Depois de me inscrever no grupo de música, decidi que iria ver as meninas de biquíni nas aulas de natação. Eu sei, era fútil. Só que nada me deixava mais entretido do que ver garotas de roupas de banho.
Como aquele vestido dourado estava pinicando um pouco, coloquei uma calça preta sem graça, mas ainda assim da estação correspondente a qual estávamos, é claro. Ninguém jamais veria o grandioso Daniel Pavlova usando qualquer roupa que não estivesse na moda.
Roupas masculinas nunca me chamavam muita atenção, mas eu era obrigado a usar em algumas ocasiões. Quando eu visitava meu papi, por exemplo. Bruno Pavlova enlouqueceria se visse seu filhinho com um vestido.
Como eu teria que dar um pulinho na casa dele, decidi me preparar e colocar as roupas nada chamativas que eu tinha. A camisa branca não agregava muita coisa, mas a jaqueta caramelo de gola alta dava um contraste surreal. Eu não era nem louco de me desfazer de minhas inseparáveis botas cor de rosa. Porém, meu pai já se acostumou com elas, então deixou de fazer sermões sem fundamento, embora ainda me olhasse torto.
Os óculos de sol no topo da minha cabeça impediam minha franja de cair em meus olhos azuis. Estava sol? Não, mas o que importava de verdade era o estilo e não a necessidade em si. Eu tinha que estar sempre preparado para qualquer flash que poderia vir. Imagina a gafe se eu saísse mal vestido numa foto. Minha reputação iria para o ralo.
Era exaustivo viver num país preconceituoso ao extremo e bater na tecla de ser você mesmo, ainda mais com o governo patético de Christopher Alvarez Leal. O presidente era muito gostoso, mas era um grande babaca. Os discursos homofóbicos me davam sono, assim como a cura gay disfarçada de terapia de reversão sexual que ele criou em sigilo achando que assim curaria sua vontade desenfreada de dar ré no kibe.
Chechênia era um ótimo lugar para se morar caso você fosse uma pessoa desprovida de cérebro e bom senso. A única coisa que salvava, era o fato de que tínhamos os dias ímpares livres, ou seja, podíamos ficar de bobeira sem aulas da faculdade e nem a pressão que vinha com elas.
Nosso país era dividido em três ilhas chamadas Ilha angely, Ilha de Iturup e Ilha Russky.
Morei minha vida inteira na Ilha angely, que era caracterizada por ter o formato de uma auréola e no centro dela ficava o famoso Lago Angely, que diziam ser abençoado porque um anjo supostamente caiu nele. Eram histórias da carochinha obviamente ou de alguém que fumou um baseado muito bom para pensar numa coisa sem pé e nem cabeça como aquela.
Era irônico que a ilha mais preconceituosa fosse a Angely. Ouvi dizer que a Ilha de Iturup era mais tranquila, onde a natureza reinava. Eu tinha vontade de pegar meu repelente só de imaginar quantos mosquitos e marimbondos deviam ter naquele lugar. Já a Ilha Russky era tecnológica, repleta de carros voadores e prédios blindados fenomenais. Já fui lá? Claro que não. Talvez por isso eu seja uma pessoa um pouco amargurada.
Ajeitei-me na arquibancada, focando nos mergulhos das garotas. Era meio patético, mas eu ficava babando a aula inteira. O lado bom de não ter tantas atividades extracurriculares era que eu podia fazer o que eu quisesse, incluindo ver as aulas dos outros.
— Finalmente te achei — disse Dimitri, sentando do meu lado para meu desespero. — Aqui é o último lugar que eu esperaria te encontrar.
— Posso saber por quê? — perguntei sem desgrudar os olhos das garotas, que eram meu foco principal naquele momento. — Garotas e biquíni na mesma frase é praticamente um convite.
— Tem como você olhar para mim? — percebi uma certa alteração na voz dele. Mesmo irritado por ter meu momento de distração interrompido, obedeci.
— O que foi? — Deixei claro minha insatisfação torcendo para ele cair na real e dar no pé.
— Trouxe para você. — Abriu uma lata de sprite e me entregou. — Gostei da sua roupa. Foi a mais normal que já te vi usando.
— A mais normal — repeti, intrigado. — Você calado é um poeta, sabia?
— Qual é, não seja grosso comigo — disse, parecendo ofendido. — Tá de TPM?
— Uma ova! — grunhi, dando um gole na bebida para não ter que mandá-lo tomar naquele lugar. — O que você quer, afinal? Suas configurações de stalker foram atualizadas com sucesso hoje. Tá me perseguindo por quê? Meu pau é tão impressionante assim?
— Não é nada disso. — O desconforto era nítido em sua postura. — Eu só... — interrompeu-se ao acariciar meu braço com a ponta de seus dedos. Em público, era o máximo que ele faria e eu sabia disso. — Queria ficar perto de você.
— E a sua reunião? Não tem mais treino hoje?
— Quer tanto se livrar de mim? — Arregalou os olhos, que logo ficaram tristes. Me senti meio mal por isso. — Pode ver meu último treino de hoje, o que acha?
A última coisa que eu queria era assistir a um jogo de futebol. Dimitri pareceu desesperado para prosseguir quando não respondi.
— Olha, sei que a gente combinou que só seria sexo, mas...
— Não quero mudar isso. — Bebi mais um gole e arrotei na cara dura, querendo que minha imagem ficasse mais suja para ele. — Pode me trazer quantos sprites quiser que não vamos passar de parceiros de foda. Não daríamos certo.
— Prefere nem tentar? — o jeito como implorava quase me fez ceder, só que o bom senso falou mais alto.
— Vai mesmo andar de mãos dadas comigo na frente dos seus amiguinhos? Vai contar para os seus pais que sou seu namorado? Vai ser carinhoso comigo com e sem plateia? Se não estiver disposto a fazer tudo isso, então não, prefiro nem tentar. — Apoiei meus cotovelos nos joelhos. — Não nasci para ser segredo de ninguém.
— Se a gente for devagar, talvez...
— Não me venha com esse papinho. — Sacudi a cabeça, segurando os óculos para que ele não caísse com o ato. — Se quiser ficar comigo, vai ter que me assumir. É muito simples.
— Mas você parece esquecer o lugar em que a gente vive. Nós dois temos reputações diferentes. Você pode fazer o que quiser, já eu tenho uma bolsa de estudos para manter. O reitor da faculdade não é meu padrinho.
— Meu padrinho não te expulsaria se eu pedisse. — Esbocei um sorriso. — Ele me deixa fazer tudo o que quero, inclusive andar por aí de vestido. Só que não entrei aqui por causa dele, tive que estudar como todo mundo.
— Não estou tentando tirar seu mérito. — Seu suspiro me cansou também. — Eu só queria uma chance com você. A gente pode assumir depois que nós dois estivermos formados.
— Nossa! A gente vai durar tanto assim?
— Na verdade, quero que a gente dure bem mais do que isso.
— Não me iludo tão fácil, Dimitri — murmurei e quase gritei ao perceber que a natação tinha acabado. Ao menos, consegui ver as garotas saindo da água. Estavam gloriosas como sempre.
Por um momento, acabei esquecendo que Dimitri estava ali. Então, tomei um susto ao vê-lo me cutucando de um jeito furioso.
— Ok, já entendi que curte garotas também. Agora pode por favor me dar atenção?
— Calma aí. — Dei um tapinha na mão dele e fiquei rígido quando vi Selena vindo na minha direção e subindo as arquibancadas como um anjo. — O-O-Oi. — Senti meu rosto ficar vermelho quando ela parou na nossa frente.
— Posso ver seu treino hoje, Dimitri? — A voz manhosa dela me deixou derretido mesmo que não tenha sido dirigida a mim. Seus cachos negros eram indomáveis e volumosos. A pele escura brilhava para mim, assim como a imensidão quase hipnótica de seus olhos.
Soltei um suspiro e fiquei tão tonto que achei que fosse desmaiar.
— Não vou ter treino hoje — disse Dimitri sem nem sequer olhar para ela. Quase gritei com ele por ter mentido para uma deusa daquelas. — Fica para uma próxima.
— Vai para a festa da fogueira? — quis saber ela do jeito meigo de sempre.
— Você vai? — Ele encostou os lábios na minha orelha e engoli em seco. — Lipe?
— V-V-Vou — fiquei sem jeito ao responder. Eu queria matar o Dimitri por dar em cima de mim na frente dela. Se eu não tinha nenhuma chance antes, agora eu tinha menos que zero.
— Então também vou. — Sorriu e pensei que fosse para ela, só que a atenção dele estava toda concentrada em mim.
— Te vejo lá então. — Selena deu uma piscadela e se retirou. Fiquei um bom tempo vendo aquele traseiro maravilhoso rebolando enquanto ela andava. Acabei sorrindo também. Minha vontade de ir para aquela festa da fogueira aumentou a níveis estrondosos.
— Ei! — Dimitri me deu um tapa na cabeça e despertei de meu transe momentâneo. — Para de olhar para ela!
— Não me diga que está com ciúmes. — Desviei o olhar apenas quando ela saiu completamente do meu campo de visão.
— É, eu estou.
— Quando vejo gente bonita, eu olho. Sou solteiro, faço o que quero da minha vida.
— Sei disso. — Seu braço passou pelos meus ombros e ele me puxou para si. — E isso me deixa ainda mais frustrado.
— Como assim?
— Eu sei que você fica com os outros jogadores.
— Não era segredo, então pare de tentar agir como um namorado ciumento.
— Eu queria que você fosse só meu — a forma como falou aquilo me fez acreditar que era um peso saindo de suas costas.
— Ah, então esse era o ponto! — Encarei-o semicerrando os olhos. — Quer exclusividade? Sinto muito, meu bem.
— O que você quer que eu faça? Faço o que for preciso para ter você.
— Você já me tem — bufei. Aquela conversa estava cansando minha beleza suprema. — Todos os dias no vestiário.
— Tenho seu corpo — disse em tom de derrota. — Não quero só isso.
— Nem tenho mais coração para te dar. — Fiz questão de me perder em seus olhos porque queria que ele absorvesse minhas palavras para nunca mais as esquecer. — Sou vazio por dentro. Se quer se relacionar com alguém, procure alguém que tenha um coração. O meu foi partido tantas vezes que a partezinha que restou não basta para ninguém.
— Basta para mim. — Pegou minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus. — Promete que vai pelo menos pensar a respeito? — Segurou meu rosto e começou a acariciar minha bochecha. Fiquei vermelho na mesma hora.
— Tá bem. — Baixei o olhar porque meu rosto estava bem quente. Santa Madonna lacradora, esse menino sabia flertar como ninguém. — V-V-Vou pensar.
Não antecipei que ele iria chegar tão perto e muito menos que enterraria o rosto em meu pescoço, os dedos puxando minha jaqueta.
— Sonho com seu cheiro todas as noites — disse, pressionando o nariz em meu pescoço. — É perfume de mulher?
— Os de homem me deixam enjoado — respondi, ofegando assim que seus lábios subiram até alcançar os meus.
Ele se afastou tão rápido que mal consegui usar a língua direito. Pelo visto, ele caiu na real e viu que estávamos em público e decidiu manter uma certa distância. Aquela atitude foi uma resposta indireta ao pedido dele. Se fosse para ficar cheio de dedos comigo, me tratando como um segredo, então era melhor permanecermos apenas no sexo.
— Foi mal. — Lambeu os beiços como se quisesse sentir meu gosto. — Não devia te beijar aqui.
— Muito pelo contrário — rebati, segurando-o para que não fosse embora. — Se me quiser de verdade, tem que me beijar e muito. — Agarrei-o pela nuca. — Em todos os lugares. — Puxei-o um pouco para perto e ele não recuou. — Sem hesitação. — Gemi quando ele finalmente me tocou sem aquele campo de bloqueio que parecia nos rodear. — Se quiser que eu seja seu, tem que ser meu também.
Seus olhos se fecharam assim que colou a testa na minha, implorando por um beijo. Eu não daria o primeiro passo, queria que ele tomasse vergonha na cara e tomasse o que queria sem ajuda.
— Capitão! — alguém gritou e Dimitri saiu de perto de mim como se tivesse levado um choque elétrico. — O que tá fazendo aí em cima com esse viadinho?
— Nada. — Dimitri ficou de pé e coçou a cabeça, uma coisa que ele fazia sempre que ficava nervoso. — Eu só queria que ele me desse informações sobre... sobre...
— As garotas? — o outro idiota perguntou. — Ah, faz sentido! Tá sabendo que a Selena vai para a festa da fogueira também? Ouvi dizer que ela está caidinha por você.
— Não me diga. — Ele pigarreou, evitando meu olhar a todo custo.
Tive vontade de chorar quando ele desceu as escadas sem olhar para trás. Nem entreguei meu coração para ele ainda e a anta já me magoou.
Por Gaga, eu era mesmo muito sensível!
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Aos preocupados estou viva, me perdoem pela demora das atualizações meus anjos, porém minha casa está em reforma e eu não estou tendo muito tempo, porém estarei fazendo o possível para estar postando amanhã. Agradeço por estarem lendo vocês são uns fofos ♡
Beijos e até mais...
...CURIOSIDADE:...
As ilhas abordadas na história são reais com a exceção da "Ilha Angely"
*As mesmas sofreram alterações na história*
》A Rússia tem planos ambiciosos para implantar um novo centro tecnológico na Ilha Russky, a mais de nove mil quilômetros de Moscou.
》Gays, lésbicas, bissexuais e transexuais sofrem constante perseguição, agressões e humilhações no país, ainda que a homossexualidade tenha sido descriminalizada em 1993. A situação só piorou desde que a chamada “lei de propaganda gay” foi aprovada pelos legisladores locais em 2013. A norma proíbe a distribuição para menores de idade de conteúdos que defendam os direitos LGBT ou equiparem relacionamentos heterossexuais a homossexuais.
A homofobia tem sido patrocinada pelo governo por meio das próprias leis e por programas televisivos e propagandas. “Nos canais estatais os homossexuais são apresentados como pervertidos, agentes estrangeiros infiltrados ou pessoas doentes que devem ser curadas”, diz a ativista Svetlana Zakharova, membro do conselho da Russian LGBT Network (Rede Russa LGBT), uma das maiores organizações do setor no país.
Pessoas agredidas física e verbalmente não possuem nenhuma garantia legal e muitas vezes não reportam os ataques por medo de serem ridicularizados pela polícia. “A homofobia está em todo o lugar, na política, nas ruas, nos locais de trabalho, na família, entre os amigos”, diz Svetlana. “É impossível se assumir publicamente e não enfrentar algum tipo de violência e discriminação na Rússia.”
Há também uma epidemia de infecções pelo vírus HIV no país, que muitos acreditam ser fruto das políticas anti-gay do governo. Há muita desinformação sobre as formas de contaminação e quase nenhuma campanha sobre o tema. Além disso, muitos homossexuais têm tratamento negado nos poucos centros de cuidado médico dedicados à doença.
》Chechênia
Se assumir publicamente nas grandes cidades e centros desenvolvidos da Rússia, como Moscou e São Petersburgo, é um pouco mais seguro. É no interior do país que os casos mais graves de homofobia e a maior parte dos ataques são registrados.
O governo local não nega a violência — mas nega a existência de homossexuais na província. O líder checheno Ramzan Kadyrov é há muito acusado por várias organizações de direitos humanos de detenções arbitrárias e de tortura de opositores, além de intolerância com minorias.
As autoridades chechenas não são as únicas a perseguir a comunidade LGBT na região. As próprias famílias, tomadas pela “vergonha” de terem um parente gay, lésbica ou bissexual em uma sociedade extremamente religiosa e conservadora, denunciam, agridem e até matam os próprios familiares.
》Iturup
É composta por maciços vulcânicos e cadeias de montanhas. Uma cadeia com uma dúzia de vulcões alinhados ao longo de um eixo nordeste a sudoeste forma o coração da ilha; o maior é o monte Stokap (1634 m). As costas de Iturup são altas e íngremes. A vegetação é composta principalmente de abetos, lariços, pinheiros, e florestas de árvores de folha caduca com amieiros, lianas e vegetação rasteira de bambu das Curilas. As montanhas estão cobertas de bétulas, pinheiros-siberianos-anões, flores herbáceas ou rocha nua.
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Atualizado até capítulo 44
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