No dia seguinte, na * ilha de Marajó...
— Vamos, Miguel!
O motorista do micro-ônibus buzinava e gesticulava para que ele, tomasse o seu lugar no veículo. Já estava prestes a anoitecer e tinham uma exaustiva viagem de volta para casa.
Miguel se despedia de mais uma moradora do povoado carente da região. Extrovertida, agradecia a ele pela disposição de ir lá com sua equipe fazer entrega de cestas básicas. A mulher, com dentes falhos, acenou ao vê-lo partir.
Com trinta e um anos de idade, alto, corpo atlético, tinha o cabelo preto e ondulado, exibia uma pele bronzeada pelo sol escaldante da ilha e orgulhava-se por ser admirado pela sua beleza um tanto selvagem.
( Imagem meramente ilustrativa de Miguel)
Cumprimentando os colegas que o ajudara na assistência à comunidade, encostou-se confortavelmente sobre o assento, fechou os olhos, pôs o fone no ouvido e relaxou ao som de suas músicas favoritas.
Permaneceu assim, até chegar em casa.
Ao descer do veículo caminhou a passos largos até a casa do seu pai.
Observou que ele estava na varanda, deitado numa rede, concentrado no celular. Aquilo estava se tornando algo comum, desde que a internet passou a fazer parte do cotidiano do pai.
Não só isso.Há pouco mais de um mês, percebia uma mudança estranha no comportamento dele.
O idoso apresentava um meio sorriso escondido pelo bigode, que o deixou curioso.
( Imagem retirada da Internet. Samuel)
— Cheguei, pai!
Silêncio. Ele parecia surdo. Continuava falando com alguém no aplicativo de mensagens.
Miguel aproximou-se e pigarreou. O senhor levou um grande susto, que quase caía da rede:
— Filho! Que é isso? Pensei até que fosse uma assombração! — E disfarçando, perguntou: — Chegou agora ou faz tempo?
Desconfiado, Miguel falou arrastado, com o chiado típico da região:
— É... Vou tomar um banho agora e jantar.
— Ótimo! Depois preciso falar uma coisa muito importante com você.
Samuel estava agitado. Tinha um jeito mais jovial que o normal e isso chamou sua atenção, ainda mais quando o celular dele sinalizou mais uma notificação.
— Quem é? — Os olhos dele apontavam para o celular na mão do pai.
O homem sorriu, sem jeito.
— É sobre isso que quero falar, mas vá logo! Não se demore!
Miguel continuou a fitá-lo com desconfiança.
— Tá certo!
Após o jantar, Miguel voltou. Na varanda, o pai estava numa cadeira de balanço, tomava o café preto que tanto gostava, enquanto admirava a noite enfeitada de estrelas e uma lua fascinante.
Miguel sentou-se na mureta da varanda, de frente ao pai, aguardando a novidade que no íntimo já o preocupava.
— Oh, filho, nem sei como te contar... Mas de qualquer forma você ia ficar sabendo mesmo...
— Aconteceu algo grave, pai? —A voz tinha um tom ansioso.
O homem tomou mais um gole do café e com um sorriso faceiro, disse:
— Conheci uma moça através do whatsapp, meu filho e estou num compromisso sério com ela.
—Uma moça? Sei. Qual a idade dela? — Miguel foi direto ao ponto, em alerta.
— Ela tem... Vinte e quatro anos!
— O quê? Pai! É sério o que você está me dizendo?! Poderia ser sua neta!
O pai, um sessentão, não gostou do que ouviu.
— Que preconceito é esse meu filho? Mereço ter alguém e ainda tenho bastante vigor físico para dar conta do recado! — Ele falou ofendido.
Miguel não se intimidou e começou a interrogá-lo.
— É, mas o Senhor conhece essa moça, por acaso? Conhece a família dela? Já se certificou se não está entrando numa furada?
O pai largou a xícara vazia com força numa mesinha de vidro. Falou exasperado:
— Tá parecendo meu pai falando assim! Sou bem crescidinho e tenho certeza que é honesta! Você só pode estar com ciúmes!
— Eu? Nada disso! Estou preocupado com o senhor! E se for uma golpista? Não vou permitir que faça alguma besteira! — Enfrentou o olhar raivoso do pai.
— Que besteira, rapaz ! Alguma vez você já viu uma mulher me fazer de tolo? — E balançando a cabeça, disse: — Nem sei por que estou tendo essa conversa com você! Já decidi e só estou comunicando! Semana que vem é o meu casamento, se não quiser participar o problema é seu.
— Oh, não! Semana que vem? Está sendo precipitado, Pai! Desista dessa ideia! Eu ajudo a investigar...
Samuel interrompeu, mais zangado ainda.
— Nunca! Você para de ser intrometido! Ela vem, você vai ver!
Miguel perdeu a paciência. Com a voz tão exaltada quanto a do pai, avisou:
— Se você quiser ser um bobalhão, prefiro nem ver. Se ela vier, eu me retiro!
— Você sabe o que faz... Não vou mudar de opinião! Eu sou o seu pai, não o contrário!
— Espero que não se arrependa, pai! Você acha que ela quer você? Não! É o seu dinheiro que ela está atrás! Com tanta mulher madura na Vila, por que simplesmente não arranjou uma daqui?
— Ah, só porque sou velho, não posso ter uma pessoa jovem como companhia? Se está interessado, fique você com elas!
Miguel suspirou cansado daquela discussão. Antes de sair, entregou os pontos:
— Já que insiste, faça o que quiser! Depois não reclame! Vou dar uma volta!
Miguel saiu chateado da presença do pai. Pegou sua moto e dirigiu-se para a beira do mar.
Recordou que há dez anos atrás havia saído da ilha para estudar na capital Belém. Assim que se formou em administração, trabalhou como gerente de um banco e casou-se com Silvia, mas após o recente casamento fracassado, voltou para sua terra natal.
Percorrendo o olhar pela paisagem natural lembrou-se sem ressentimento de sua ex-esposa.
Ela jamais conseguiria viver ali entre pessoas humildes e num lugar tão pacato como era a ilha paraense.
Acostumada ao luxo, muitas vezes brigaram por desperdiçar tanto dinheiro com coisas supérfluas. Vaidosa, exagerava em estar na moda e odiava a vida simples que ele tanto almejava.
As brigas foram aumentando e piorou quando ela o traiu com o seu melhor amigo.
Isso fez com que percebesse que nenhuma mulher merecia ser amada.
Ao voltar para a ilha resolveu ter apenas encontros casuais e não desejava tão cedo uma mulher que o fizesse de trouxa.
Estava bem melhor livre para ficar com quem quisesse, sem precisar dar satisfação das suas atitudes.
Miguel aspirou o ar puro.
Só em estar ali, sentindo a brisa fria em seu rosto percebia que aos poucos, a calma voltava. Aquele paraíso cheio de praias e com fauna e flora diferenciada era seu refúgio, sua paixão.
Temia, porém, que o seu sossego pudesse ruir a qualquer momento. Tudo isso por causa de uma desconhecida golpista!
* A ilha de Marajó, localizada no estado do Pará, região Norte. É a maior ilha do Brasil e também a maior ilha fluviomarítima do mundo.
( Imagem meramente ilustrativa retirada da Internet.)
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Atualizado até capítulo 92
Comments
Rita Cassia
a golpista só quer ostentar
2024-12-04
1
Elizabeth Fernandes
Eita coitado desse pai esse golpista só que dinheiro
2024-11-01
1
Euridice Neta
De tanto ouvir falar gostaria de conhecer...
2024-09-17
1