CAPÍTULO 15

...Fábio...

Eu ainda estava pensando em você quando cheguei no bar, me acomodando num dos bancos. Seu cheiro único estava impregnado em minhas narinas. A cor dos seus olhos estava fixa em minha mente como uma pintura. Nunca vi olhos daquela cor. Eram tão encantadoramente azuis.

Por mais que não estivesse ali comigo, eu ainda conseguia sentir você.

— Fala aí, gatinho. — Christopher se sentou ao meu lado com um terrível bafo de álcool.

Em outras circunstâncias, eu reclamaria do atraso, pois a ligação do presidente encurtou o tempo que eu tinha com você. No entanto, eu estava tão calmo que não conseguia me estressar mais.

— Gatinho? — Pisquei, estranhando a escolha de palavras porque ele nunca me chamava assim sóbrio. — Está bêbado de novo, não é?

Christopher encostou a testa no balcão e gemeu enquanto pressionava a barriga. Ele era sem sombra de dúvidas o homem mais lindo que já conheci. Entretanto, sempre soube que ele reagia apenas ao Ben, tanto que ele buscava traços parecidos com o do rapaz em outros caras. Eu não era interessante para ele, pois não tinha cachos cor de mel, nem olhos verdes faiscantes e muito menos era magrelo e frágil.

— O que aconteceu dessa vez? — Peguei meu celular e comecei a teclar.

Minha namorada mandou uma mensagem implorando para nos encontrarmos, acabei convidando ela para o bar. Notei que não pedi seu telefone, Daniel. Desculpe por isso. Tive medo de soar invasivo.

Havia uma linha tênue que nos separava. Você podia me cantar o quanto quisesse, mas minha postura e meu cargo me impediam de fazer o mesmo. O certo seria não me envolver com você, nem te dar aulas particulares. Me senti culpado e levemente tentado quando notei que você implorava por mim.

— Ben não me atende. — Christopher jogou o celular na mesa com um gemido, interrompendo o fluxo de meus pensamentos. — Será que ele está bravo comigo?

— Por que ele estaria bravo com você? — rebati, pedindo ao barman que me trouxesse uma lata de refrigerante para o presidente.

— Tô com saudade dele. — Começou a cheirar a echarpe vermelha cafona que rodeava seu pescoço. Aquela peça destoava por completo da vestimenta formal de Christopher. — Mel e canela — murmurou, quase fechando os olhos. — É o cheiro dele.

— Bebe o refrigerante. — Empurrei o copo em sua direção torcendo para que um pouco de açúcar o deixasse mais são.

— Encontrou seu aluninho hoje? — murmurou após o primeiro gole. Ele parecia tonto demais para manter uma conversa, mas mesmo assim resolvi responder porque estava feliz por ter passado o dia com você.

— Sim — sussurrei, abaixando a cabeça porque falar de você me constrangia um pouco. — Encontrei Pedro também.

— Pegou o novo endereço dele? Eu adoraria matá-lo. — Esboçou um sorriso que me deu calafrios. Ele sempre tinha um jeito meio mórbido de se expressar.

— Não. — Suspirei. — Contei para o Daniel sobre mim.

— Sobre a injeção? — Pareceu confuso por um momento, os efeitos do álcool diluindo e nossa conversa parecendo menos superficial.

— É claro que não. — Balancei a cabeça, apertando o braço onde houve a aplicação dois anos antes. Não doía mais, é claro. — Sobre minha transexualidade.

— Ah, isso. — Christopher fez uma careta e deu uma boa golada. — E como ele reagiu? Deve ter ficado desapontado em saber que não você não é um homem de verdade.

— Eu sou um homem de verdade — grunhi, já exausto. Só de pensar que eu ainda tinha que ir para a casa de Valentino me sentia ainda mais exaurido psicologicamente.

— Não é não. — Revirou os olhos e deu um soco na mesa. — Homens de verdade não tem vagina.

— Você é um escroto! — Dei uma cotovelada nele, mas ele parecia tão entorpecido pela tontura que nem se abalou. — E se Ben tivesse uma vagina?

— Ele não tem.

— E se tivesse? Deixaria de gostar dele?

— O que Ben e eu temos não se resume a sexo. — Soltou um arroto que me assustou. A intimidade que tínhamos às vezes era uma desgraça. — Nunca transei com ele, então não sei se ele tem vagina. Quer dizer, sei que ele não tem porque eu já... — Quando percebeu que ia falar demais, Christopher cortou a própria frase. — Vamos mudar de assunto? Não quero falar sobre... as partes do meu precioso Ben.

— Daniel não foi maldoso comigo — murmurei, mudando de assunto como Christopher pediu. — Ele aceitou. Ele me aceitou. Dá pra acreditar? — Inclinei-me na direção do presidente, querendo que ele sentisse nem que fosse um terço da animação que me revigorava por dentro. — Acho que ele gosta mesmo de mim. — Levei a mão ao coração e senti que as batidas falavam seu nome, apenas seu nome como uma música sem fim.

— Não me diga que está apaixonado? — Christopher revirou os olhos quando não respondi. A pergunta que não calava dentro de mim era: eu estava? Mesmo te conhecendo tão pouco, seu brilho me contagiou a esse ponto? — Tudo bem. Assim que a cura gay estiver pronta, não vai ter que se preocupar com isso. Avançamos muito ultimamente.

— Sobre isso... — Pigarreei, ajeitando-me no assento já pronto para ouvir um sermão assim que eu desabafasse. — Contei para o Daniel sobre a cura.

— A nossa cura? — Diante de toda a incredulidade da minha confissão, ele se mostrou mais sóbrio do que nunca. — Enlouqueceu? Aquele moleque não é confiável. E se ele espalhar por aí sobre nossos planos? Ele já quase destruiu minha primeira terapia envolvendo o Ben nessa situação toda. O que me garante que ele não tentará de novo?

— Pera aí. — Minha testa se enrugou. — Ele sabia da existência da terapia original?

— É claro que sim. — Era nítido o ódio borbulhando em seus olhos. Tive o bom senso de recuar porque ficar muito próximo de um Christopher descontrolado era pedir para morrer ou algo muito pior. — Quem você acha que acabou com o meu método?

— Nem pode chamar aquilo de método — sussurrei, mal reconhecendo minha própria voz. — Eletrochoques, lobotomias, drogas indutoras de vômito enquanto um telão transmite sexo gay e isso sem falar dos estupros. É uma tortura sem fundamento. Nenhum foi curado e quase todos morreram. Alguns até se suicidaram na própria cela. São pacientes, não animais. Pra falar a verdade, nem animais merecem esse tipo de tratamento desumano.

— E você acha que suprimir lembranças é o melhor método? — Christopher cruzou os braços, cada vestígio da raiva se apaziguando para meu alívio.

— É o mais indolor. Se não funcionar, ao menos esqueci toda a dor — falei porque querendo ou não era a isso que tudo se resumia. Eu queria esquecer a dor insuportável que afligia meu peito, o peso absurdo que meu coração carregava. — Se eu esquecesse, seria menos triste.

— Fábio. — Ele pousou a mão em meu ombro e a apertou de leve. — Sobre a injeção...

— Não quero falar dela. — Minha voz estava mais embargada do que o normal.

— Se arrepende de ter injetado? — prosseguiu, ignorando minha vontade de não tocar naquele assunto.

— Não — admiti porque era verdade. Aquela foi a decisão mais sábia que já fiz. Meu cérebro dizia que era o certo, porém, meu coração latejava gritando que eu me arrependeria pelo resto da minha vida. — Eu precisava dela, então não me arrependo.

— As consequências...

— São cruéis — completei por ele. — Mas posso lidar com elas.

— Vai chegar ao ponto em que você não poderá mais viver em sociedade — ele insistiu, querendo que eu reagisse de alguma forma. — É isso mesmo que você quer?

— Não existe felicidade para mim, Christopher. — Esbocei um sorriso triste.

— Com a cura, você vai poder ser hétero.

— E o que me garante que as mulheres não fugirão de mim assim que souberem o que eu sou? — Minha vista embaçou assim que meus olhos foram dominados por lágrimas. — Sou um homem diferente.

— Não entendo — bufou, frustrado. — Se acredita tanto no método de suprimir memórias, então porque parece duvidar da eficácia?

— Quero usá-lo para suprimir as lembranças sim — discursei, torcendo para que ele compreendesse a complexidade do meu ponto. — Mas não para ser feliz. Só que ao mesmo tempo, quero que você seja feliz.

— Eu? — Christopher riu.

— Nós dois sabemos que a homossexualidade é a coisa que mais odeia em si mesmo. Claro que isso é por causa do seu pai que...

— Não ouse continuar. — A advertência soou tão dura que me calei. — Como sabe sobre ele? — disse ''ele'' com tanta amargura que me senti desconfortável.

— Você fala enquanto dorme. Não foi difícil juntar os pontos. — Dei de ombros, pedindo um pouco de álcool para o barman porque meu corpo implorava por isso. — E sua paixão pelo Ben também fica nítida enquanto dorme. Você diz o nome dele o tempo todo.

— Não digo não. — Coçou a cabeça, nitidamente acuado. — Vamos mudar de assunto?

— É claro. — Enrosquei meus dedos em sua echarpe. — Podemos ir para o meu apartamento?

— Fazer o que lá? — Sua expressão mudou de tensa para debochada em questão de segundos. — Jogar cartas?

— Não se faça de desentendido, sabe o que estou querendo dizer — grunhi no momento em que meu uísque chegou. Bebi tudo numa só golada. — Estou precisando esfriar a cabeça.

— E vai me comer com o que? — Seu olhar se estreitou. — Com seu dedo? — Encarou minhas mãos e o soltei imediatamente com um rosnado.

— Você é um grande idiota! — Dei uma cotovelada nele. — Não entendo porque me tolera se é tão transfóbico.

— Transfóbico? Mais um defeito para a minha lista infinita. — Suspirou. Suas pálpebras pareciam pesadas de tanta exaustão.

— Se me odeia tanto assim então por que não deixou que eu morresse quando implorei pela morte? — questionei, sentindo tudo dentro de mim rasgar como se minhas suturas internas estivessem se arrebentando pouco a pouco.

— Porque... — interrompeu-se parecendo tão perdido e hesitante quanto eu. — Porque gosto de você o suficiente para não te querer morto. — Aquilo era sem sombra de dúvidas o mais próximo de uma demonstração de afeto que eu teria dele. — Isso não quer dizer que eu iria pra cama com você.

— Você já foi — lembrei, querendo rir só de pensar naquela cena. — E vomitou em mim.

— Eu tava bêbado... E tenho nojo de vagina. — Fez uma careta. — Podia ter me avisado com antecedência antes de irmos para a cama.

— Ah, claro. Como se minha autoestima já não estivesse baixa o suficiente — rosnei. — Você é um escroto, isso sim.

— E o aluninho? — Parecia desesperado para mudar de assunto. — Vocês se beijaram?

— Não, mas foi quase. — Deletei-me com aquela mera lembrança.

Se eu pudesse selecionar a dedo as memórias que não queria que suprimissem, aquela estaria no topo da lista porque não queria me esquecer da primeira vez que alguém me aceitou.

Você não fez perguntas, nem me julgou. Apenas fez com que eu me sentisse em casa, me sentisse bem. E Deus sabia que nunca em toda a minha vida eu tinha me sentido bem de verdade. Queria congelar aquele momento, desfrutar da sensação de pela primeira vez na vida não me sentir um erro.

— O Daniel é diferente. Tudo com ele é diferente — desabafei, sabendo que era uma questão de tempo até Christopher tentar me convencer de que a cura era tudo o que importava e que ele me salvaria. — Eu não queria esquecer isso.

— Mas vai — a garantia me deixou sem chão. — Permiti que se aproximasse dele por uma razão e não era para se apaixonar.

— Daniel não é um perigo para você.

— Ele sabe demais, Fábio.

— E o que espera que eu faça? Mate ele? — A mera hipótese de machucá-lo provocava uma agitação estranha na boca do meu estômago. — Eu nunca o machucaria e não vou deixar que o faça.

— Está me repreendendo? — Ergueu uma sobrancelha.

— Não — falei rápido demais. — Desculpe.

— Qual é a sua obrigação?

— Obedecer — respondi de forma automática.

— A quem? — continuou como se eu fosse um robô programado por ele.

— Você. — Abaixei a cabeça em sinal de submissão. — Isso não vai se repetir, presidente.

— Ótimo. — Um sorriso vitorioso brotou em seu rosto e aquela máscara da crueldade voltou, indicando que eu não poderia mais discutir com ele e sair ileso.

Como se fosse um carma, minha namorada surgiu no bar. Só então me lembrei que a havia convidado. Christopher se virou para medi-la de cima a baixo, o rosto empalidecendo de uma hora para outra.

— O que diabos ela está fazendo aqui? — cochichou Christopher assim que Beatriz me localizou, vindo à minha direção.

— Eu que chamei. — Forcei um sorriso. — Ela é minha namorada.

— Você sabe que essa é a mãe do seu aluninho, né? — Christopher me olhou como se eu fosse louco.

Aquela verdade me machucou porque por mais que eu e ela estivéssemos juntos, meu coração estava preenchido por você e naquele momento, era tudo o que importava.

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Comments

Ana Júlia ◇

Ana Júlia ◇

Ben não atende, Chris: "Ansiedade, coração desesperado
É só bebida quente
Por causa de um coração gelado
Amor e raiva andam lado a lado
Porta retratos e quadros tudo quebrado
É o que 'tá tendo
Pedaço de ex amor pra todo lado
'Tá doendo, 'to sofrendo
E ele não 'tá me atendendo
Oh baby, me atende
Ai que vontade de tacar meu celular na parede
Após o sinal deixe seu recado
É o que eu escuto quando ligo pra ele" kkkkkkkkk

2023-01-04

3

lui✯˖*⁠。

lui✯˖*⁠。

A cada capítulo é um novo colapso queria chegar viva no final da história sabe autora...

2022-12-29

1

lui✯˖*⁠。

lui✯˖*⁠。

Aaaa quantas revelações,meu deus que tanto de informaaaaçãoooo socorro tô MUITO CHOCADA agora que merda vai começar

2022-12-29

1

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