...Dani...
— O Fábio tá vindo. — Valentino colocou o celular em cima da pia e suspirou. — Não sei por que pediu para ligar para ele.
— Porque ele estava demorando muito. — Me fiz de inocente e arrastei Valentino para o quarto assim que seu pai Camillo colocou a travessa dentro do forno.
Minhas mãozinhas de fada já estavam cansadas de tanto trabalhar na cozinha. Como se não bastasse ter meus dedinhos trucidados pelas cordas do vilão, eu ainda quase me cortei ao fatiar os benditos temperos.
— Estou achando tudo isso muito esquisito. — Sentou-se na cama, balançando os pés de modo bobo. — Por que esse interesse repentino no meu primo? Por Deus, não me diga que se apaixonou por ele. — Passou a mão na testa e sacudiu a cabeça.
Estava na cara que eu estava caidinho pelo professor, mas como não fazia parte da minha personalidade incrível admitir logo de cara, prometi a mim mesmo que negaria até a morte. Valentino comeria meu fígado se soubesse a verdade, ainda mais levando em conta meu extenso histórico de relacionamentos que deram errado.
— É claro que não, idiota. — Sentei ao lado dele e comecei a brincar com a ponta do edredom, me esforçando para não fitá-lo diretamente e ser pego na mentira. — Só estou interessado nas aulas de violão.
— Já falei para você desistir! — Deu uma risadinha que não me agradou. — Ele não dá aulas particulares, ainda mais para um tarado feito você.
— Suas pesquisas estão bem ruins porque ele não só aceitou como me deu aula hoje no parque. — Empinei o queixo ao me vangloriar. — E ainda me emprestou o violão para eu praticar em casa.
— Pera. — Valentino ficou de pé parecendo incrédulo. — Como assim te emprestou o violão? Ele não deixa ninguém tocar naquela coisa, quem dirá emprestar. Ele me xingou horrores quando encostei na corda daquela merda.
Admito que aquela informação me pegou de surpresa. Fiquei me achando ainda mais depois daquilo. Eu sabia que ele gostava de música, mas não tinha ideia de sua relação real com o instrumento que emprestou sem que eu sequer pedisse.
— Qual é a música favorita dele? — perguntei para desviar o foco antes que ele fizesse perguntas demais.
— Wake me up when september ends — respondeu de forma distraída. Pelo visto, ele ainda estava tentando digerir o comportamento estranho do Fábio. — Me admira você não saber, já que está claramente de quatro por ele.
— Não fico de quatro por ninguém — resmunguei, temendo perder meu status de pegador sem limites. — As pessoas que ficam de quatro por mim.
— Ah, claro. — Valentino revirou os olhos, dando pouco crédito a minha afirmação.
A voz de Fábio ecoou na sala e fiquei de pé na mesma hora. As palmas das minhas mãos ficaram úmidas e meu coração disparou. Incrível o que apenas a voz dele podia fazer comigo. Chegava a ser trágico!
— E ainda diz que não está caidinho. — Meneou a cabeça e riu.
Acabei seguindo ele, ignorando sua piadinha de mau gosto. Valentino que caminhava tranquilamente, acabou parando do nada, quase me fazendo tropeçar nele.
— O que foi? — Juntei as sobrancelhas sem entender bosta nenhuma.
— O que esse merda tá fazendo aqui? — A postura do meu amigo ficou rígida e seus punhos cerraram do nada.
Segui seu olhar e empalideci ao ver Christopher entrando junto com o Fábio como se fossem grandes amigos. Camillo os cumprimentou, parecendo nem se dar conta de todo o sofrimento que o idiota do Christopher fez Valentino passar.
— É um prazer te ver de novo, Valentino. — O presidente se aproximou de um jeito bem invasivo. Sua expressão mudou de divertimento para desprezo quando seus olhos pousaram em mim. — Daniel.
— Eu espero que minha mãe tenha colocado veneno na comida — grunhiu Valentino, ignorando a mão estendida do presidente e indo direto para a mesa, sentando o mais longe possível dele.
— Oi. — Fábio veio ao meu encontro pouco depois de cumprimentar a mãe do Valentino.
Ele olhou ao redor. Todos estavam sentados enquanto o pai do Valentino servia a comida. Fábio me empurrou para longe do campo de visão deles e acariciou o interior do meu braço com a ponta de seus dedos. A corrente elétrica que se seguiu só aumentou ainda mais meu nervosismo.
— Oi — respondi, mas saiu como um gemido bem exagerado. Por Gaga, o cara nem podia me tocar que eu já gemia. Cruz credo!
— Como estão suas mãos? — Segurou com cuidado meu pulso e indicou com o queixo que eu abrisse minha mão, o que acabei fazendo. — Logo você se acostuma com as cordas — murmurou enquanto massageava cada um dos meus dedos.
Um arrepio subiu pela minha espinha, me deixando sem reação. Mas que droga! Ele estava me provocando de propósito, não é? Eu estava literalmente provando do meu próprio veneno.
— Se ficar me provocando desse jeito, vou acabar reagindo. — Como meu salto era bem alto, tive que abaixar um pouco a cabeça para chegar ao seu ouvido. Encostei meus lábios em sua orelha. Senti ele estremecer em meus braços assim que comecei a falar. — E você vai se arrepender.
Fábio pigarreou e colocou as mãos nos bolsos. Se sua pele não fosse tão escura, com certeza eu veria as manchas vermelhas de vergonha em suas bochechas. Era triste que eu fosse pálido ao ponto de não conseguir disfarçar isso.
— Eu vou? — Levantou uma de suas sobrancelhas assim que se recompôs e saiu sem me dar a chance de rebater sua audácia. Eu que tinha que ter a última palavra. Quem aquele professorzinho de quinta achava que era? Eu hein!
Corri até a mesa com passos furiosos. Fábio ainda estava de pé. Uma de suas sobrancelhas erguidas enquanto me fitava de forma intensa demais.
— Estamos atrapalhando? — grunhiu Christopher fazendo um barulho irritante com o talher.
Abaixei a cabeça, ficando um pouco vermelho. Fábio arrastou uma cadeira e fez um gesto para que eu me sentasse. Estranhei aquilo, mas eu estava tão entorpecido que acabei sentando sem discutir.
— Como vai a vida, Valentino? — perguntou o presidente com um deboche desprezível. A falta de empatia dele me dava muita raiva.
— Seria melhor se você não existisse. — Dava pra ver que Valentino estava lutando horrores para não socar a cara dele. Caso ele resolvesse dar um murro na cara daquele escroto, eu ajudaria com toda certeza.
— Vocês se conhecem? — Fábio quis saber enquanto se acomodava na cadeira ao meu lado. Nossas pernas se tocavam ocasionalmente e eu podia sentir seus dedos próximos ao meu joelho. Os pelos da minha nuca se arrepiaram e apoiei os cotovelos na mesa, tentando ao máximo fingir que nada daquilo estava me afetando.
— Diz para o Fábio o que você fez. — Os olhos do Valentino escureceram ao ponto de se tornarem ameaçadores. — Conta pra ele o quão merda você é.
Nenhuma daquelas ofensas abalou o presidente, que cortou uma fatia da lasanha e colocou na boca, mastigando de forma bem demorada como se gostasse de estender aquela tortura toda.
— Valentino. — O tom de advertência de Camillo me pegou de surpresa. — Nosso presidente merece respeito. Sei que não gosta dele e tem seus motivos, mas por favor, ao menos respeite a hora da refeição.
— Ele matou meu namorado. — Sua voz foi enfraquecendo até se tornar um choro engasgado. Notei que ele lutava contra as lágrimas. Eu queria abraçá-lo.
Fábio ficou rígido ao meu lado. Sua mão saiu do meu joelho e foi parar na mesa, próxima a minha. Porém, ele não fez menção em tocá-la.
— Isso é verdade? — O professorzinho parecia mesmo incrédulo. Pelo jeito, ele não conhecia seu amigo tão bem assim.
— Não foi assim que aconteceu. — Christopher revirou os olhos, dando pouco crédito a um acontecimento trágico como aquele que deixou Valentino arrasado. — Ele pediu para morrer. Fiz um favor para ele.
— Depois de você ter torturado ele física e psicologicamente, além de ter castrado ele, é claro que ele ia implorar para morrer! — Valentino deu um tapa na mesa com tanta força que a bendita tremeu. — Você já tinha matado a sanidade dele. — A fúria em sua expressão acabou se transformando em tristeza. — Perdi a fome. — Se levantou e saiu a passos duros sem olhar para trás. Ouvi o estrondo da sua porta se fechando e eu podia apostar que ele estava chorando.
— Como ele é dramático. — Christopher colocou mais um pedaço de lasanha na boca. — Pessoas morrem o tempo todo — prosseguiu ainda de boca cheia.
— Os gays tendem a morrer mais em suas mãos — rosnei entredentes. A imagem do Ben transando com meu pai surgiu na minha mente, embrulhando meu estômago na mesma hora. Fiquei me perguntando o que Christopher faria se soubesse que seu precioso gnomo saia por aí transando com homens. — Aposto que você não teria essa reação se Valentino tivesse matado o Ben.
As mãos do presidente largaram os talheres e seus olhos pareciam arder de tanta fúria. Enfim consegui atingi-lo. Isso me deixou bem satisfeito, admito.
— Se você ousar falar do meu Ben de novo, juro que... — Christopher se interrompeu assim que encarou Fábio, que estava cutucando o nariz com os nós dos dedos como se quisesse disfarçar algo. — Você tá legal?
— Sim. — Fábio empinou o queixo e só depois que Christopher lhe deu um guardanapo que me dei conta de que estava saindo sangue das suas narinas. — É só...
— Consequência — O presidente respondeu por ele. — Está piorando.
— Já disse que posso lidar com isso, Chris.
— Lidar com o que? — me intrometi, detestando eles estarem conversando sobre algo que eu não conseguia entender bulhufas. — Tá tudo bem?
— Conta pra ele. — Um sorriso desprezível surgiu nos lábios daquele traste. — Vou até arrumar pipocas para assistir a reação do seu aluninho.
— Não começa, Christopher. — Fábio desviou o olhar do presidente e o focou em mim. — Não é nada.
— Qual é! — Christopher revirou os olhos com descrença. — Como anda sua cabecinha? Transcreveu todos os relatórios?
— Que relatórios? — A testa do professor vincou.
— É disso que estou falando! — O presidente se recostou na cadeira com um sorriso triunfante brincando nos lábios. — Você nem sequer lembra. Já é a quinta vez que te peço algo e você esquece.
Fábio abaixou a cabeça e engoliu em seco. As mãos tremendo feito loucas, estavam entrelaçadas. Ele parecia tão confuso quanto eu, o que só me deixou ainda mais nervoso.
— Alguém pode me explicar que porra está acontecendo? — rosnei, direcionando todo meu olhar furioso ao presidente na esperança de que ele esclarecesse tudo.
— Não é assunto meu — respondeu, bebericando o copo de suco. — Se quiser saber, terá que convencer Fábio a contar.
O professor se encolheu, os ombros se curvando e modo como ele retraiu me fez ficar com ainda mais medo. O que diabos ele estava escondendo de mim?
— Ok, eu conto! — bufou o presidente. — Há dois anos, Fábio injetou uma substância que ele mesmo criou...
— Christopher! — Ele passou de triste para apavorado em tempo recorde. — Por favor.
— Eu disse que você ia se arrepender. — O presidente ficou de pé. — Obrigado pelo jantar. — Esboçou um sorriso tão deslumbrante que se eu não soubesse o lixo de ser humano que ele era, com certeza eu teria ficado como uma gatinha no cio de tão tarado. — Te espero no carro, Fábio.
Ele saiu sem mais nem menos. Permaneci ali em choque, querendo saber detalhes sobre esse enigma sem sentido que jogaram pra cima de mim. Eu estava me mordendo de tanta curiosidade.
— Quer fazer o favor de me explicar? — murmurei.
— Não — foi tudo o que disse e meu coração ficou apertado.
— Muito bem. — Sacudi a cabeça e fiz menção em me levantar. Eu não gostava de segredos, então eu não ia perder meu precioso tempo com um cara que escondia coisas de mim.
— Espera. — Agarrou meu pulso forte o bastante para me manter ali, mas não tanto ao ponto de machucar. Ele só relaxou quando cedi mesmo que eu estivesse com um pouco de ranço. — Vai querer uma carona?
— Eu passo. Pego um ônibus. — Puxei meu braço, mas ele não me largou. Maldito!
— Eu insisto. — Seus olhos pareciam implorar tanto que um nó se formou em minha garganta ao sequer pensar em recusar.
— Odeio segredos! — cuspi, inflando as narinas. — Se quiser que eu aceite, tem que prometer que vai me contar que merda tá acontecendo.
Fábio respirou fundo e coçou a nuca, parecendo perdido. Enfim consegui colocá-lo contra a parede. Palmas pra mim! Eu não ia aguentar ser feito de trouxa mais uma vez por macho nenhum. Ele que lute!
— Prometo que vou tentar me abrir com você — sussurrou, fazendo carícias em meu pulso, me deixando doidinho. — E vou ser sincero.
Levantei uma sobrancelha e me rendi com um suspiro longo e pesado. Pelo jeito, eu não ia conseguir uma oferta melhor do que aquela.
— Certo. — Empinei o queixo e me esforcei para me fazer de difícil. Eu estava tão cadelinha dele ultimamente que só me fazendo de difícil para ele implorar por mim. — Mas só vou aceitar porque odeio pegar ônibus.
Fábio sorriu, um sorriso tão lindo que derreteu toda a minha armadura anti-sofrência.
— V-V-Vou ver como o Valentino está e a gente vai. — Minha voz tremeu tanto que me achei patético. Foco, Dani! Você não gagueja na frente do crush. Os crushs que gaguejam na sua frente.
— Tudo bem. — Seu sorriso se alargou e por um momento esqueci como se respirava. — Te espero no carro, praga. — Deu uma piscadela sacana e se levantou.
Podia parecer estranho, mas nunca fiquei tão feliz em ser chamado de praga.
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Oiii anjos o que estão achando da história? Temos histórias novas no perfil, beijos e até o próximo capítulo ♡
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Atualizado até capítulo 44
Comments
Vilma Lima
cada vez que leio um capítulo fico mais viciada
2023-01-16
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