— Só pode ser sacanagem! — grunhi, dando um tapa na mesa.
— O que foi? — Otávio piscou, desconcertado.
— Aquele ''gato'' é meu professor do grupo de música. — Fiz aspas com os dedos para ilustrar, só que elas se mostraram desnecessárias, visto que Fábio era gato mesmo independente da minha raiva quanto a isso.
— Sério? — Otávio sorriu, engolindo as batatas que colocou na boca sem qualquer educação. — Se eu soubesse que choveria gente bonita naquele lugar, nunca teria largado os estudos.
— Deixa de ser tarado. Você está noivo! — Bati meu ombro do nele, arrancando algumas risadinhas daquele descarado.
— Rick é muito seguro quanto ao taco dele. — Deu uma piscadela pra mim e revirei os olhos.
— Aqui está, senhor. — Uma garçonete parou do meu lado e colocou uma lata de sprite na minha frente, abriu e despejou parte do conteúdo num copo com gelo.
— Eu não pedi isso. — Franzi o cenho e encarei Otávio. — Você pediu?
— Não. — Deu de ombros com indiferença e continuou comendo como se nada houvesse.
— É normal nessa lanchonete vir coisas que não pedimos? — usei meu tom venenoso porque as chances de eu pagar por uma bebida que não pedi, eram nulas.
— Não preocupe, a bebida já está paga. — O sorriso inocente dela me fez relaxar um pouco, embora eu a achasse um pouco sonsa. — Só aproveite.
— Quem pagou? — insisti porque eu não ia beber algo que um desconhecido me deu. Eu era louco, mas nem tanto.
— Aquele homem ali. — Ela apontou e segui seu dedo, não me surpreendendo nem um pouco ao ver que o dito cujo era Fábio ou Christopher. Se fosse Fábio eu até beberia, mas Christopher era bem capaz de ter colocado veneno naquela lata, então eu ainda ficava com o pé atrás.
— Qual deles? O imbecil ou o energúmeno? — Mordi o lábio inferior.
— Para de ser fresco e bebe logo a droga do refrigerante. —Otávio meneou a cabeça, sem dúvida me achando infantil.
— O de jaqueta preta, senhor — disse, referindo-se a Fábio, que parecia bem entretido com alguma coisa que Christopher falava no seu ouvido.
Como não nasci pra ser feito de trouxa, me levantei da cadeira, determinado a ir até lá tirar essa história a limpo. Eu, hein! Quem ele pensava que era pra ficar pagando bebida pra mim?
— Você não vai lá, né? — questionou Otávio, agarrando meu pulso.
— Claro que vou. — Puxei meu braço de volta sem cerimônia. — Não tenho medo de macho não.
Fui de queixo empinado até a mesa dele. Ambos estavam rindo de alguma coisa, alheios a minha presença. Ajeitei minha gola e pigarreei bem alto para chamar atenção.
— Como você sabe que gosto de sprite? — já cheguei perguntando porque não queria preencher a conversa com enrolação.
— Primeiramente bom dia — disse, fazendo pouco caso da minha indignação.
— Já é quase uma da tarde, então pode pegar o seu bom dia e enfiar no seu...
— Ei, isso é jeito de falar com seu professor? — Christopher se manifestou, só agravando ainda mais o meu ódio.
— A conversa ainda não chegou no chiqueiro, presidente. — Soltei um suspiro pesado.
— Acho você muito inconveniente — despejou o presidente.
— Devo estar com mal de Alzheimer porque não lembro de ter pedido sua opinião — fui o mais afiado possível.
— O respeito passa bem longe de você, não é? — disse Christopher, tentando sem sucesso se fazer de vítima pra cima de mim.
— E o bom senso passa bem longe de você — rebati com um sorrisinho vitorioso.
— Parem de brigar como duas crianças. — Fábio revirou os olhos e balançou a cabeça, desaprovando nosso comportamento. — Eu só te paguei um refrigerante. Se não quiser, é só não beber. Não precisa ficar todo zangadinho, garoto.
O modo como ele falou aquilo quase me fez acreditar que eu estava fazendo uma tempestade num copo d'água. Sério que ninguém enxergava a estranheza daquilo? Eu nem conhecia o cara direito e ele já vinha me pagando coisas que nem pedi. Isso era no mínimo bizarro até dizer chega.
— Só quero saber como descobriu que eu gostava de sprite — murmurei, tendo em mente que aquela discussão já perdi.
— Todo mundo sabe. — Bebericou seu copo de refrigerante de forma distraída. — Você é a atração da faculdade.
— Está interessado em mim, é isso? — Abri meu sorriso mais malicioso e cheguei mais perto dele. O sonho bizarro que tive com ele ganhando tons cada vez mais vibrantes de realidade, tornando-se quase palpável. — Não te culpo, mas era só ter me falado. — Alarguei ainda mais o sorriso e ignorei sua cara de espanto. — Tem um motel aqui perto e...
— Vou fingir que você não disse nada. — Fábio me olhou como se eu fosse um louco que fugiu do hospício.
— Ah, qual é! — Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Ninguém paga refrigerante para um aluno fora da escola se não quer algo em troca.
— Eu quis te fazer um agrado. Só isso! Um pedido de desculpas pela forma como te tratei ontem — bufou, parecendo cansado. — Se eu soubesse que você era um tarado, eu teria pensado duas vezes.
— Vocês estão mesmo tendo essa conversa na minha frente? — Christopher parecia incrédulo pela minha audácia em falar tão abertamente minha orientação sexual, embora não correspondesse a suas suspeitas. Eu não era gay, mas preferia que ele pensasse que eu era ao invés de perder meu tempo explicando para uma mente tão fechada e atrasada. — Você sabe quem eu sou e do sou capaz, certo? — Senti uma leve inclinação de ameaça naquela indagação retórica. — Está querendo levar meu funcionário para um motel sabendo o quanto abomino a prática homossexual?
— ''A prática homossexual'' — Acabei rindo porque era impossível não rir das merdas que esse cara falava. Quem votou nele só podia ser surdo porque não era possível que alguém tenha achado que aquele troço seria a salvação da nossa pátria. — Por Gaga, você fica mais idiota a cada palavra que sai da sua boca.
— Chris! — Fábio o empurrou de volta para a cadeira assim que o presidente fez menção em se levantar provavelmente para esganar meu pobre pescocinho.
— Só não acabo com você por respeito ao seu pai — disse, recostando-se no assento e cruzando os braços com rigidez.
— Não tenho medo de você — murmurei sem vacilar. — Tenho pena. Deve ser triste amar quem não pode ter e transformar um sentimento tão bonito em ódio.
— Do que você tá falando, garoto? — grunhiu o presidente parecendo mesmo confuso.
— Do Ben. — Nem me incomodei em abaixar o volume da minha voz. — Você o ama, não é? E não pode tê-lo porque é um preconceituoso de merda. Não tem nada a ver com o fato de ter adotado dele. Por Gaga, acredito que nem sequer adotou, é só uma desculpinha para justificar seus agarramentos em público. Já adianto que futuramente vai pegar muito mal quando a mídia descobrir que seu filhinho de fachada na verdade é seu amante disfarçado.
— Ben não é meu amante. — Achei admirável o quanto ele se controlava pra não me dar uma voadora no meio da fuça. — Sou hétero! H-É-T-E-R-O.
— Claro que é por Gaga, ainda existe hétero? — Fingi surpresa apenas para provocá-lo. — Achei que fosse meme.
— Daniel. — Fábio parecia muito cuidadoso ao pronunciar meu nome. — Por favor, fique quieto. Acredite, você não vai querer ele como inimigo.
— Ele já é meu inimigo — sussurrei, apertando os lábios numa linha fina. — No momento em que decretou que minha mera existência é um crime.
Um nó se instalou em minha garganta, aprisionando minhas palavras. Meus olhos arderam um pouco. Tudo o que eu queria era chorar porque eu estava diante do cara que estava destruindo aos poucos nossa sociedade e ninguém fazia nada para mudar isso.
Eu só queria poder usar minhas roupas favoritas sem receber olhares de desprezo. Queria dançar toda a coreografia de Lady Gaga sem que me tacassem pedras. Queria andar livremente na rua sem o medo constante de saber que talvez eu não voltasse pra casa. Queria beijar um possível namorado sem ser condenado por isso.
Em outras palavras, eu queria ser eu sem modificar minha essência.
— Daniel... — Só ao ouvir Fábio me arrastando de volta para a realidade que me dei conta de que tinha começado a chorar.
O professor esticou a mão na minha direção, mas acabou desistindo no processo e deixando-a cair na mesa com a palma aberta.
Sequei meu rosto com violência, frustrado por ter borrado minha maquiagem. Com certeza minhas bochechas deviam estar com dois rastros medonhos de rímel.
Um vinco se formou na minha testa assim que vi uma coisa vermelha de cheiro metálico e enjoativo escorrendo pelo nariz de Fábio. De início achei que fosse uma meleca ou catarro. Eca! Mas pela cor, decretei que só podia ser sangue.
— S-S-Seu nariz. — Nunca fui do tipo que gaguejava, mas o pânico se apossou de mim de tal modo que quase não consegui formar a bendita frase.
— Olha pra mim... — Christopher o puxou pelo queixo, desviando a atenção dele de mim.
O presidente apanhou um guardanapo da pilha posta sobre a mesa e começou a limpar com um cuidado que pensei que ele nunca tivesse. Qual é! Ele era um brutamontes desgraçado. Até o sexo com ele devia ser violento.
Arregalei os olhos com meu último pensamento. Santa Madonna Lacradora, por que diabos pensei naquilo? Com certeza era o trauma por ter visto meu pai em momentos íntimos. Será que Christopher sabia do caso de seu amante com meu papi? Com certeza não. Coitado! A galhada dele devia estar pesada àquela altura. Talvez por isso ele fosse sempre tão ranzinza.
— Você tá bem? — O presidente acariciou o rosto dele com o polegar.
Um comichão se formou em meu estômago e com ela veio uma vontade súbita de morrer. Por que eu estava me sentindo assim, afinal? E daí que o professorzinho tivesse um caso com o presidente? Eu não tinha nada a ver com isso.
Não é porque meu pau ficou duro num sonho erótico que meu coração voltou a acreditar no amor. Por Gaga, só vi o sujeito uma vez na vida. Para eu me apaixonar assim tão rápido só se tivessem me rogado uma praga muito boa.
— Sim, sim obrigado.— Fábio assentiu com a cabeça e sorriu. Ele nunca tinha sorrido assim pra mim.
Para, Daniel! Você não é tão otário assim! Por que ele sorriria pra você? Deixa de ser idiota. Não ouse se apaixonar por ele, ok? Você desistiu do amor há muito tempo. Sua vida foi reconstruída a base de sexo casual. Amor não faz mais parte dos seus planos. Tudo o que você sempre quis foi ser feliz e as pessoas te machucam, podando sua felicidade pela raiz.
Sem falar que ele era seu professor, então as chances de isso dar errado eram estrondosas. Era antiético. Nenhum professor que se prezasse manteria um caso com um aluno. Era bem capaz de ele te ver apenas como um pirralho inconveniente.
— Vou ao banheiro e espero que quando eu voltar, esse projeto de garoto esteja bem longe da nossa mesa. — Christopher arrastou a cadeira, jogando o guardanapo sujo de sangue sobre a toalha impecavelmente branca e foi a passos duros até o banheiro.
— Projeto de garoto — resmunguei. — Vou enfiar meu salto na bunda murcha desse presidente pra ele ver o que é bom para a tosse.
— Daniel! — o jeito como ele me chamou fez até minha mente calar. Havia alguma coisa doce em seu tom de voz que quase me deixou em estado líquido. — Vou tentar ser rápido antes que Christopher volte e vocês dois saiam no tapa. — Ele riu e foi impossível não sorrir de volta.
Assenti, mordiscando com força meu lábio inferior devido ao nervosismo. Era minha forma de não apelar em roer as unhas e destruí-las.
— Começamos com o pé esquerdo. — O excesso de profissionalismo em suas palavras me incomodou demais. — Ensinar sempre foi uma das minhas maiores paixões, mas também foi a razão para eu ter me metido em tantos problemas. — Fiquei me perguntando quais problemas seriam esses, só que algo me dizia que Fábio não estava inclinado a dividir comigo. — Acho que te devo ao menos um motivo para eu não aceitar te dar aulas particulares. Não é nada pessoal, mas a forma como você olha pra mim me incomoda.
— A forma como eu olho pra você? — grunhi, chocado por ele pensar que aquele meu olhar de cadela no cio era exclusivo para ele. Se um carinha tinha uma bunda bonita, eu ficava de quatro pra ele na hora.
— Você não tem culpa, só não quero passar a impressão errada, tá bem? — ele logo reformulou, sem dúvida achando que eu estava negando meu olhar de tarado, sendo que era justamente o oposto. — Em sala de aula, não quero que me responda, nem que faça cantadas e nem diga coisas indecentes. — Ele basicamente criticou noventa e nove por cento da minha personalidade. — Sou a autoridade máxima lá dentro, não um coleguinha seu, entendeu?
— Sim, entendi. — Semicerrei os olhos, já tomando pra mim que eu não ia deixar de ser eu só pra facilitar a vidinha dele. Ele que lute. — Mas você foi um carrasco comigo. É meio hipócrita exigir respeito quando fez questão de me humilhar.
— Sei disso. — Ele abaixou a cabeça como se estivesse fazendo uma reverência pra mim. — E por isso, peço perdão. — Me senti parte da realeza naquele instante. — Você me perdoa? — Por Gaga! Como eu poderia dizer não para aqueles olhinhos tão hipnóticos?
Eu o olhei tão fixamente que ele não conseguiu sustentar meu olhar por muito tempo, então abaixou a cabeça, pigarreando em seguida.
— Sim, eu perdoo. — Chacoalhei as mãos, buscando sem sucesso as palavras certas para completar a minha sentença.
— Obrigado. — Vi um sorriso mínimo nos cantos de sua boca e isso aqueceu meu coração, reunindo os caquinhos com uma sutura frágil que poderia arrebentar a qualquer momento.
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Criem suas hipótese...
Até o próximo capítulo anjos...
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Atualizado até capítulo 44
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