CAPÍTULO 7

A deixa para que eu voltasse para a minha mesa foi a porta do banheiro masculino se abrindo. Não que eu tivesse medo daquele sonso do presidente. A verdade era que eu queria inventar uma desculpa para me livrar daquele clima desconfortável que se criou entre Fábio e eu.

Chispei dali sem nem dizer tchau e voltei para a minha mesa, surpreso em encontrar Rick ao lado de Otávio, os dedos entrelaçados de forma íntima e carinhosa enquanto trocavam olhares melosos de juras de amor não ditas.

— Será que os pombinhos podiam parar de agir como se estivessem em lua de mel? — Fiz uma careta e beberiquei meu sprite. Se tinha uma coisa que eu detestava era ficar de vela, então ou eles se comportavam ou eu metia o pé dali e comeria solitário numa mesa com o que restou da minha dignidade. — Daqui a pouco estarei segurando um candelabro ao invés de uma vela.

— É que quando saí para trabalhar, ele ainda estava dormindo. — As bochechas gorduchas de Rick ficaram vermelhas como costumavam ficar ao mencionar meu priminho. — Fiquei com saudades.

— Também fiquei. — Otávio abaixou a cabeça ao murmurar meio sem jeito. A verdade é que ele nunca foi tão aberto em expressar seus sentimentos a pessoa amada. Rick foi o único que conseguiu acessar aquela pedra de gelo que Távio tinha no lugar do coração. — Vai pra casa comigo, né?

— Não, meu doce. — Rick tirou um cacho da testa do meu cousin cosy e passou a acariciar o rosto dele. — Ainda tenho que voltar para o escritório. Christopher me deu uma pilha de documentos para transcrever e não estou nem na metade.

— Ele está abusando da sua boa vontade. — Otávio empinou o queixo com indignação. — Já disse para largar esse emprego. Quase não tem tempo pra mim.

— É isso que te incomoda, meu doce? — As sobrancelhas de Rick se uniram. Ele era gordo, a pele pálida com algumas sardas aqui e ali. Os cabelos castanhos avermelhados estavam num topete esquisito e sem estilo. — Posso tentar diminuir a carga horária.

— Não quero que diminua, quero que saia — rosnou, inflando as narinas ao bater na mesa. — Você não precisa desse emprego. Temos dinheiro o suficiente para nos mantermos, até mais do que o suficiente.

— Não. — Mesmo com anos juntos, Rick não aprendeu que era um erro contrariar meu priminho em qualquer situação. — Você tem dinheiro o suficiente.

— E lá vamos nós de novo. — Otávio cruzou os braços e bufou, indignado. 

— Gosto de ser independente, Távio . — Tentou segurar mão dele de novo, mas Otávio a puxou com violência. — Se não fosse por esse emprego, o que você acha que teria acontecido comigo depois da nossa briga que quase nos separou definitivamente?

— Nunca te expulsaria de casa, ainda teria um teto para morar. O fato de eu pagar as contas não torna tudo só meu. Escolhi morar com você porque... — ele engasgou ao se interromper. Mordeu o lábio inferior com força e olhou para o lado.

— Continue, Távio — murmurou Rick, parecendo impaciente.

— Porque eu te amo — ele como sempre ficou muito sem graça ao admitir isso. — Que merda! Sei que nunca digo isso o suficiente pra você, mas eu nunca te deixaria. Depois de tudo o que a gente passou, você ainda tem essa insegurança?

— Também te amo, meu doce. — Rick ficou tão radiante que chegou a ser engraçado. Eu ia fica diabético de tanto mel que aqueles dois estavam soltando. — A gente vai se mudar de qualquer jeito, então vou pedir demissão logo.

Sua última frase foi golpe eficiente em meu peito. Sim, eu sabia que meu primo ia se mudar em breve para a ilha flowers para construir uma vida melhor, livre dos preconceitos que soterravam Chechênia e enfim ter o tão sonhado casamento, já que onde morávamos era crime pessoas do mesmo sexo se casarem.

Ao contrário daquele bueiro poluído pela ditadura homofóbica onde a gente vivia, a ilha flowers era governada por um rei assumidamente homossexual que criou leis que protegiam a diversidade. O rei Harry Chevalier se casou com meu primo Gabriel Pavlova depois de muita enrolação de ambas as partes, formando um laço profundo e fofo que eu invejava até hoje.

— Promete que vai pensar? — Otávio perguntou e então me dei conta de que divaguei ao ponto de perder metade da discussão.

— Tudo bem, meu doce. — Rick pegou a mão de Távio e beijou as costas dela. — Agora preciso voltar para a sede. Vou trazer bolinhos para você.

— De chuva? — A expressão do meu primo se reconstruiu imediatamente. A palavra chave para vencê-lo era dizer que traria comida para ele. Quase sorri ao descobrir que Rick enfim aprendeu as manhas de como lidar com meu priminho amargurado.

— Sim — disse, inclinando-se para tomá-lo em seus braços. — Vou trazer uma caixa inteira pra você, meu amor.

— Eu quero duas. — Távio fez uma cara séria porque pra ele comida era um assunto muito sério a ser discutido. Até hoje nunca soube para onde ia toda aquela comida. Aquele cidadão tinha um buraco negro no lugar do estômago. — Bem grandes.

— Certo. — Rick reprimiu uma risada, já eu nem me dei ao trabalho e ri na cara dura. — Te amo — prosseguiu, roçando os lábios na bochecha dele. Desviei o olhar porque se não eu ia ter segurar dois candelabros ao invés de um.

— Eu sei. — Meu priminho sorriu e lhe deu um beijo tão rápido que numa piscada eu teria perdido. — Volte logo para mim.

— Sempre — disse com uma piscadela ao se retirar.

Otávio ficou alguns segundos olhando para o nada com cara de paisagem. Era meio frustrante sair com aqueles dois porque meu primo ficava desconectado do mundo quando ficava perto dele, ao ponto de nem sequer me enxergar quando ele ia embora, provavelmente pensando em algum momento épico que viveram na historinha de amor deles.

Sim, eu estava sendo meio idiota. Isso porque o amor nunca me pareceu algo muito palpável. Eu amava a ideia do amor, só que pra mim ele sempre se mostrou algo ilusório e inalcançável.  Sempre que eu pensava que havia encontrado a pessoa certa, o destino me mostrava que eu estava errado com um tapa na cara que doía até a alma. Minha pobre alma entrava em colapso e meu coração se despedaçava.

Diziam que o amor podia doer, mas ninguém me disse que podia dilacerar também. Tanto que quando aconteceu da primeira vez, achei de verdade que fosse morrer.

A primeira era a garota mais perfeita que eu já tinha conhecido. Ela parecia ser tudo o que sempre sonhei. Aos poucos, isso foi mudando ao ganhar tons cada vez mais obscuros.

Uma relação cor de rosa acabou ficando cinzenta num passe de mágica.

Depois de me reconstruir, dei mais uma chance para o amor. Após a terceira tentativa, foi ladeira abaixo. Com o tempo, acabei construindo uma muralha em meu peito que me blindava repelindo esse tipo de sentimento. Aprendi a canalizar tudo em sexo. Contato físico sem compromisso era ótimo para sanar meus desejos.

O fato de eu nunca me dar ao luxo de conhecer meus parceiros sexuais tão bem ajudava a não criar um vínculo muito forte com nenhum deles. Isso e o fato de que eu tinha o dedo muito podre e só atraía gente que não prestava. Eu tinha essa tara por gente bonita. Na real, acho que todo mundo tinha esse tipo de tara, a diferença era que eu escolhia justamente o tipo que era bonito por fora e revestido a bosta por dentro.

Espiei a mesa de Fábio apenas por curiosidade. Eu queria saber se ele ainda estava ali. Fábio estava rindo de novo de alguma coisa que Christopher dizia. Sem dúvida aquele bando de frases idiotas que o presidente soltava vez ou outra era um stand-up pronto, então eu nem podia culpar Fábio por rir.

— Está espiando o professor gato? — quis saber Otávio, enfim voltando para o próprio corpo após séculos nadando no limbo. — Vai tentar dar uma ideia nele?

— Talvez eu o leve pra cama. — Dei uma risadinha.

— Duvido. — Otávio sacudiu a cabeça, descartando minha afirmação. — Ele é areia demais para o seu caminhãozinho.

— Ele me pagou um sprite — falei, bem ofendido.

— Sim, mas isso não é um convite do tipo: quero que atoche seu pauzinho minúsculo na minha bunda.

— Ei, mais respeito com o Danizão aqui! — Semicerrei os olhos, furioso pela audácia dele. — As únicas coisas minúsculas são seus neurônios, priminho.

Otávio deu uma gargalhada e se recostou na cadeira de rodas, satisfeito pelo meu surto. Ele e seu dom de me tirar do sério em qualquer situação.

— Falando sério, essa não é a primeira vez que você tem uma paixonite pelo professor.

— Qual é, não tenho paixonite nenhuma — falhei ao desconversar, isso era meio que óbvio.

— Você tá praticamente babando, Daniel. — Limpou uma baba imaginária em meu queixo, literamente debochando da minha cara. — Se o cara te der bom dia, é bem capaz de você gozar.

— Até parece. — Respirei fundo e soltei o ar em seguida. — É diferente ter interesse amoroso e sexual. Sinto tesão por ele. Meu pau é desconectado do meu coração, amado. Quando olho pra ele, estou pensando com a cabeça de baixo.

— Quando é que você vai finalmente se abrir de novo para o amor, Dani? — perguntou e aquilo ficou martelando na minha cabeça repetidas vezes. — Dá pra ver que esse rodízio de sexo não está te fazendo feliz.

— Minha vida sexual está mais ativa do que nunca, basta pra mim — pontuei, tentando ao máximo soar firme e decidido. — Não quero mais uma desilusão amorosa na minha lista. Cansei de ser tratado feito lixo. A verdade é que não existe ninguém bom o bastante para mim. E não estou dizendo isso por ego. — Pausei, suspirando porque nem eu conseguia encontrar uma forma menos idiota de dizer aquilo. — A pessoa que idealizo pra mim não existe. Nunca conheci uma pessoa bonita e legal que gostasse de mim.

— Eu sou bonito e legal — disse, tentando invalidar meu argumento chulo. — Também gosto de você.

— Mas você não conta, cousin cosy. — Ergui as mãos, gesticulando de modo exagerado. — Você é um irmão pra mim.

— Eu sei. — Otávio deu uma risadinha. — Só não quero que desista. Rick foi a melhor coisa que já me aconteceu e queria que você soubesse como é a sensação de ter alguém. É mais do que sexo ou coraçõezinhos batendo em conjunto como dois adolescentes na puberdade. O amor machuca, mas consegue curar depois. Não foque tanto na dor, foque na cura.

— Faz sentido. — Me senti um pouco desconfortável porque Otávio não era o tipo de pessoa que falava aquele tipo de coisa.

Geralmente, ele era inseguro e explosivo em tudo. De fato, Rick conseguiu curar esses defeitos do meu priminho, o tornando uma outra pessoa, quase sociável. Antes, ele parecia um ogro raivoso com ódio de tudo e de todos. Quem se aproximava dele, devia estar pronto para levar um fora de detonar qualquer espírito sensível.

— Se você que é a pessoa mais insuportável do planeta Terra conseguiu alguém, então com certeza tem alguma princesa ou príncipe a minha espera.

Levei um tapão no braço assim que falei aquilo e comecei a rir.

Naquele mesmo instante, Fábio e Christopher saíram de suas cadeiras. Foquei em sua bunda maravilhosa enquanto ele ia em direção à saída após Christopher jogar uma nota em cima da mesa. Com certeza o burguesinho safado jogou uma nota de cem para se gabar.

Era meio deprimente estar sexualmente atraído pelo professor.

Porém, meu medo era que Fábio por ter uma embalagem bonita à primeira vista, escondesse um produto defeituoso por dentro e por mais interessado que eu estivesse nele, eu não me arriscaria em mergulhar em mais uma decepção.

***

   Depois de pagarmos a conta, me despedi de Otávio e parti para o salão de beleza onde uma horinha marcada prometeria fazer um milagre em minhas unhas destruídas.

— O que aconteceu, querido? — perguntou a manicure ao se deparar com a catástrofe.

— Tá um desastre, eu sei! — Fiz um beicinho. — Vou querer cortar. — Tive vontade de chorar ao dizer aquilo.

Por mais que eu tivesse desistido de tentar alguma coisa com o professorzinho pelo bem da minha sanidade mental, eu ainda queria aquelas aulas particulares. Era importante pra mim aprender a tocar violão e arrasar no festival.

— E pinte de cinza porque é assim que minha vida está ultimamente — choraminguei, sabendo que a primeira lágrima cairia assim que a manicure acatasse meus pedidos dolorosos.

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