CAPÍTULO 10

Não havia nada mais desesperador do que ver meu crush supremo me pegando no flagra segurando o pau de outro cara. É, minha vida tinha o dom de me foder sem lubrificante em todas as ocasiões possíveis.

— Quem é esse cara? — Michael grunhiu colocando seu bagulhinho mole dentro da cueca e fechou o zíper com desconforto.

— É meu professor — sussurrei, tão envergonhado que enterraria minha cara na areia se tivesse alguma à vista.

— Você não sabe bater na porta? — Mike me empurrou para o lado e abotoou sua camisa. Sua raiva parecia borbulhar dentro dele.

Fábio soltou a maçaneta e ficou ali parado feito uma múmia sem fazer nada além de encarar. Eu queria perguntar se ele queria tirar uma foto do momento, mas temi que o comentário fosse inapropriado demais diante das circunstâncias.

— O reitor me deu a chave. — Fábio sacudiu o molho de chaves parecendo nem um pouco disposto a sair dali. Não consegui decifrar sua expressão. Parecia chocado e com raiva ao mesmo tempo. — A-A-Achei que a sala estivesse vazia.

— E vai estar. — Mike se levantou. Estava tão nervoso que consegui ver seu corpo inteiro tremendo como um vibrador de pilhas novas. Gotas de suor frio desciam pela sua testa.

Era engraçado vê-lo surtando daquele jeito. Porém, eu torcia para que Fábio mantivesse a boca fechada porque a vida do meu primo acabaria se seu pai descobrisse sua verdadeira sexualidade. Até porque meu tio Douglas Pavlova idolatrava Christopher tanto quanto meu pai. Pelo presidente, meu tio idiota faria até uma tatuagem na testa dizendo ''eu sou ótario e atocho coisas na bunda. ''

— Mike! — Estiquei a mão na direção dele na esperança de confortá-lo naquele surto sem sentido, só que ele me ignorou lindamente. Se afastou de mim como se eu portasse uma doença contagiosa, o que mudou meu pensamento. Por conta dessa atitude babaca, acabei torcendo para que ele se fodesse mesmo.

Minhas sobrancelhas se uniram assim que vi meu primo indo na direção de Fábio e o pegando pela gola da camisa, pressionando-o na parede.

— Se contar para alguém, juro que acabo com você! — o rosnado saiu tão feroz que me sobressaltei um pouco.

Ele soltou meu professor e saiu resmungando, batendo a porta com força.

— Que ótimo! — Cruzei os braços com irritação. — Me fez perder a carona, satisfeito?

— Não é legal você e seu namorado fazerem coisas impróprias aqui ou em qualquer outro lugar da faculdade. — A raiva era tanta que se recompôs do ataque de Mike num passe de mágica. — Sem falar que homossexualidade é crime. Quer mesmo ser preso?

— E quem disse que esse cretino é meu namorado? — questionei, ignorando sua pergunta sem sentido sobre a criminalização da homossexualidade porque eu não estava a fim de discutir essa merda com ele e nem com ninguém. Minha paciência se esgotou por completo com meu priminho de pau mole.

— Certo. — Coçou a cabeça, parecendo aliviado por alguma razão. — Desculpe por ter entrado desse jeito.

— Tudo bem. — Alcancei minha echarpe cor de rosa e a enrolei de volta no pescoço. — Mas espero que me compense de alguma forma porque agora terei que pegar um ônibus. Uma lady pegando ônibus essa hora da noite! Só Gaga sabe o que pode acontecer comigo no caminho. — Fiz um drama digno de novela mexicana porque queria que ele sentisse mais culpado.

— Eu te dou uma carona. — Ele parecia ter se esforçado muito para dizer aquilo. Seu desconforto mais do que evidente quase me fez sorrir.

— Maravilha! — Bati palminhas e o peguei pelo pulso, o guiando para fora da sala.

Fábio puxou o braço de volta, ajeitou a gola amassada e revirou os olhos para mim antes de seguir até o estacionamento. Passamos por uma fileira de carros e paramos diante de uma Ferrari amarela de parar o transito.

— Não me diga que esse é seu carro. — Minhas sobrancelhas se uniram assim que tive a confirmação quando ele destravou as portas. — Bem discreto. Os professores são tão bem pagos assim? Agora é que eu viro professor mesmo.

— Foi um presente. — Abriu a porta para mim, o que achei um ato bem cavalheiro da parte dele. O veículo tinha um cheiro bom e o assento era confortável, o que era o mínimo porque pelo preço me admira não ter um mecanismo que oferecia um boquete de brinde.

— De quem? Seu pai? — perguntei assim que ele se acomodou ao meu lado, ligando o carro.

— Meu pai não tem nem onde cair morto. — Balançou a cabeça e deu partida. As rodas pareciam deslizar na pista e eu poderia ficar prestando atenção nisso enquanto afivelava o cinto de segurança, porém não consegui desgrudar os olhos do professor concentrado na estrada.

Fiquei me perguntando quem eram seus pais e se tinham uma boa relação com ele. Seria muito invasivo perguntar? Esperava que não porque além de curioso, eu era incapaz de calar minhas perguntas que pareciam ter vida própria.

— Seu pai...

— Não quero falar dele — cortou-me sem qualquer remorso e acabei me calando, deixando que um silêncio desconfortável reinasse ali dentro.

Abaixei o olhar, encarando minhas mãos unidas. Eu estava mais nervoso do que o normal. O silêncio fazia com que as batidas desenfreadas do meu coração ficassem audíveis a níveis vergonhosos.

— Onde você mora? — quis saber e me agarrei àquela pergunta com unhas e dentes porque se tinha uma coisa que me fazia pirar era estar ao lado de alguém sem falar nada.

— Na Rua dos Tronos, em frente à sede do presidente — murmurei, voltando a ter coragem para encará-lo. Sua expressão estava mais serena e calma do que o normal, então me senti confortável para bombardeá-lo com outras perguntas. — Há quanto tempo trabalha para Christopher?

— Um tempo — disse sem se alongar muito na explicação. Isso era uma coisa que me irritava nele. A incapacidade de sanar minha curiosidade mórbida porque era um carinha de poucas palavras. — Se esse cara não era seu namorado, então por que estava com ele? — Tive a impressão de que ele estava se segurando para não fazer essa pergunta imediatamente e isso me fez dar pulinhos de alegria por dentro.

— Mike é gostoso — respondi como se fosse óbvio, mas ao contrário dele, eu iria elaborar melhor minha resposta. — Bem, ele é meu primo. Tivemos muitas experiências juntos, incluindo as primeiras um do outro. Com o tempo, essa relação foi se desgastando. Não sinto mais nada por ele e tenho a impressão de que ele está a fim de outra pessoa. — A imagem de Isaac se formou na minha cabeça, me provocando um ranço cruel.

— Então a beleza é a desculpa para tudo? — Emitiu um ruído esquisito. — Isso soa muito superficial.

— Tenho que ser superficial, é melhor do que se apaixonar. — Me encolhi porque estava começando a sentir frio. Por Gaga, eu queria me estapear por ter esquecido o casaco na sala do conselho.

— Está com frio? — Seus olhos semicerrados me miraram por alguns segundos antes e voltar para a estrada. Ele tateou o banco traseiro assim que o sinal fechou e me jogou sua jaqueta. — Vista. Não posso desligar o ar condicionado porque estou morrendo de calor. — A julgar pelo suor que descia pela sua testa, eu tinha que concordar.

— Valeu — sussurrei, tendo um pouco de dificuldades em vestir aquilo, pois além de ser maior do que eu, também destoava totalmente do meu estilo único.

Avistei uma foto de um gato fofo pendurada perto do painel do carro e como o bom e velho intrometido que sempre fui, a peguei, quase tendo um ataque de fofura ao ver aquela criaturinha peluda brincando com uma bola de lã.

— É seu gato? — perguntei, ainda concentrado na foto.

— Sim. — Quando o espiei, notei que ele estava sorrindo e não era pra menos. Até o coração mais duro devia derreter com animais fofos.

— Sempre quis ter um gato — admiti, sabendo que por minha mãe ser alérgica, eu jamais poderia ter um a menos que eu saísse de casa, o que eu não poderia antes de me formar e arranjar um emprego. De preferência um que me permitisse comprar uma Ferrari daquelas. — Gatos são elegantes, lindos e independentes. São representações minhas em forma animal.

Fábio meneou a cabeça e pude ouvir uma risadinha baixa, o que me fez sorrir.

— Qual é o nome dele? — Abaixei a foto ao perguntar.

— É Milk. — Desligou o carro, indicando que infelizmente chegamos ao meu triste destino. Só que ao invés de me mandar dar o fora, ele simplesmente se virou para olhar para mim.

— Leite em inglês? — Gesticulei de forma exagerada antes que ele assentisse. — Eu adoro leite.

Fábio levantou uma sobrancelha e mordeu a boca como se tentasse reprimir uma risada. Só então, me dei conta do duplo sentido gritante da minha afirmação. Como eu, um cidadão graduado na arte de falar sacanagens não percebeu que minha frase era imprópria?

— Eu não tava falando desse tipo de leite — prossegui após um silêncio constrangedor. — Quer dizer, também gosto desse tipo de leite. — Ao medir sua expressão chocada, logo reformulei porque tudo indicava que eu estava piorando tudo. — Ah, por Gaga! É melhor eu ficar quieto.

Ele começou a rir de mim e eu não sabia onde enfiar a cara. Para o meu alívio, sua risada parou quando ele começou a respirar fundo, vincando a testa em seguida.

— Que cheiro é esse? — Fábio fungou de um jeito esquisito e se aproximou muito de mim, inclinando-se além do espaço pessoal aceitável entre aluno e professor. — É seu perfume? — Seu nariz quase encostou em meu pescoço e tive a impressão de que eu estava deixando ele um pouco tonto.

— É. — Dei de ombros, sentindo meu rosto esquentar a níveis perigosos. Por Gaga, eu ia entrar em combustão espontânea se continuasse desse jeito. — Meio forte, né? Costumo exagerar um pouco.

Levantei a gola assim que ele se afastou parecendo chocado consigo mesmo por ter quase avançado em mim. Eu não podia fazer nada se meu perfume era tipo um feromônio que levava qualquer cara ao delírio.

— É...bom. — Pigarreou e se ajeitou no banco, um tanto desconfortável.

— Ah, valeu. — Abri um sorriso sem graça porque eu não sabia como reagir perto de alguém que eu gostava. Era tão mais fácil ser eu quando não estava ocupado me derretendo por alguém. — B-B-Bem, é melhor eu ir. — Quis arrastar minha cara no asfalto por ter gaguejando daquela maneira estúpida. Eu nunca gaguejava, as pessoas que gaguejavam perto de mim.

— Certo. — Fábio abaixou a cabeça e cruzou os braços.

— O seu casaco. — Fiz menção em retirá-lo, mas ele fez um gesto para que eu não o fizesse.

— Pode ficar com ele — murmurou. Ele me encarava com tanta intensidade que perdi o ar por alguns segundos. — Fica bem em você.

Pelo amor de Lady Gaga, acho que vou desmaiar. Calma, Dani. Foi só um elogio normal. Não era motivo para um surto, até porque ele não estava interessado em mim, eu que era trouxa o bastante para criar esperanças.

— É nessa hora que você me dá um beijo de boa noite? — Fiz um beicinho, hipnotizado demais por ele para medir minhas palavras de forma mais crítica.

— Nos seus sonhos. — Estremeci quando ele tocou meu nariz com a ponta de seus dedos. A corrente elétrica que se apossou de mim fez meu coração doer em resposta. — Até amanhã, Daniel. — Inclinou-se, chegando tão perto que engoli em seco. — Calma, só estou abrindo a porta para você — continuou, notando que eu estava quase tendo um treco.

— A-A-Até amanhã — foi impossível não gaguejar de novo. Dei o fora daquele carro porque eu já estava achando aquele ambiente extremamente claustrofóbico.

— Tenha bons sonhos. — Deu uma piscadela que me deixou rígido e pareceu satisfeito ao checar minha reação de puro pânico. Ele estava me provocando ou o que?

— Tenha bons sonhos, professorzinho — sussurrei assim que o carro deu partida.

Acabei me dando conta de que nem mesmo a distância conseguiu fazer com que meu coração doesse menos e confesso que isso foi a prova viva de que meu status de relacionamento mudou drasticamente de ''solteiro sim, sozinho nunca'' para ''tô fodido, alguém me salva.''

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Sentiram minha falta??

O que acharam do capítulo?

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