O médico imperial apareceu interrompendo a conversa. Ele imediatamente começou o tratamento dos meus pés.
As pomadas ardiam e logo eu tive meus pés enfaixados os deixando parecer bem piores do que realmente estavam.
As pessoas poderiam facilmente pensar que meus pés sofreram uma queimadura grave ao invés de pequenos arranhões.
O médico saiu prometendo voltar amanhã para trocar os curativos.
— Bem, senhorita Lara. — Bernardo levantou. — Eu devo ir agora.
— Um momento por favor! — Falei levantando.
— Sim?
— Poderia chamar alguma empregada? Gostaria de tomar um banho. — Ele me olhou por um tempo sem falar nada.
Acho que não é algo apropriado para pedir a ele. Ele não é um mordomo ou empregado deste palácio, ele nem mesmo mora aqui.
— É claro. — Bernardo falou e saiu.
Na verdade está tudo bem pedir algo assim?
Minutos depois algumas garotas jovens entraram. Seus rostos não pareciam felizes. Jorge saiu no momento que elas entraram.
Elas não foram exatamente gentis, mas estavam fazendo seus trabalhos.
Prepararam a água, tiraram minhas roupas e me guiaram para a banheira. Esfregaram meu corpo e limparam cada centímetro. Lavaram meus cabelos e no fim do banho, me secaram e me vestiram com uma camisola branca.
Eu odiei cada segundo. Já era constrangedor ter alguém me limpando, mas precisavam ser tão agressivas? A pele de Lara era sensível e estava latejando. Não olhei, mas devia está com hematomas.
Não posso nem ter um banho em paz, mas olhando pelo lado bom, eu estava limpa. Elas enfaixaram e passaram as pomadas no meu pé novamente também.
Deitei na cama enorme e macia. Não percebi o quanto estava cansada até desmaiar no momento que minha cabeça encostou no travesseiro.
No outro dia de manhã eu acordei com a luz que entrava pela janela que esqueci de fechar ontem. A cama era muito confortável e eu gostaria de continuar dormindo, mas a minha mente começou a trabalhar assim que abri os olhos, eu não terei um minuto de paz enquanto estiver nesse Palácio.
— Tudo bem, vamos começar o dia. — Falei levantando.
A primeira coisa que notei quando sentei na cama foi uma corda pendurada ao lado da cama. Já vi filmes e livros de época o suficiente para saber o que aquela corda significava.
Para experimentar balancei a corda e esperei. Não muito tempo depois as mesmas empregadas entraram.
Elas nem me cumprimentaram e já me arrastaram para tirar minha roupa e me levar para o banho.
Enquanto sofria a mesma tortura de ontem resolvi me rebelar.
— Vocês são muito corajosas. — disse puxando meus braços que elas estavam esfregando.
As garotas pareciam confusas.
— Quero dizer, quanta coragem é preciso para esquecer o seu lugar? — Vão continuar caladas? — Eu me pergunto o que sua majestade o imperador irá pensar...
— O que você está dizendo? — Umas delas perguntou.
— Apenas que algumas empregadas estão se esforçando tanto para fazer o seu trabalho de me limpar que quase arrancam minha pele. — Falei olhando meus braços desnudos que pareciam pimenta de tão vermelhos.
— Não estamos machucando você! — Uma outra se exaltou.
— Não? — Sorri o mais cruelmente que consegui e as vi estremecer. — Será que o imperador irá pensar o mesmo quando ver meus braços?
Não gosto de intimidar outras pessoas, mas honestamente não sou de aguentar ser atormentada calada. Principalmente quando posso revidar.
— Sinto muito, senhorita! — Outra falou. — Não notamos que estavamos machucando sua pele.
Quanta baboseira.
— Oh, não? Mas já que agora sabem, espero que não repitam.
— Não vamos! — todas disseram em uníssono.
E assim, tive um resto de banho tranquilo. Embora meus braços ainda pinicassem por antes.
Elas me levaram para frente de um espelho e eu pude finalmente ver o meu rosto. Eu entendi imediatamente porque Lara era uma vilã.
Claro, ela tinha uma beleza surreal, mas era assustadora. Olhos azuis e oblíquos que lembravam uma raposa, longos e lisos cabelos loiros que caiam sem volume até o quadril com uma pele pálida. Parecia uma bruxa.
Já vestida e alimentada, comecei a pensar no meu próximo passo. Primeiro, preciso encontrar uma razão para não... Espera, eu já tenho uma razão boa o suficiente para não querer esse noivado! Bianca e Daniel são um casal, não tem como eu noivar com alguém comprometido.
Isso é uma razão boa moralmente falando, mas também o imperador pode simplesmente mandar que Daniel termine com Bianca, o que ele não vai fazer e gerar um novo conflito para o casal e, é claro, eu vou estar no meio. Posso apostar que isso termina em morte, a minha no caso.
Preciso de uma razão convincente, uma que nem o imperador possa ir contra.
Mas o quê? O que pode convencê-lo? O objetivo é melhorar a relação rachada entre as famílias. O que eu posso fazer para ajudar com isso que não envolva casamento e tenha a mesma eficácia?
Suspirei, ando fazendo muito isso ultimamente.
— Não tenho ideia do que fazer. — Falei cobrindo o rosto com as mãos.
Não importa o que eu pense agora, não consigo achar uma solução.
Tomei um gole do chá que estava tomando.
— Vamos fazer outra coisa. — Levantei da poltrona que estava sentada e balancei a corda.
Pouco tempo depois uma empregada entrou.
— Deseja algo senhorita Vont Devier? — Parece que a minha ameaça de mais cedo surtiu efeito.
— Sim, me arranje algo que eu possa escrever. — Falei, não sei se existe caneta aqui.
— Um caderno? — Ela perguntou.
— Não, eu quero algum material para escrever uma carta.
— Entendido. — Ela fez uma pequena reverência e saiu.
Sentei esperando ela voltar e em segundos ouvi batidas na porta.
Já? Isso foi mais do que rápido.
— Pode entrar! — Gritei e a porta se abriu.
Sorri enquanto devolvia o chá para a mesa.
— Isso foi bem rápido... — Parei o que estava falando quando vi quem havia entrado.
Não era ninguém menos do que o príncipe Daniel.
Claro, eu não tinha certeza. Era apenas um chute por causa de sua aparência.
Um homem tão alto quanto Bernardo estava parado no meio do quarto. Ele tinha os cabelos pretos, os olhos azuis e uma carranca mal humorada no rosto.
Fiquei paralisada.
— O que você está planejando? — Ele falou com uma voz grave.
— O que... — Tentei falar, mas ele me interrompeu.
— Nem adianta se fazer de sonsa, Lara. — Ele falou se aproximando e eu me afastei. — Eu sei que você está planejando algo.
Esse cara... O que ele veio fazer aqui? Ele fez todo o caminho só para me acusar?
— O que você fez? Quanto pagou para aquela empregada? — O olhei irritada.
Não, eu não cheguei até aqui para esse palerma transformar meus esforços em nada.
— Eu não paguei nada para ninguém. Com que evidência você ousa vir ao meu quarto apenas para me acusar com besteiras?! — Agora era eu quem estava me aproximando dele. — Aquela mulher fez tudo o que fez por sua culpa! Não minha. Não venha por em meus ombros um peso que não é meu! Eu sou no máximo uma vítima no plano daquela louca.
— Minha culpa? — Daniel riu incrédulo. — Você fala sério? Eu nunca fiz nada e jamais faria qualquer coisa que machucaria Bianca, mas e você? Quem faria esses truques sujos e baixos além de você!?
— Você não, o seu romance fez. Truques sujos e baixos você diz? Eu nunca faria uma coisa assim! Eu sou uma nobre, sangue nobre corre em minhas veias! Eu jamais recorreria a algo como truques baixos e sujos, eu não arruinaria a mim e a minha família assim! — Falei e já estavamos próximos o suficiente para que o dedo que eu estava apontando cutucasse o seu peito. — Mas aquela empregada é diferente de mim. Você não sabe? Não percebeu o quão obcecada Judith estava com o seu conto de fadas? Tão obcecada ao ponto de fazer esse plano ridículo para se livrar de mim?
Eu estava espumando de raiva. Eu fico assim só de lembrar no que passei, se isso foi ruim para mim, o quão difícil deve ter sido para a verdadeira Lara que era uma nobre orgulhosa?
— Judith? — Ele falou tirando meu dedo que o estava cutucando.
— Não sabe nem o nome da pessoa que envenenou sua amada? — Ri debochando.
— E como você soube disso? — Daniel perguntou de forma acusatória. — Como que de dentro do calabouço você desvendou os planos do verdadeiro culpado?
Virei cruzando os braços.
— Eu sou observadora. Eu sei quando alguém está tramando contra mim.
Nunca menti tão descaradamente, mas o que eu deveria dizer? Que eu li?
— Você acha que eu vou acreditar nisso tão facilmente? — Daniel falou.
— Não me importo se você acredita ou não. — Falei o olhando de canto de olho. — Eu estou consciente do que eu fiz e o que não fiz. Minha consciência está limpa.
Até parece que serei amigável com esse cara. Pouco me importa se ele é o protagonista masculino, eu tenho carteirinha livre para agir rude com ele. Por que? Bem, eu sou a Lara.
— Agora, eu quero que você saia. — Falei e dessa vez virei para olhar Daniel.
— O que? Você não vai fugir, não antes de me contar o que você pretende.
Revirei os olhos.
— O que eu pretendo? Bom, primeiro eu quero ir para casa. Depois o que mais? — Coloquei a mão no queixo fingindo pensar. — Ah, sim! Nunca mais olhar o seu rosto e... Certo, também não quero ouvir mais a sua voz.
— Lara, eu falo sério. — Ele me lançou um olhar gélido.
Tive certeza de fazer o mesmo.
— Sai.
Falei um segunda vez, Daniel finalmente saiu com fogo nos olhos.
Suspirei.
Voltei para minha poltrona e bebi o chá que já estava frio. Só de falar um pouco com Daniel, toda a minha energia se foi.
Eu definitivamente não vou deixar que o imperador retome nosso noivado!
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Atualizado até capítulo 58
Comments
Giulia Jung
Normalmente contratos de trabalho são uma boa opção. Eles oferecem algo que seja especialização do serviço deles, e vocês algo da sua especialidade também. Um lava a mão do outro
2024-12-01
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Giulia Jung
Como se você não é a pessoa que está tentando fugir desse noivado? Você só simplesmente está jogando os fatos: Daniel gosta de Bianca, e não quer estar casado com você e pronto
2024-12-01
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Ezanira Rodrigues
É bom que Lara saia deste Palácio, se afaste de todos que possam de alguma forma prejudicá-la. Ela quer paz. Não quer dá chance de cair em alguma cilada.
2025-03-13
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