PRÓLOGO

— De quatro é muito mais gostoso — murmurei, como quem não quer nada com um sorriso malicioso nos lábios.

Dimitri, que estava prensado na parede, virou o pescoço de leve para me fitar. Os cabelos negros grudavam na testa por conta da chuveirada que tomou antes de me puxar para dentro do cubículo onde os atletas tomavam banho.

— Não vou ficar de quatro para você, Daniel — disse sem parecer ofendido com a minha proposta tentadora demais aos meus olhos.

Os olhos escuros e levemente puxados me sondaram por alguns segundos antes dele encostar de novo a testa na divisória. Sacudi a cabeça e reprimi uma risada, achando hilária a forma como esses atletas adoravam dar a bunda, mas se recusavam a ficar de quatro para qualquer cara. Até parece que isso deixava esses idiotas mais héteros.

Agarrei-o pela cintura e fui subindo, apreciando seus músculos da barriga enquanto descansava meu queixo em seu ombro antes de penetrá-lo. A barriga de Dimitri se contraiu e ele soltou um palavrão ao gemer.

— Mais forte! — ele pareceu implorar e eu como o bom samaritano que sempre fui, obedeci.

Soube que ele iria gozar no momento em que ele começou a tremer em meus braços. Dimitri gostava de segurar minha mão sempre que chegava ao ápice. Apertava minha pobre mão com tanta força que me admirava eu ainda ter ossos.

Uma vez, ele fez o favor de quebrar uma das minhas unhas. Fiquei uma semana inteira sem falar com ele. Só o perdoei quando teve o bom senso de marcar uma manicure para mim e consertar o estrago. Ele prometeu ser mais cuidadoso da próxima vez, mas a julgar pela forma como esmagava minha mão, foi uma promessa inválida.

Saí de dentro dele de forma mecânica. Sexo se tornou mais banal na minha vida do que dever de casa. Não havia mais aquele momento único e especial. Eu dava prazer aos caras para não ter que suportar bullying nenhum da parte deles, até porque eu era super o tipo de cara que sofreria na faculdade nas mãos de valentões musculosos como Dimitri.

— Foi bom para você, capitão? — Afastei-me dele e me apoiei na outra divisória.

Ele não olhou diretamente para mim ao assentir. Seu rosto estava vermelho de tanta vergonha. É, eu causava esse efeito nas pessoas. Era o benefício de já ter nascido incrível.

A porta principal do vestiário se abriu. Dimitri fez um sinal indicando para que eu ficasse quieto.

— Dimitri? — era o técnico do time de futebol. Aquela voz rouca era inconfundível.

— Sim. — Dimitri engoliu em seco ao responder. — Estou no banho. — Achei patética essa desculpinha, até porque o idiota nem sequer ligou o chuveiro para disfarçar.

— Se apresse então. Vamos ter uma reunião com o time para discutir as estratégias do próximo jogo e precisamos do capitão, não é? — A forma como esse cara falava me dava muito sono. Pelo amor de Britney, que cidadão insuportável. — Os outros já estão lá. Por que diabos seus banhos são tão demorados? Fica batendo punheta aí dentro?

Mordi com força minha boca para não explodir numa gargalhada. Dimitri ficou ainda mais vermelho. Parecia um tomate prestes a explodir.

— Já estou saindo — disse de um jeito bem sem graça. Eu teria feito um escândalo se aquele idiota estivesse falando comigo, mas como Dimitri abaixava a cabeça para o babaca, esse tipo de resposta era totalmente previsível.

Esperamos que a porta se fechasse atrás do técnico. Dimitri espiou para se certificar que a barra estava limpa e me pressionou na parede, um pouco mais relaxado do que antes. Voltou toda a sua atenção para mim e depositou vários beijos em meu pescoço. Podia sentir sua ereção na minha coxa.

Credo! Ele tinha acabado de gozar e já estava duro de novo. Esse garoto não ficava satisfeito nunca?

— Você não tem reunião? — falei quando tudo me levou a crer que teríamos uma segunda rodada. Minha vontade de comer ele de novo era menor do que zero.

— Está me dispensando? — Ele parecia impressionado pela minha audácia.

— Você já gozou, não? — Encarei-o com o olhar crítico demais até mesmo para mim. Parecia que eu estava diante de uma coleção de roupas de péssimo gosto.

— Sempre gozo com você — murmurou de um jeito que poderia ser fofo se eu tivesse algum pingo de paciência para fofura naquele momento. Eu estava cansado. Era o terceiro cara que eu comia naquele dia. Se eu tivesse que colocar mais uma camisinha de hortelã com certeza meu pau iria cair.

— Todos gozam comigo — declarei o óbvio e deu para notar que isso o incomodou. Não era novidade para ninguém o meu estilo de vida, mas ainda assim, os caras insistiam em me tratar como se eu fosse algo exclusivo deles.

— Seu ego é impressionante — foi só o que disse parecendo abalado por alguma razão. Em ocasiões normais, eu pediria desculpas por citar outros em nosso momento de intimidade. Agora, eu só rezava para rainha Gaga me dar forças o suficiente para sair daquele vestiário com um pau que subiria de novo em futuras transas. — Depois da reunião, posso te pagar um sprite? É a sua bebida favorita, certo? — O jeito como falou aquilo me deu a impressão de que tinha ensaiado muito no espelho antes de soltar aquela pérola.

— Sim, é minha favorita — respondi com um suspiro pesado e grosseiro. — Como sabe disso?

— Seu fã clube te entope de sprite. — Não gostei da forma como ele falou do meu fã clube, que nem era um fã clube de verdade, apenas um aglomerado de pessoas sensatas que escolheram me idolatrar. — Me admira você não ter diabetes.

— Eu me cuido. — Dei uns tapinhas no ombro dele e o empurrei de leve, deixando bem claro que queria dar o fora dali. — Pensei que teria vergonha de sair com alguém como eu.

Puxei a toalha que estava pendurada de qualquer jeito da divisória e sequei meu corpo. Dimitri não tirava os olhos de mim enquanto eu fazia isso, então me demorei um pouco mais só para torturá-lo um tiquinho. Na arte de ser cruel, eu não tinha culpa de já nascer graduado.

— Não sou louco de te levar num restaurante — disse, tão hipnotizado pelo meu corpo que nem parecia medir as palavras, que simplesmente jorravam sem qualquer pausa. — A gente ia para um beco beber refrigerante e comer alguma coisa. Tem um banco do lado das caçambas de lixo. Se você usasse roupas menos chamativas, talvez não fosse tão estranho sairmos juntos.

— Entre você e o meu guarda roupa, pode apostar que sempre vou escolher meu vestido de alças finas, obrigado. — Revirei os olhos e peguei meu vestido dourado. Acabei vestindo com um pouco mais de pressa do que o esperado. Passei minha echarpe de um rosa berrante ao redor do meu pescoço fino e tentei pentear com os dedos minha franja loira que precisava de um corte urgente.

Calcei minhas inseparáveis botas cor de rosa com um salto tão fino que tive que me aperfeiçoar muito para não cair de cara no chão a cada passo. Agora, desfilar por aí de salto era tão natural quanto respirar.

— Você é tão lindo — disse de um jeito doce, esticando a mão para tocar minha bochecha. Se ele queria que eu me derretesse, não rolou. Até parece que nunca ouvi esse elogio antes. — Se não fosse tão viadinho, podia andar com o time. Sério que você prefere ser o centro das atenções desse jeito? Ser conhecido como gay afeminado do campus?

— Eu não sou gay. — Inflei as narinas ao cruzar os braços. Tinha que ter muita paciência para lidar com aqueles atletas. Se eles não tivessem bunda lindas, já tinha mandado todos para o inferno ao som de ''Born this way''. Mas eu tinha que ser uma lady se quisesse comer ele de novo no dia seguinte. — Pego mais garotas do que todos vocês juntos.

— Eu sei. Não gosto de garotas. — Umedeceu os lábios, prevendo o quão louco eu ficaria com isso. — Mas você é tão viado que esse seu papinho de pan sei lá o que não cola.

— Pansexual — verbalizei pela milésima vez o termo, prevendo a discussão sem futuro que teríamos. — Não me importa se acredita em mim ou não. Se eu fosse gay, não teria problemas em falar, até porque como você mesmo disse: sou muito viadinho.

— Você não tem a masculinidade que as garotas gostam. Se alguma ficar com você, será como ficar com outra mulher.

Atletas tinham o dom de me tirar do sério. Acho que eles ensinavam essas coisas nos treinos porque não era possível todos serem babacas de graça.

— Pode até ser. — Dei um passo na direção dele, que não recuou. Dimitri nunca recuava, ainda que minha expressão não estivesse nada receptiva. — Mas não se esqueça de que é esse viadinho que come esse seu bumbunzinho e te faz gozar.

Incapaz de perder mais tempo com aquele resto de aborto ambulante, saí daquele maldito cubículo sabendo que ele estava bem atrás de mim com um pedido de desculpas pronto para sair porque era assim que ele funcionava.

O ciclo vicioso dos atletas daquela faculdade: eu os fodia, eles me ofendiam de alguma forma, eu rebatia porque nunca fui do tipo que levava desaforo para a casa e eles pediam desculpas porque enfim caíam a real e viam que não iriam conseguir me manipular da forma que faziam com as pobres namoradas de fachada que mantinham.

— Foi mal — disse, coçando a cabeça com desconforto.

Joguei a cueca pra ele, que vestiu sem cerimônia.

— Não queria ofender você — prosseguiu, quando não respondi ao seu pedido de desculpas fajuto.

— Você sempre me ofende, mas dificilmente me atinge de verdade. As coisas que você diz não são diferentes das que escuto todos os dias.

— Todos da faculdade te adoram — murmurou como se fosse um tipo de consolo.

— Nem todos, mas consigo me dar melhor no campus do que nas ruas. As chances de eu morrer a pauladas enquanto compro um mísero pão são bem grandes para alguém que escolhe se vestir de jeito ''desnecessário'' feito eu. — Fiz aspas com os dedos para ilustrar minha frustração. — Mas prefiro morrer sendo quem sou do que viver com medo, aprisionando quem eu poderia ter sido.

— Isso foi uma indireta para mim? — Incrível como o que esse cara tinha de gostoso, ele também tinha de tapado. — Quer que eu saia do armário por você ou algo assim?

— Pelo amor de Lady Gaga! — Dei um tapa na minha testa. — Não! Sei que você tem uma reputação de macho alfa a zelar, ok? Te acho gato, mas não faço a menor que estão de querer mais do que sua bunda.

Dimitri arregalou os olhos enquanto vestia o uniforme. A forma como as coxas dele ficavam naquele shortinho me fez lembrar a razão pela qual eu ainda aguentava a tagarelice machista dele. Alguns homens deveriam nem nascer com o dom da fala.

— Você é bem direto. — Sua risadinha sem graça deixou claro seu desconforto.

Geralmente eu deixava esses caras desconfortáveis quando os colocava em seus devidos lugares. Só de ele não ter se apaixonado por mim, já era um baita de um bônus. Era difícil para alguns deles separar uma foda de amor. Eu não me importava em me aventurar no sexo, agora amor era diferente.

A dor que eu sentia cada vez que entregava meu coração para alguém me fez aprender a lição antes que só sobrassem cacos dentro de mim. Invés de ser usado por esses brutamontes, eu os usava sem querer manter nenhum tipo de laço emocional. Era pura defesa. Pratico isso há tanto tempo que já virou um ato meramente reflexivo.

Claro que tinham alguns que não se mancavam e me davam flores, bombons, me tratavam como se eu fosse uma garota que ligava para isso. O que diabos eu ia fazer com um bando de flores? Pelo menos os bombons, eu podia comer e me entupir de açúcar. Se eles queriam ser otários, era problema deles. Eu que não ia devolver comida só porque não estava interessado nesses babacas.

Eu não era inconveniente com todo mundo, claro que não. O problema era que os caras que me davam bola eram lindos por fora, mas podres por dentro. Abusivos, possessivos, do tipo que me tratavam feito merda. Se fosse para viver desse jeito, era melhor ficar sozinho mesmo. Antes um coração solitário do que uma alma aprisionada, não é?

Com as garotas, não era muito diferente. A maioria insistia que eu só as namorava por fachada, o que não era verdade. Tentar provar o tempo todo que eu gostava delas foi se tornando mais exaustivo do que manter um cara do meu lado. Aprendi na marra que eu era exótico demais para ter um relacionamento de verdade.

— Ser direto é o meu forte — respondi tarde demais e retribui o sorriso para amenizar aquele clima bosta que se seguiu. Não adiantou muito, mas pelo menos tentei. Era difícil ser educado com quem tinha esquecido a sua educação em casa. — Amanhã a gente se vê, Dimitri.

Parti apressadamente em direção à porta, louco para sair dali o quanto antes, só que a voz dele me fez parar antes de alcançar a bendita maçaneta.

— Sinto inveja — disse, me fazendo virar mesmo que por dentro eu não quisesse. — Você não se rende à pressão de ninguém. Um dia você me perguntou o que eu vi em você, já que te critico tanto. Essa é a resposta para a sua pergunta. Você é tudo o que eu queria ser e tudo o que eu queria ter ao mesmo tempo. Isso soa estranho, não é?

— Na verdade não — me esforcei para ficar neutro porque ele foi sincero comigo e eu não podia fazer piada. Afinal, eu tinha que admitir que era difícil a pressão de ser o fodão o tempo todo. Devia ser horrível se olhar no espelho e odiar quem se tornou. Devia ser deplorável viver uma vida que não é sua, ser alguém que não é. Era minha obrigação demonstrar compaixão por ele. — É difícil sair do closet, ainda mais na Rússia, onde enxergam como doença.

— Meu pai me mataria. É bem capaz de me deserdarem. O técnico me tiraria do time e eu provavelmente perderia a bolsa de estudos. Eu não seria ninguém.

— Você seria você — respondi porque era assim que eu via a situação, mas me vi na obrigação de reformular porque querendo ou não, eu não era ele. — Mas tem que medir o que é mais importante: agradar os outros e fazer todos amarem alguém que você mesmo inventou ou ser quem gostaria de ser sem se importar com opiniões alheias, mas sabendo que quem te amar, amará a pessoa que é e não o personagem que construiu.

— É tentadora a segunda opção, mas eu não ia aguentar as consequências dela. Tenho o respeito de todos e quero manter assim. — Deu de ombros em sinal de derrota. — Foi mal.

— Não se desculpe. — Esbocei um sorriso de leve.

Girei a maçaneta e empurrei a porta, agradecendo à Gaga e todas as divas pop existentes por finalmente ter um pouco de ar puro e me livrar daquele cheiro de sabonete barato.

— O closet é seguro, confortável. — Dei uma última olhada nele, cuja expressão parecia desolada. — É mais fácil estar nele do que encarar o que tem por trás das portas duplas.

E com isso saí, porque se tinha uma coisa que eu prezava mais do que tudo, era ter sempre a última palavra.

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Oiii meus amores e então o que acharam do prólogo? Sobre a história eu esqueci de um pequeno detalhe os nomes não serão russos pelo menos não os personagens principais, já que vão aparecer com mais frequência fica melhor para ler nomes conhecidos.

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Liliih ~

Liliih ~

Sou sua fã Dani

2022-11-16

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