CAPÍTULO 12

...Dani...

— Pode fechar aqui pra mim? — Minha mãe surgiu no meu quarto com um vestido florido bem meigo. Virou de costas para que eu subisse o zíper, o que acabei fazendo mesmo que ainda estivesse meio que dormindo.

— Aonde você vai? — Bocejei, calçando minhas botas rosa que era o que faltava para completar o look.

— Vou tomar café com o meu namorado — disse, se analisando no meu espelho. Foi na minha penteadeira e pegou um batom. Confesso que o contraste dos lábios corados com o vestido chamativo e simples serviu como uma luva. — Estou um pouco nervosa. — Ela me encarou, estranhando que eu já estivesse vestido tão cedo em pleno dia ímpar. — E você, mocinho? Para onde vai uma hora dessas? Você só acorda tarde, dorme mais do que a cama.

— Vou me encontrar com o professor. — Puxei a jaqueta rosa choque e a vesti mecanicamente. Caprichei um pouco mais na maquiagem, devo admitir. — Ele vai me ensinar a tocar violão.

— E precisa se produzir todo pra ver o professor? — Dava para notar que ela percebeu que havia algo mais que eu não era capaz de esconder.

— Ok. — Suspirei ao passar o brilho labial. — Ele é gato, então não tem problema eu me arrumar um pouco mais para chamar a atenção dele, né?

— Daniel — o tom de advertência fez meus ombros se encolherem por medo da bronca que eu podia levar. — Por favor, não me dê dor de cabeça tendo um caso com o professor.

— Não sou esse tipo de pessoa — garanti, me fingindo de inocente. — É só uma aula. Me arrumo assim o tempo todo. — Borrifei o perfume que deixava todos os meus ficantes enlouquecidos. — Homens gatos são consequências, nunca o objetivo principal.

— E as garotas? — Ela cruzou os braços, desafiando-me a continuar.

— As garotas são mais difíceis de agradar — murmurei, colocando minha echarpe rosa e lhe dando uma piscadela.

O celular da minha mãe tocou e ela correu para atender. Senti o nervosismo emanando dela. Parecia que eu estava assistindo uma adolescente recebendo um convite do crush para namorar no parquinho da esquina. Todos ficavam patéticos quando se apaixonavam, isso era óbvio.

Aos poucos, a expressão extasiada da mami foi murchando. A felicidade evaporando num passe de mágica. Eu não sabia quem era o infeliz, mas já o odiava com todas as forças por ter deixado minha mãe triste.

— O que houve? — me apressei em perguntar assim que ela desligou o aparelho.

— Ele desmarcou. — Pela forma como seus olhos ficaram maiores, tive a impressão de que ela choraria. Isso era bizarro porque minha mãe não era do tipo que chorava por homem. Ela devia estar mesmo muito apaixonada para ter uma reação daquelas. — Disse que teve um problema no trabalho.

— Não fica triste, amada. — Contornei sua cintura, puxando-a para um abraço. — Com certeza ele vai te recompensar.

Seu sorriso radiante me encheu de felicidade e não pude deixar de me sentir aquecido por dentro.

— Quero muito que você o conheça, filhinho — disse, fazendo cafuné nos meus cabelos. — Ele é o homem mais incrível que já conheci.

— Não duvido — respondi, sabendo que eu só poderia dar um diagnóstico concreto quando estivesse cara a cara com o sujeitinho.

***

As famosas borboletas no estômago surgiram num passe de mágica assim que avistei Fábio no ponto em que combinamos. Era em frente a um banquinho da praça. Do outro lado da rua, havia uma lanchonete que por algum milagre estava aberta em pleno dia ímpar.

Fábio andava de um lado para o outro com impaciência, checando o relógio a cada segundo que se arrastava. Fui cauteloso ao me aproximar, analisando a roupa nada moderna e a correia do violão cruzando sua barriga.

— Você demorou muito, eu tava quase... — ele se interrompeu assim que me viu de cima a baixo. Sua boca abriu e fechou, saindo nada além de ar. Para obter uma reação daquelas, ou eu estava muito exagerado ou gato pra cacete. — Wow. V-V-Você tá muito... — interrompeu-se mais uma vez, coçando a cabeça e fitando o chão como se todas as respostas do universo estivessem naquele concreto esburacado.

— Tosco? Exagerado? — fui sugerindo todas as opções existentes de forma mecânica. — Pode falar, já estou acostumado com esses comentários.

— Não. — Suas sobrancelhas se uniram e ele se atreveu a olhar pra mim de forma mais intensa do que deveria. — Bonito. — Parecia muito sem jeito ao admitir. — V-V-Você tá muito bonito.

— Bem, valeu. — Corei, incapaz de esconder o sorriso que dominou minha face.

— Já tomou café? — quis saber, ainda me encarando.

Apenas meneei a cabeça em negativa.

— Certo. — Era engraçado ver o quão desconfortável ele estava. — Vamos tomar café então.

— Juntos? — Depois do sermãozinho dele, achei que nunca entraria numa lanchonete comigo.

— É — disse sem se abalar e foi andando até a lanchonete do outro lado da rua. Entendi de imediato a deixa para que eu o seguisse.

Ele puxou uma cadeira para mim, um gesto cavalheiro demais da sua parte. Isso me deixou um pouco incrédulo, já que ninguém puxava a cadeira pra mim.

— Não precisa me tratar cheio de dedos — resmunguei assim que ele se acomodou do meu lado, apoiando o violão ao lado da mesa. — Posso puxar a cadeira pra sentar. — Só então me dei conta de que soei muito grosseiro, então logo acrescentei. — Foi mal, é que não estou acostumado com isso. Os caras com quem saio não fazem esse tipo de coisa.

— É força do hábito — disse, se atentando mais ao cardápio do que a mim. — Gosto de ser gentil com todo mundo independente do sexo. Seja homem ou mulher, trato do mesmo jeito.

— Isso é raridade. A maioria dos caras me tratam feito lixo — discursei, tendo a impressão de que estava falando demais.

Fábio abaixou o cardápio para me dar mais atenção e eu não sabia se ficava grato ou entrava em pânico.

— Então está saindo com os caras errados — murmurou e emendou o comentário em outro, não deixando brecha para uma possível pergunta. — O que vai querer comer? — Arrastou o cardápio na minha direção. Minha real vontade era dizer ''você'', mas eu sabia que meu comentário não seria bem recebido. — Acho que vou pedir dois sanduíches. Estou morrendo de fome.

— Vou querer o mesmo — falei, só porque estava sem criatividade e saco para ficar lendo aquele cardápio sendo que tinha uma coisa muito mais interessante para encarar.

— Aguenta dois sanduíches? — questionou, sem dúvida me julgando pelo meu peso quase inexistente e minha aparência de graveto raquítico.

— Você não faz ideia do que aguento, profe escândalo. — Dei uma piscadela e sorri quando ele abaixou a cabeça, meio embaraçado com minha audácia.

— Por que tudo o que você diz parece que tem um duplo sentido gritante?

— É porque tem mesmo. — Fiz um gesto para chamar algum garçom. — Duplos sentidos são minha religião.

— Ser tarado é sua religião — rebateu, fazendo o pedido para uma garçonete bonita que parou na nossa mesa. Abri meu melhor sorriso para ela, que ficou vermelha na mesma hora.

Fábio pigarreou alto, quebrando meu fluxo de encantamento hipnótico.

— Para de dar em cima da garçonete — disse assim que ela saiu toda envergonhada.

— Ciúmes, professorzinho? — Pisquei de modo sedutor.

— Até parece que eu sentiria ciúmes de um pirralho feito você. — Revirou os olhos e apoiou os cotovelos na mesa. — Deve ter idade pra ser meu filho.

— Tenho vinte aninhos, mas idade não é documento.

— Na verdade, é sim. — disse com um ar de deboche. — Tem sua idade em todos os documentos, não?

— Não seja estraga prazeres. — Cruzei as pernas. — Quantos anos você tem senhor ''Sou um homem maduro e você um pirralho de quinta categoria que nem saiu das fraldas''?

— Lembre-se de que é você que está dizendo isso. — Umedeceu os lábios. — Tenho trinta.

— É sério? — Arregalei os olhos porque nada no mundo me levaria crer que aquele homem com carinha de garoto era dez anos mais velho do que eu.

Assentiu com a cabeça no exato momento em que nossa comida chegou. O cheirinho do sanduíche me distraiu assim como o café na temperatura perfeita e na quantidade de pó adequada. Tive vontade de embalar pra viagem e pedir que minha mãe provasse com o intuito de enfim entender como deveria ser o gosto de um café descente.

Seu celular vibrou na mesa e ele engoliu o sanduíche antes de atender.

— Oi, amor. — Uma dor aguda se instalou em meu peito assim que ouvi o excesso de mel exalando em sua voz. — Não, eu disse que tinha um compromisso. Amanhã a gente sai. Estou mesmo muito ocupado hoje. — Pausou para um suspiro longo e pesado. — Estou trabalhando, te ligo mais tarde.

Fábio jogou o celular na mesa e bufou, tomando o rosto entre as mãos.

— Você tem namorada? — arrisquei perguntar mesmo que a resposta já estivesse escancarada na minha fuça.

— Tenho, é meio recente. — Voltou a comer como se não me devesse mais explicações e de fato não devia.

Não sei bem por que fiquei surpreso por ele estar em um relacionamento. Quer dizer, o cara era bonito. Não era lá muito gentil, mas desde quando isso era pré-requisito para alguma coisa? Ainda mais pra mim, que parecia um gari de tanto carregar lixo por aí.

— Gosta dela? — Por que diabos eu estava insistindo nesse assunto? Não era da minha conta o que ele sentia por ela.

— Muito. — Não se alongou em descrever a complexidade desse ''muito'' água com açúcar que jogou pra cima de mim. Mesmo assim, essa simples palavrinha me deixou mal.

Tudo bem que eu não tinha muitas chances com ele antes, mas agora que descobri que ele era hétero, cagou de vez qualquer esperança que eu poderia ter.

— Não vai comer? — quis saber, apontando para meu lanche ainda intocado.

Comi mesmo que a fome tenha desaparecido, embrulhando meu estômago agitado. Engoli sem mastigar direito e beberiquei o café, que àquela altura do campeonato já tinha esfriado.

— Alessandro — escutei um ruivo muito bonito dizer ao estacionar na nossa mesa sem o mínimo de educação.

Fábio largou o sanduíche na mesma hora e nem se incomodou com a maionese sujando seu queixo. Demorou-se no ruivo como se estivesse se deparando com o próprio fantasma da ópera.

— Pedro. — Engoliu em seco antes de pronunciar o nome dele.

Pedro parecia um pouco mais velho do que eu. A beleza estonteante me deixou sem fôlego. Era o tipo de cara que pararia o trânsito só pela aparência. Se eu estivesse dirigindo e uma beldade dessas passasse por mim, com certeza eu iria bater num poste aleatório.

O rosto era salpicado por algumas sardas. Os músculos sobressaíam da camiseta apertada. Ele sem dúvida seria um daqueles abençoados que usavam regata e iam para a academia apenas para tirar foto em frente ao espelho usando flash e postar nas redes sociais para ganhar curtida.

Sim, eu estava sendo meio preconceituoso simplesmente porque Fábio estava olhando tão fixamente pra aquele sujeitinho, que estava me incomodando muito. A falta de diálogo também era um fator gritante que tornava toda aquela situação no mínimo desconfortável.

Limpei a garganta na esperança de quebrar aquele conflito silencioso entre eles. O que consegui com isso foi ver Fábio piscando com os olhos marejados. Antes que a primeira lágrima caísse, ele puxou uma nota do bolso jogando-a na mesa, arrastou a cadeira fazendo um escândalo absurdo e se retirou, deixando-me sozinho com o poste ruivo sem nenhuma explicação.

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Comments

Vilma Lima

Vilma Lima

o que será que aconteceu entre Fábio e o Pedro

2022-12-08

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