Eu já estava mortinho da silva quando cheguei em casa.
Minha mãe Beatriz estava na cozinha como de costume, preparando alguma coisa que me deixaria com água na boca se ela não inventasse de nunca seguir a receita a risca.
— Não te ouvi chegar — disse ela mexendo alguma coisa perigosa numa travessa. Eu não duvidaria nadinha se aquela coisa pegajosa criasse vida. Franzi o nariz na mesma hora. — Achei que iria pra casa do seu pai. Vai ficar para o jantar?
— Pelo amor de Britney não! — exclamei e me arrependi na mesma hora. Tudo bem que ela cozinhava muito mal, mas não era educado explanar isso em voz alta, então logo reformulei. — Quer dizer, vou comer na casa do meu pai. Decidi dar uma passadinha aqui primeiro para trocar de roupa.
Por mais que minha vestimenta fosse normal para um garoto, eu ainda me sentia desconfortável com aquela jaqueta, então decidi revirar meu guarda-roupa atrás de algo mais leve.
Talvez eu até deixasse as botas em casa para evitar um possível sermão. A última coisa que eu precisava depois daquele dia pra lá de exaustivo era ver meu pai preconceituoso catalogando roupas de menino e de meninas dizendo que nenhum hétero que se prezasse usaria qualquer coisa cor de rosa.
Eu era bem parecido com a minha mãe. Puxei os cabelos loiros dela, mas os olhos azuis eram do meu pai. Possuíamos a mesma magreza excessiva, só que ao contrário de mim, ela não sabia desfilar em saltos de plataforma da mesma forma graciosa que eu.
— Poxa, eu tava preparando uma pizza caseira pra gente. Não quer mesmo ficar?
— Britney que me livre! — Meneei a cabeça com veemência, torcendo para que meu tom definitivo não a magoasse. — Quer dizer, não mami. Prefiro comer com meu papi, faz um tempinho que eu não o vejo. — Na verdade, eu só preferia porque meu papi pelo menos aceitava que não sabia fritar um ovo e pedia comida.
Lembro-me até hoje da última pizza que ela tentou fazer. Era de queijo, mas a massa parecia uma borracha tóxica e se não me dissessem que era de queijo, nunca teria chegado a essa conclusão sozinho.
— Eu queria falar com você — murmurou ainda mexendo aquela gororoba com a colher de pau. — Bem, não sei como você vai reagir a isso. Raissa aceitou muito bem.
— Minha maninha é muito fácil de agradar. Eu sou mais exigente. — Abri um sorriso meio temeroso e joguei a franja para o lado. — Pode falar, sabe que detesto suspense.
— Estou conhecendo um cara. — Ela pigarreou, colocando a travessa em cima da pia. — E acho que dessa vez é pra valer.
— Papi te largou, então não vejo nada de mais em querer seguir em frente. Muito pelo contrário, é bom que siga. — Dei de ombros e suspirei. — E quem é o meu futuro padrasto? É gostoso?
— Dani, mais respeito!— Seus olhos se arregalaram e reprimi minha vontade de cair na gargalhada. — Eu queria convidá-lo para jantar aqui em casa para você e Raissa o conhecerem, o que acha?
— A ideia é ótima. — Umedeci os lábios, sem ter a menor ideia de como explanar aquilo em voz alta sem soar maldoso. — Só que se quiser que ele continue gostando de você, sugiro que peça comida pelo telefone.
— Por que diz isso? — Ela colocou as mãos na cintura. — Você sempre achou minha comida incrível.
Há! Claro. Na maioria das vezes eu tinha que me esforçar pra não vomitar, mas óbvio que eu era uma lady e não diria isso pra ela. Até porque se eu fosse cem por centro sincero, era bem capaz de ela me dar uma chinelada. Eu era crescidinho pra tomar minhas próprias decisões, mas nunca era adulto o bastante para não apanhar.
— Eu sei. — Esbocei um sorriso amarelo que me admirei ela não ter notado a falsidade nele. — Mas seria melhor dividir seus maravilhosos dotes culinários depois do casamento, não? Guarde o melhor pra depois. — Me esforcei para não falar que se ela fizesse, o cara sairia aos gritos ou desmaiaria na mesa mesmo.
— Tem razão. — Devolveu o sorriso de forma amável e quase me senti culpado por estar mentindo. Senti pena do cara, então prometi a mim mesmo que conversaria com ele assim que nos conhecêssemos para que ele não magoasse minha mãe com a famosa sinceridade. — Já me imagino preparando os quitutes do nosso casamento — murmurou com um ar sonhador.
Coitado dos convidados! Iriam sair do casamento traumatizados. Decidi que a convenceria a comprar os quitutes quando chegasse a hora. Eu nem conhecia o cara ainda, então era meio cedo para aprová-lo para um possível casamento, não que isso dependesse de mim.
Porém, mami sempre prezava pela minha opinião. Era bem difícil ela continuar com caras que eu não curtia. Eu tinha um radar eficiente na arte de detectar babacas, talvez por isso eu tivesse um ímã para eles, visto que choviam na minha horta. Babacas se reproduziam na velocidade da luz, era impressionante.
— A Raissa já chegou? — perguntei, tentando desviar do foco do novo boy magia da mami.
— Já, está no quarto — disse ainda distraída com a ideia de um possível casamento.
Eu achava meio balela na verdade. Não que eu não possuísse sonhos de me casar um dia. Só que, a cada dia que se passava, mais eu aceitava que nasci apenas para manter casinhos aqui e ali. Quem tivesse a sorte de casar comigo, teria que ter uma mente muito desconstruída, pois eu não aceitaria casar de smoking. Teria que ser de vestido e rosa, muito rosa.
Eu me casaria numa praia e meu noivo ou noiva seguiria os meus votos. ''Até que Britney os separe'', diria o padre ou quem quer de fosse realizar a bendita cerimônia. Se meu noivo fosse um cara, provavelmente não seria um padre que nos casaria.
Parti aos pulinhos até meu quarto. Moráramos num apartamento, perto da sede do presidente Christopher Alvarez Leal. Da janela do meu quarto, dava pra vê-lo saindo todos os dias com seu filhinho Benjamin beijando seus calcanhares após um dia exaustivo exercendo a arte de ser babaca.
Raissa estava estirada na minha cama lendo uma revista de fofoca. Fingi não me importar com ela bagunçando meu edredom da Barbie. Tudo naquele meu mundinho era cor de rosa. Desde o carpete do chão, até as cores das paredes. Se antes não havia ficado bem claro o quão obcecado eu era por aquela cor, então meu quarto enfatizava isso tranquilamente.
Minha maninha me deu aquele famoso sorrisinho de canto de boca e fechou a revista. Seus cabelos loiros eram mais escuros do que os meus, só que seus olhos azuis não causavam tanto impacto quanto as duas amostras do oceano que eu esbanjava por aí. Ela era gorda, bem mais baixinha do que eu e com um sorriso irônico sempre fixo em seu rosto.
— Como foi a aula? — quis saber, apoiando-se nos cotovelos. — Que bom — prosseguiu antes mesmo que eu respondesse. Ela tinha essa mania de deixar bem claro que só fazia certas perguntas por pura educação, logo não se incomodava em esperar uma resposta delas.
— E o seu? — Fiz uma careta ao me sentar ao lado dela para tirar minhas botas. Ao contrário dela, eu tava mesmo interessado.
— Passei com o Ben. — Me dava nos nervos a forma melosa como ela falava o nome dele. Tudo bem que gnomozinho era um delicioso pedaço de mau caminho, só que não era pra tanto, né? — Ele me deu flores.
— Nunca entendi a lógica de dar flores — murmurei, revirando meu quarto atrás de um sapato decente. — Você ganha e faz o que com elas? Enfia no rabo?
— Não, seu grosso. Eu cuido. — Ela revirou os olhos. — Você é um mal amado, sabia? Diz isso porque não ganha flores.
— Não, queridinha. — Agachei diante da sapateira cor de rosa e puxei um par de sapatos dourados repleto de lantejoulas. Que se dane! Eu ia usar aquilo mesmo. Nem morto me renderia a um par de chinelos sem graça. — Digo isso porque ganho quase todos os dias e não sei o que fazer com aquele bando de margarida. E adivinha só? Sou alérgico a margaridas!
— Ben é diferente dos trastes que você sai — disse ela e me controlei pra não dizer que aquela carinha de bom moço dele não me convencia.
Como se não bastasse à relação quase incestuosa que ele tinha com o pai adotivo, ainda nutriu uma intimidade com meu papi além do normal. Ben era o filhinho do presidente, o menino de ouro de Chechênia. Todos invejavam suas roupas caras e veneravam seu cheiro, que Raissa descrevia como uma mistura de mel e canela. Qual é! Nem eu conseguia ser tão específico assim em decifrar odores.
Eu era barraqueiro, mas não estava com paciência pra trocar farpas com a minha irmã depois de me exaurir com aquele professorzinho que sugou toda a minha paz de espírito numa só aula.
— Se você diz. — Amarrei os cadarços e fiquei de pé, me livrando daquela jaqueta e me ocupando em procurar uma mais decente. Optei por uma laranja. Meu pai não criticaria um cara usando laranja, certo?
— Você sabe que está ridículo, né? — grunhiu ela enquanto eu passava minha echarpe rosa em volta do pescoço. — Parece que vai numa discoteca brega dos anos sessenta.
— Vintage nunca sai de moda, amada. — Borrifei meu perfume arrasador e ajeitei meus fios com os dedos, deixando minha franja irresistível como sempre. — Vou dar uma passadinha na casa do papi. Preciso pegar uma roupa que deixei lá e ele queria conversar comigo sobre alguma coisa. Quem sabe ele finalmente tenha desencalhado e vai me apresentar minha nova madrasta.
— Se fosse o caso, ele me chamaria também. Sempre tive mais intimidade com ele do que você, que o renega.
— Eu não o renego. — Fitei-a de modo crítico. — Só prefiro manter distância dos julgamentos dele. Não tenho culpa de ser o único sensato dessa família de preconceituosos.
— Ele só é um pouco conservador, o que é normal em Chechênia. — Não dava pra acreditar que ela tava mesmo defendendo ele. — Se você pelo menos se vestisse de um jeito que não parasse o trânsito, talvez ele te julgasse menos. Qual é, Dani. Você sabe que as pessoas falam. Não custa nada tentar se encaixar.
— Se não for pra parar o trânsito, então não vejo sentido em sair de casa — permiti que minha irritação reverberasse na tonalidade explosiva de minha afirmação. — Me sinto bem desse jeito. Não me importo se as pessoas pensam que sou gay. Não devo satisfações a ninguém e com certeza não é com elas que divido os lençóis. Se não me afeta, então por que eu me incomodaria em tentar mudar?
— Só dê uma olhada em onde a gente vive — discursou ela. — Não ligo pra roupa que você usa ou com quem você dorme, só me preocupo com seu bem estar. Vivemos num país onde o preconceito predomina. Amo meu namorado, mas o pai dele é um bicho asqueroso e se ele souber que você não está dentro do padrãozinho dele, é bem capaz de tentar mudar isso.
— É preciso de muito mais do que um presidente de meia tigela para apagar meu brilho, amada. — Levantei a gola da minha jaqueta, me sentindo mais bonito do que nunca. — Preciso ir, te vejo depois.
— Toma cuidado, Dani — disse ela de maneira tristonha. Parecia mesmo preocupada comigo, o que era meio idiota porque eu literamente não iria sair do prédio. Eu me emperiquitava todo por pura vaidade mesmo.
— Sempre tomo. — Ofereci-lhe meu melhor e mais resplandecente sorriso e fui saltitando até a saída, torcendo para que minha maninha se livrasse de uma vez por todas daquela neura sem futuro.
***
Nada era mais irônico do que ter meus pais morando no mesmo prédio, no mesmo andar e em apartamentos diferentes. A única coisa que eu tinha que fazer era ir até o final do corredor e usar minha chave reserva pra abrir a porta.
O apartamento do meu papi destoava completamente do da minha mami. Meu pai preferia cores mais escuras, os móveis eram antiguidades horrendas. Minha mãe preferia coisas mais solares e claras, do tipo que impactava de maneira positiva. Portanto, não foi novidade nenhuma sentir aquela negatividade pairando no ar assim que passei pela porta.
Um silêncio esmagador me cercou ao fechar a porta atrás de mim. Já falei pro meu pai mudar a decoração, mas ele sempre teve o dom de nunca me ouvir.
Guardei as chaves no bolso traseiro da calça e fui espiar os cômodos a procura do papai. Não era possível que ele ainda estivesse no escritório babando ovo do presidente, já passou há séculos o horário de seu expediente.
Peguei uma maçã na fruteira e disparei para o quarto dele achando que ele estava tirando uma sonequinha ou algo assim. Nunca fui do tipo que batia na porta antes de entrar, então girei a maçaneta sem remorso.
A maçã caiu da minha mão assim que vi meu pai na cama aos beijos com ninguém menos do que Ben, o precioso namoradinho da minha irmã. Na real, era bem mais do que meros beijinhos, só achei melhor aliviar mentalmente para conter a minha vontade avassaladora de arrancar os olhos diante daquela cena traumática.
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Atualizado até capítulo 44
Comments
Lais Soares
😱😱😱 minha nossa senhora do chuveiro elétrico, to passada
2023-05-31
0
Vilma Lima
morri 😱😂😱😱😂
2022-11-29
1
Mel 🌈
Atualização amanhã ♡
2022-11-23
1