— Como estão os efeitos colaterais da injeção? — quis saber, cutucando a ferida que eu queria mais do que tudo suturar.

— Posso lidar com eles. — Passei a mão pelo cabelo, bagunçando um pouco o topete. Os efeitos colaterais do líquido que injetei dois anos antes estavam piorando e muito. A última coisa que eu queria ouvir de Thiago era um sonoro: ''Eu avisei''.

— Achei que a pior coisa que você e meu tio Bruno podiam fazer era criar essa monstruosidade em forma de injeção, mas eu estava errado. A pior coisa que você fez foi injetar essa porcaria. — Os tons nítidos de raiva me fizeram retrair um pouco. Thiago mexia o conteúdo da panela com fúria. — Quando encontrar um cara que você ame, vai entender o tamanho da merda que fez.

— Já encontrei e não consegui nada além de traumas.

— Pedro não é o único homem do mundo. — Tive calafrios ao ouvir aquele nome que tanto me aterrorizou. Ele era a fonte inesgotável de meus mais profundos pesadelos. — Existem outros. Só porque um te despedaçou, não significa que todos o farão. Tem como superar isso sem machucar a si mesmo. A cura gay não é a saída, a aceitação sim.

— Não pode julgar as pessoas que querem mudar, que não estão confortáveis com elas mesmas!

Thiago baixou o fogo e fechou a panela. O cheiro gostoso do frango preencheu o recinto.

— Você foi mesmo programado para servir as ideias absurdas do Christopher! — Seu grito fez meus tímpanos latejarem em protesto. — Conheceu meu primo, não é? Daniel. — Assenti, meio receoso.

Só o fato de ele ter te mencionado, minava todo e qualquer argumento que eu poderia usar porque eu pensava em você na segurança de minha mente.

Você estava acomodado num lugar seguro de meu cérebro no qual essas merdas não faziam parte. Eu te invejava em segredo porque você não tinha medo de ser quem era e não ligava para as opiniões homofóbicas que te cercavam.

Queria ter te conhecido durante minha transição.

Queria ter te conhecido antes de ter Christopher na minha vida.

Queria ter te conhecido antes de ser vencido pelo preconceito ao ponto de odiar a mim mesmo simplesmente por ser diferente.

Queria ter te conhecido antes de me perder.

— Ele é a melhor pessoa que eu já conheci. — Thiago sorriu ao te mencionar. Meu coração dolorido se aqueceu um pouco. — Christopher te recrutou para se aproximar dele, não é? — Assenti de novo e meu coração deixou de ficar aquecido para se apertar um pouco mais. A frieza nas palavras dele me perfurou feito uma lâmina. Era como se ele estivesse me fatiando internamente. — Ele disse o porquê?

— Daniel é uma ameaça — discursei, me encolhendo um pouco mais. Eu não acreditava naquilo. Não havia nada de ameaçador em seu sorriso, nem na forma despreocupada com a qual você tentava a todo custo me seduzir. Eu gostava de você pelos motivos errados, mas confiava em você pelos certos. — Christopher quer que eu fique de olho nele. É só isso.

— Com Christopher, nunca é só isso — Thiago disse. — Se você machucar meu primo, teremos um problema.

— Eu nunca o machucaria. — Fiquei ofendido pela hipótese ser levantada. — Minha lealdade ao presidente vai até certo ponto.

— É bom saber disso. — Algo em seu tom demonstrava que não estava convencido. — Christopher merece afundar sozinho sem arrastar pessoas inocentes com ele.

Decidi que aquela conversa tinha se encerrado e saí da cozinha o quanto antes. Permiti que Aidan se aninhasse em meus braços assim que me sentei ao lado dele.

— O Thiago está lendo livro ótimo para mim. — Suas bochechas ficaram vermelhas. — Quero que ele termine ainda hoje. Não quero que ele vá embora.

— Thiago tem uma vida também — murmurei, acariciando sua bochecha corada com a ponta dos meus dedos.

— Eu sei. — Seus olhos azuis se estreitaram. O brilho que costumava iluminar sua íris só aparecia quando falava de seu médico. Antes, aquilo não me incomodava, até porque Thiago era a única pessoa que permanecia quase vinte e quatro horas ao lado dele. Agora, eu já não achava aquilo tão normal assim.

O médico surgiu com uma bandeja. Nela, estava o prato com a comida recém feita e um suco. Aidan se afastou de mim para se concentrar na refeição.

— Obrigado. — A vermelhidão no rosto de Aidan se agravou e Thiago sorriu ao sentar ao lado dele, alisando suas costas enquanto ele comia.

— Coma tudo, meu bem. — A intimidade naquilo me incomodou e fiquei pensando no que Thiago me disse sobre se esconder. Será que ele fazia alguma coisa com o meu irmão enquanto eu estava fora? Isso mudava muita coisa. Na verdade, mudava tudo.

— Posso falar com você em particular? — grunhi, incapaz de esconder a raiva que passou a reverberar dentro de mim, amargando-me internamente.

— Claro. — Exibiu um sorriso caloroso sem tirar os olhos do meu irmãozinho.

Aidan o agarrou pelo pulso antes que ele se erguesse.

— Volte logo — sussurrou ao engolir o punhado de comida que colocou na boca.

— Não seja tão carente. — Thiago riu e pressionou um beijo na testa de Aidan. Isso fez eu me contorcer no assento. Como nunca notei a intimidade dessa relação?

Quase corri de volta para a cozinha, sabendo que Thiago me acompanhava.

— Qual é o problema?

— Não me diga que meu irmão está apaixonado por você — praticamente rosnei. Minhas mãos se fecharam num punho apertado.

— Talvez. — Ele coçou a cabeça. — Mas não se preocupe. Não fiz nada com ele. Nunca faria. É meu paciente, deixe de ser paranoico.

— Então Aidan vai se magoar.

— Eu não o magoaria — senti tanta verdade naquela afirmação que acabei relaxando um pouco. — Sei o que estou fazendo. Ele merece ser amado e cuidado, ainda mais nessa fase difícil. Você paga pelo meu trabalho, não pelo meu afeto. Mas é inevitável amá-lo. Aidan é um rapaz incrível.

— Você tem o dobro da idade dele!

— Nem todo amor é carnal. Ele é especial para mim, é um tipo de amor diferente. É como um irmão mais novo que precisa de cuidados.

— Acho que não é assim que ele te enxerga.

— Pare de ser tão rígido com ele. — Apertou meu ombro. — Pare de ser tão rígido consigo mesmo. Não vou magoá-lo, acredite em mim.

— Tá bem — bufei, saindo daquele cômodo claustrofóbico e indo direto para o meu quarto, batendo a porta com um pouco de força.

Parei diante do espelho de corpo inteiro, focando nas minhas feições. Antes do tratamento hormonal, era difícil sequer me olhar no espelho. Meu reflexo não condizia com o meu interior.

Os seios, as curvas, o timbre da voz fina demais...

Tudo aquilo ardia como uma maldição.

Era uma prisão perpétua da qual eu não podia fugir sob nenhuma fiança.

Sangrar pela primeira vez doeu.

Me olhar no espelho e me deparar com uma mentira doeu.

Todos me dizerem que eu era uma aberração doeu.

Continuar me odiando mesmo depois de tudo isso também doeu.

Fiquei me perguntando se você também se sentia assim, Daniel.

Imaginei o que diria sobre mim se soubesse a verdade. Se soubesse que mesmo após me transformar no homem que sempre fui, ainda era perseguido e assombrado pela mulher com a qual nunca me identifiquei.

Será que sua visão sobre mim mudaria?

Será que seus olhos continuariam brilhando para mim como as estrelas brilham no céu?

Será que você continuaria me chamando pelo masculino?

Será que você me perdoaria por destilar ódio pela sua vestimenta quando eu mesmo fui massacrado diversas vezes pelo mesmo motivo?

Será que seu coração bateria menos na minha presença?

Será que você dentre todas as pessoas do mundo seria capaz de me aceitar?

As respostas para as minhas perguntas vieram envoltas num silêncio perturbador e aquilo também doeu.

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