Uma semana passou rápido.
Miguel não insistiu mais em fazer o pai mudar de ideia, mas tinha um mau pressentimento.
Em toda a sua vida, nem mesmo quando o pai e a sua mãe eram casados, não o vira tão feliz da vida.
Samuel, em todo o lugar que ia, fazia questão de dizer que ia se casar novamente.
Como era um homem muito querido na Vila, a todo momento, recebia presentes dos moradores: galinhas, patos, verduras, legumes e outras iguarias.
As pessoas compartilhavam da mesma alegria que ele estava sentindo, menos Miguel, que via aquele momento com desconfiança.
Resolveu ficar na cerimônia para conhecer melhor a noiva do pai e ameaçá-la se fosse preciso.
Se soubesse antes da intenção do pai, teria ido pessoalmente conhecer a mulher que estava transformando o homem experiente em um velho ingênuo e idiota.
No dia anterior ouviu a conversa do pai com a mulher ao telefone.
Ele estava explicando como devia fazer para chegar até a ilha. Falou sobre o horário que a lancha estaria no porto e disse-lhe que iria buscá-la.
Aparentemente, a mulher era convincente e tudo que ela falava era motivo de graça.
Miguel nem conhecia a moça, mas já nutria um ódio descomunal por ela. O desejo dele era conhecê-la pessoalmente só para ter o prazer de desmascará-la.
Desde que soube que o pai ia casar não conseguia nem se concentrar na administração dos negócios.
Imaginava que essa impostora era como Sílvia, sua ex-esposa.
Essa novinha usaria o seu pai. Isso se não arranjasse um amante para envergonhá-lo, e por último, chutaria o traseiro dele.
"Mulheres assim entravam na vida do homem só para fazer um terrível estrago."
Com desprezo, observou a movimentação das pessoas contratadas para organizar a recepção do casamento, que aconteceria na propriedade dele.
O casamento estava previsto para o dia seguinte, mas a qualquer instante ela deveria chegar.
No horário combinado o seu pai completamente eufórico foi com os dois homens de confiança da família: Juca e Manoel.
Seguiram para o Porto e as horas se arrastaram, desafiando a paciência de Miguel.
Com o tempo passando, não deixou de sentir-se aflito.
Samuel e os homens estavam demorando demais.
Mesmo a contragosto, tentou ser otimista. Talvez houve atraso no horário de saída da embarcação e o pai ficou aguardando até o desembarque da última lancha.
Foi para a varanda e ficou esperando.
De repente, Miguel avistou os faróis da caminhonete que cortavam a escuridão do caminho, iluminando a estrada mal pavimentada e seguindo em direção à casa.
Com certo alívio, ele percebeu a silhueta corpulenta do pai, mas para sua surpresa, a noiva não estava entre eles.
Só então percebeu que o pai estava cabisbaixo, andando lentamente.
Os funcionários que o acompanharam, ficaram de longe, encostados no veículo, aguardando algum comando para irem embora.
Imaginava o que acontecera, mas esperava que ele expressasse sua versão.
Miguel sentiu um aperto profundo.
Mesmo chateado com o seu pai, não tinha como não se compadecer dele.
Ele parou a sua frente e com olhos tristes, sussurrou:
— Você tinha razão! — A fala era a completa melancolia.
Miguel olhou para os homens e fez sinal para que fossem embora. Imediatamente, obedeceram.
Para consolar, abraçou-o.
Pela primeira vez viu o pai chorar.
Sentiu uma revolta inigualável pulsar em todo o seu ser.
Não queria vê-lo sofrer daquele jeito.
— Vai ficar tudo bem, pai! Não se preocupe.
Entre soluços de dor, o pai desabafou:
— Estou morrendo de vergonha de você e de todos daqui!
— Oh, pai! Deixe que resolvo tudo amanhã. Você não precisa fazer nada, só fique bem, tá? Eu te amo pai e lamento que tenha acontecido tudo isso, mas logo, você supera.
O pai abraçou-o mais forte ainda.
— Também amo você, filho! Prometo, isso não vai mais acontecer.
— Espero que não… Vamos entrar...Quer que eu prepare um café? — Era a bebida preferida do pai.
Ele confirmou com a cabeça, enquanto enxugava as lágrimas.
Minutos depois, os dois tomavam o café em silêncio.
Tanto Miguel, quanto o pai estavam perdidos em seus próprios pensamentos.
Samuel rompeu o silêncio, colocando a xícara vazia na mesinha de centro.
— Obrigado, Miguel! Sou abençoado por ter um filho como você!
O filho suspirou aliviado. O rosto do pai estava mais calmo.
No dia seguinte, conversaria melhor com ele sobre a golpista.
Faria o que fosse necessário para que o seu pai não continuasse a se comunicar com ela. Nem que tivesse de pagar por isso.
Miguel ficou um bom tempo pensativo.
A triste situação de Samuel tirou-lhe o sono.
Instantes depois, antes de dormir, passou pelo quarto do pai. Ele havia adormecido. Sentindo-se mais tranquilo, foi para o quarto e antes que percebesse, entrou num sono profundo.
Estava amanhecendo, quando Miguel, com os olhos semicerrados, ouviu um estalido de tiro. Num impulso, levantou-se da cama rapidamente e correu em direção ao quarto do pai, já prevendo o pior.
A porta estava trancada.
— Pai! Pai!
Bateu com violência. Nenhum ruído se ouvia de lá.
Nesse momento um dos empregados da casa já vinha com a cópia da chave. Miguel pôs as mãos no rosto, nervosamente e o coração gritando de ansiedade, enquanto a porta era aberta.
Seus olhos percorreram rapidamente o espaço, até se fixarem primeiro numa poça de vermelho escarlate. O corpo tremeu.
Entrou no quarto.
Com alguns passos, constatou horrorizado que o corpo inerte no chão era do seu querido pai.
—Nãaaao!
O grito se ouviu há uma distância considerável e muita gente da vila foi se aglomerando em frente ao portão.
Horas depois, o que deveria ser uma festa de casamento, agora era o fim de um cortejo fúnebre.
As lágrimas de Miguel secaram.
Incontáveis vezes recebeu as condolências dos conhecidos, num momento em que todo seu ser estava contaminado pela tristeza e o ódio.
Com o celular do velho na mão, ainda no velório, teve acesso a todas as conversas que ele tivera com "uma tal de Jane".
Ela era a assassina do seu pai.
"Isso não vai ficar assim Essa golpista vai pagar por tudo o que fez ao meu pai ou não me chamo Miguel Monteiro!"
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Atualizado até capítulo 92
Comments
Rita Cassia
autora estou amando a história parabéns
2024-12-04
2
Rita Cassia
nossa que triste
2024-12-04
1
Elizabeth Fernandes
Jane vai pagar pelo erro de outra
2024-11-01
1