CAPÍTULO 8

Tive uma noite sem sonhos naquele dia. Mas como de costume, acordei com os gritos da minha mãe tão eficazes que mais uma vez quase me fizeram cair da cama e ter um encontro inédito com o chão.

— Por Gaga, parece até que moro num hospício — murmurei, coçando os olhos para me livrar daquelas remelas nojentas.

Tomei um banho rápido e escolhi a roupa mais simples que eu tinha no guarda-roupa. Não que eu quisesse seguir o caminho preconceituoso que meu pai impôs, claro que não. Tudo o que eu queria era evitar dor de cabeça pelo menos um dia da minha vida. Um dia em que eu não tivesse que lidar com olhares atravessados e comentários maldosos. Eu merecia um dia sem babaquice, não?

Escolhi uma calça jeans preta e uma camisa polo cor de rosa. Enrolei minha echarpe rosa choque no pescoço e coloquei meus tênis vermelhos de cano alto. Minha garganta se fechou ao localizar minhas inseparáveis botas cor de rosa. Se aquela era condição para que Fábio me desse aulas, então eu o faria.

Enfiei o par dentro da mochila sem pensar muito e desci para tomar café. Decidi fritar meus próprios ovos, ignorando o pedido da minha mãe de fazê-los para mim. Quase engasguei ao bebericar aquele café amargo que despertaria até uma pessoa em coma.

— O que está havendo com você? — perguntou minha mãe, estranhando minha vestimenta discreta. — Não me diga que o canalha do seu pai colocou ideias idiotas na sua cabeça também.

— Não. — Brinquei com o garfo, remexendo o ovo frito e sentindo a fome desaparecer. — Quer dizer... — Suspirei antes de prosseguir. — Odeio a forma como ele olha pra mim e fico me perguntando se ele me aceitaria se eu mudasse.

— Bobagem. — Ela cobriu minha mão com a sua.

— Você acha que devo mudar?

— Acho que você deve seguir o que seu coração manda — disse para a minha surpresa. — Olha, não ligo para a sua orientação sexual. Um dos motivos para eu me separar do seu pai foi que eu não suportava o jeito como ele te tratava. E quando ele supôs que eu o internasse naquele tratamento absurdo do presidente, fui meio que obrigada a pedir divórcio.

— Ele queria me internar naquele lugar? — Senti calafrios só de me imaginar preso numa cela sofrendo um tratamento monstruoso que prometia a cura para a homossexualidade e entregava torturas e traumas irreversíveis.

Eu podia falar sobre isso com propriedade porque de fato conheci pessoas que passaram por essa intervenção e quase nenhuma delas sobreviveu. Eu já sabia que após contatar Ben para que intervisse e desse um fim naquela loucura de uma vez por todas, Christopher iria dar um jeito de continuar com suas tramoias.

E não deu outra, a terapiazinha de reversão sexual seguia a todo vapor naquela sede e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.

— Sinto muito, filho — falou e o peso de seu lamento só me machucou ainda mais. Pensar que meu próprio pai me submeteria àquela tortura me dava um gosto amargo na boca. — Mas fique tranquilo, é necessário que autorizem e eu nunca autorizaria uma coisa dessas.

 

— Meu pai pode autorizar. — Encolhi os ombros, me sentindo pequeno e insignificante. Um erro. Não, eu não podia me sentir assim. Eu não era um erro, as pessoas que eram cruéis comigo por nada. — Se ele autorizar, estou frito.

— Você é maior de idade, então a menos que você autorize, nada pode ser feito. Claro que a autorização dos pais conta para a internação à força, mas é necessário duas assinaturas de algum familiar. — Ela entrelaçou os dedos nos meus, oferecendo-me suporte. — Não se desespere, meu amor. Eu nunca deixaria ninguém machucar meu filhinho.

— Para com isso. — Abaixei a cabeça e ri, corando de vergonha. Eu esperava que ela nunca me chamasse assim na frente de um possível crush.

— Agora coma, você já está atrasado — disse e comecei a devorar os ovos, ignorando aquele café com gosto de água poluída.

***

Cheguei correndo na faculdade e atrasado como sempre. As aulas de literatura passaram num borrão e o professor velhote fez cara feia pra mim quando entrei na sala no meio de um monólogo brega que ele discursava.

A melhor hora do dia foi quando encontrei Valentino em uma das mesas do refeitório. Ele estava debruçado sobre um livro grosso, folheando como se não houvesse um amanhã.

— Você quer jantar lá em casa amanhã? — quis saber antes mesmo de me cumprimentar.

— Em pleno dia ímpar? — Fiz uma careta e sacudi a cabeça. — Não, obrigado. — Ajeitei minha franja com os dedos, sofrendo pelo tamanho insuficiente das minhas unhas. — Vou tentar tirar o dia só pra mim.

— Vai de novo para aquela boate gay, não é? — Valentino ergueu uma sobrancelha, praticamente lendo meus pensamentos. — Nunca vou entender sua obcessão com sexo.

— Até parece que você não gosta de trepar.

— Faz parte de ser pansexual esse estilo de vida? — questionou, parecendo cansado e desligado em tudo o que dizia.

— Não. Eu ser pan não tem nada a ver com o fato de eu ser piranha. — Acabei rindo e Valen balançou a cabeça. — É até ofensivo você pensar assim.

— Que seja. — Revirou os olhos como se me desse pouco crédito. — Ei! — Valentino gritou alguém que não pude ver, pois estava atrás de mim. — Primo idiota, vem cá.

Enrijeci ao ver Fábio parando na nossa mesa. Dei uma checadinha básica em sua bunda incrível e me derreti todinho ao me deparar com seu sorriso estonteante.

— O jantar de amanhã ainda está de pé, certo? — perguntou Valentino, fechando o livro num estalo.

— Jantar? — Fábio se mostrou confuso.

— Não me diga que esqueceu. — Os olhos do meu amigo se estreitaram. — Papai só fala disso o tempo todo. Trate de vir amanhã, seu esquecido!

— Tá bem, tá bem. — O desconforto de Fábio era evidente, mas logo ele desviou a atenção de Valen pra mim. — Nos veremos hoje?

— S-S-Sim. — Limpei a garganta com um pigarro e abaixei a cabeça mortificado por ter gaguejado daquele jeito patético.

— Então até mais tarde, Daniel — disse pousando a mão no meu ombro antes de se retirar. Não fui capaz de prever o calafrio que subiu pela minha espinha, me deixando todo arrepiado.

— Mudei de ideia — falei, tocando o ombro onde sua mão esteve segundos antes. — Quero ir no jantar.

— Sério? — Dava pra ver traços de desconfiança em sua expressão. — Espero que isso não tenha a ver com meu primo. Você não tá a fim dele não, né?

— Claro que não — respondi depressa, abaixando o braço e forçando um sorriso meio tosco. — Só tenho interesse em conseguir as aulas particulares de violão, mas ele é osso duro de roer.

— Ele não fica sozinho com alunos em sala de aula, então esquece aulas particulares, Dani.

— Por quê? Não é como se eu fosse dar em cima dele em plena aula.

— Fábio teve muitos problemas com esse tipo de aula, tanto que quase destruiu por completo a carreira dele. Os rumores se espalham e as pessoas falam. — Valentino suspirou. — Sugiro que procure outra pessoa para te ensinar violão porque meu primo não vai aceitar.

— Entendo. — Fiz beicinho e cruzei os braços, sabendo que eu estava bem longe de desistir de ter o que eu queria.

***

Meu atraso ao entrar na sala de música já não era novidade para mim. Fábio estava sentado na mesa explicando como funcionavam os acordes do violão. Passei por ele com um pedido de desculpas breve e tratei de pegar o instrumento no canto da sala.

Me sentei ao lado da Anna, que elogiou minhas unhas, embora quase tenha gritado ao perceber que eu as havia cortado. Fábio não dirigiu a palavra à mim, nem criticou meu jeito errado de dedilhar as cordas.

A aula acabou e não aprendi droga nenhuma. Mais uma vez esperei que todos saíssem da sala, permanecendo sentado na cadeira com o violão no colo.

— Sem críticas hoje? — me apressei em dizer, já que aquele silêncio estava me tirando do sério.

— Achei que não gostasse das minhas críticas — respondeu, ficando de pé e indo devagar até mim. Engoli em seco quando ele sentou no assento vago ao meu lado. — Não vai embora?

— Está me expulsando? — Fiquei incrédulo com sua audácia.

— Não gosto de ficar sozinho em sala de aula com aluno. — Coçou a cabeça e acabei me perdendo naquele gesto. Incrível como ele ficava bonito fazendo até a coisa mais banal do mundo. — Espero que entenda isso.

— Mas vai ficar comigo — falei, decidido. Deixei o violão de lado e retirei minhas belíssimas botas arrasadoras da mochila. Entreguei-as como se estivesse entregando minha essência pra ele. — Não sei o que vai fazer com elas porque sinceramente não te imagino usando algo tão magnífico, mas são suas. — Resisti ao impulso de chorar ao dizer aquilo.

— Quer tanto ter aulas comigo? — Sua testa se enrugou e abaixei a mão porque ele ignorou por completo minhas botas. — Só pedi suas botas porque sabia que não aceitaria.

— Então não queria me dar aulas particulares? — Falhei em disfarçar o quanto aquilo me entristeceu. Poxa, eu nem era uma pessoa tão insuportável assim. O que custava ele me dar só algumas aulinhas inofensivas?

— Na verdade, não — disse, sem dó. — Seja sincero comigo: você quer aprender porque seu coração está pedindo ou porque vai ficar dando em cima de mim a cada cinco minutos sem testemunhas?

— Não pode ser pelas duas coisas? — brinquei e pela sua reação, percebi que não foi uma boa resposta.

— Daniel — o tom era de advertência, indicando que estava perdendo a paciência comigo.

— Tá bem, tá bem. — Suspirei, revirando os olhos. — Quero mesmo aprender a tocar por causa do festival, ok? É por uma causa nobre.

— Guarde suas botas. — Ele arrastou a cadeira para ficar na minha frente. Era meio difícil me concentrar em qualquer coisa com aquele pedaço de mau caminho me encarando. — Eu aceito te ensinar com uma condição.

— Qual? — É claro que ia ter alguma condição. Tudo estava bom demais pra ser verdade.

— Que não me olhe desse jeito — murmurou, seus olhos negros colidindo nos meus, acelerando meus batimentos cardíacos a níveis preocupantes.

— Que jeito? — Me fiz de sonso porque não queria admitir que eu estava atraído por ele.

— Desse jeito. — Tirou uma mecha de cabelo da minha testa e senti seu toque formigar em minha pele, que ficou quente. Eu era pálido então as chances de ele ver o quão corado ele me deixou, eram gigantescas.

— Bem, só consigo olhar homens gatos de um jeito, profe escândalo — usei meu tom de deboche para desconversar e torcer para que ele não percebesse que estava me afetando de verdade. Se ele pensasse que eu estava levando tudo na brincadeira, talvez não me questionasse quanto a isso.

— Não vou poder ficar numa sala sozinho com você se ficar me olhando assim — disse, a mão caindo em seu colo. — É desconfortável.

— Por Gaga, tá bem. — Guardei as botas na bolsa e me voltei para ele, que continuava fixado em mim. — Na próxima aula, trarei minha venda de BDSM e não olharei mais pra sua carinha, tá bom pra você?

— BDSM? — Era notório seu espanto. Isso me fez rir na mesma hora.

— É. — Joguei a franja para o lado e pisquei, exibindo meus longos e impecáveis cílios. — Ficou interessado?

— Foque no que interessa, Daniel. — Seus ombros se curvaram e ele pareceu inquieto na cadeira.

— Sabe, não precisa me chamar assim. É formal demais. — Toquei sua perna sem ter ideia de como ele receberia o gesto. Para a minha surpresa, ele apenas franziu a testa. — Meus amigos me chamam de Dani.

— Que seja, Daniel. — Livrou-se do meu toque ao mexer a perna com violência. — Não somos amigos.

— Credo, você é um grosso mesmo.

— É uma aula de violão. Quero que se concentre cem por cento nela. Nada de brincadeirinhas sem graça. Levo muito a sério o que eu faço, praga — rosnou, fechando a cara pra mim.

— Praga? — Levantei uma sobrancelha. — Mal nos conhecemos e já tem um apelidinho pra mim? Continue assim e vou me sentir especial, profe escândalo. — Cutuquei-o apenas para irritá-lo e ganhei um resmungo em resposta.

— Afinarei meu violão para te emprestar. As cordas desse são muito duras. — disse, me ignorando por completo.

— Conheço outra coisa que é muito dura também — murmurei, querendo me bater por ter dito aquilo em voz alta. Eu tinha esse dom de pensar safadezas e às vezes verbalizá-las. O problema era que eu sempre escolhia os momentos errados para me manifestar.

— O que disse? — Parou de devanear e focou em mim, deixando-me ainda mais apavorado. Para meu alívio, ele não parecia ter escutado nada, caso contrário eu ouviria poucas e boas.

— Nada. — Esbocei um sorriso amarelo.

— Que seja. — Sacudiu a cabeça ao prosseguir. — Começaremos amanhã.

— Amanhã? — Um pânico se formou de imediato. — É dia ímpar.

— Tem algo melhor pra fazer? — provocou com um sorrisinho que me deixou bem irritado.

— B-B-Bem, eu...

— É amanhã ou nada de aula — interrompeu-se com aquele seu arzinho de superioridade. — Depois, vou conversar com o reitor para que permita que eu dê aulas aqui, já que essa sala fica reservada. Quando tudo estiver resolvido, aí conversaremos melhor sobre os dias.

— Você vai pra minha casa? — Foi impossível não ficar animado em imaginá-lo no meu quarto cor de rosa, me ensinando a dedilhar as cordas do instrumento. Pintaria um clima com certeza. Será que nos beijaríamos? Por Gaga, eu estava ficando maluco!

— É claro que não! — praticamente berrou, destruindo de uma vez por todas a cena romântica e quase erótica que eu tava construindo mentalmente. — No parque, em público. Eu nunca iria pra casa de um aluno, ainda mais um tarado feito você.

— Ei, mais respeito! — Fingi estar ofendido, mas já que eu tinha uma fama de tarado, então não havia nada de errado em soltar um comentário que ressaltasse isso, né?

Preparei minha pérola e soltei sem qualquer remorso.

— Você pode dar aulas particulares na minha casa, de preferência sem roupa. — Dei uma piscadela sacana e Fábio retraiu como se eu fosse um fio elétrico desencapado.

— Continue com essas gracinhas e vou cancelar as aulas — seu tom era firme e sério demais pro meu gosto. Não tinha nada mais divertido do que provocar ele. Fábio ficava sem jeito com minha acidez. — Isso é falta de respeito.

— Cruzes, você não sabe nem brincar.

— Não gosto desse tipo de brincadeira. — Falando daquele jeito rígido e chato, quase me lembrei do meu pai, o que não foi uma lembrança muito boa, diga-se de passagem. — Se alguém ouvir, pode achar que a gente tem um caso, o que é inadmissível.

— Eu não me importaria de ter um caso com você. — Sorri, achando que se eu fosse direto talvez ele sacasse que minhas investidas iam muito além de uma mera aula de violão. — É brincadeira — logo reformulei, ao me dar conta de que eu havia mesmo o chateado.

Sim, eu estava interessado nele. Porém, eu sabia que as chances de ele dar bola pra mim eram nulas e se por algum milagre desse, não passaria de uma ficada passageira. Eu não tinha sorte com homens bonitos e seria uma decepção se meu professor se tornasse um babaca do dia pra noite.

— Promete que vai se comportar? — Ele parecia implorar por isso.

— Tá, eu prometo — respondi meio emburrado, sabendo que as chances de eu não conseguir cumprir aquela bendita promessa eram grandes.

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Só falo uma coisa "vai dar merda"

O que estão achando da história anjos?

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Comments

Vilma Lima

Vilma Lima

estou apaixonada por Daniel

2022-11-29

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