— Não se preocupe, você está livre. Apenas tem que esperar o decreto oficial do imperador. — Bernardo tentou me acalmar.
— Então tenho que ficar mais dois dias?
— Sim, mas não será tão ruim. A senhorita ficará em um quarto como convidada. — Acho que Bernardo está tentando me consolar.
Ele está dizendo que apesar de está presa, serei bem tratada igual a uma convidada.
Suspirando eu aceitei minha situação. Bernardo tem razão, não é tão ruim. Vou ficar em um quarto confortável esperando o dia do julgamento onde quem será condenada é Judith.
Depois irei para casa, vou ficar um mês longe dessas pessoas! Depois voltarei com o plano de melhorar a minha imagem.
— Tudo bem, vamos indo. — Falei.
Me virei para encarar Jorge e sorri.
— Até logo, não se esqueça de sua promessa. — Fui até ele e lhe abracei.
Acho que não é um costume desse lugar já que Jorge ficou duro como uma estátua e ouvi alguns suspiros de surpresa atrás de mim. Bem, eu sou brasileira. Eu dou abraços de despedida em meus amigos.
Como todo mundo parecia escandalizado com apenas um abraço, me abistei do beijo na bochecha.
— Não vou esquecer. — Jorge sussurrou em meu ouvido, mas não devolveu o abraço.
— Acho que isso é uma despedida. — Falei um pouco para baixo já me afastando dele.
— Por que estão se despedindo? — Bernardo questionou.
— Porque ficaremos um tempo sem nos ver... — Respondi o óbvio.
— Mas Jorge foi o cavaleiro escolhido para escoltar a senhorita durante o tempo no Palácio Imperial. — A boca de Jorge se abriu.
— É possível alguém ter tanta sorte? — Exclamei animada. — Os cavaleiros não eram escolhidos aleatoriamente?
— A sorte deve estar a nosso favor senhorita! — Jorge também estava animado.
— Eu pedi para sua majestade que o cavaleiro Jorge fosse sua escolta. — Bernardo falou sorrindo.
O rosto de surpresa de Jorge era impagável, acredito que o meu devia estar semelhante.
— Por que? — Perguntei curiosa.
— Os dois pareciam se dar bem, de qualquer maneira, vamos indo. — Bernardo virou e seguiu para a saída do calabouço sendo seguido por todos.
"Os dois pareciam se dar bem"
Foi apenas por isso?
Sorri.
Claro que não, esse cara sabe que ninguém aqui me tratará bem, mas se Jorge estiver do meu lado, grandes incidentes de negligência serão evitados.
Era bom a sua perspicácia, isso vai me poupar problemas.
Quando saí daquelas masmorras, o vento frio me atingiu com tudo. Meus cabelos voaram para cima e meu vestido esvoaçou ao meu redor.
Apesar do frio, eu me senti bem.
Liberdade.
Eu amava o vento e sua liberdade para ir para qualquer lugar. Sempre que sinto o vento em meu corpo e rosto, um sentimento de completude surge em meu peito.
Eu sinto como se fosse tão livre quanto o vento. É, eu amava o vento.
Quando fui dar meu primeiro passo, pisei na grama e tirei meu pé imediatamente. Grama, era confortável contando que estivesse com o pé sem ferimentos.
Não era o meu caso. Os pés de Lara estavam cheios de pequenos arranhões que variavam em profundidade. Seria muito doloroso andar na grama.
Xinguei mentalmente, como raios eles levaram Lara para aquela prisão para que ela ficasse tão suja, descalça e com ferimentos nos pés?
— A senhorita está bem? — Ouvi a voz de Bernardo e o encarei.
— Ah... — Não soube o que dizer, então apenas levantei a barra do vestido e mostrei meu pé.
— Como isto aconteceu? — Bernardo se abaixou e pegou meu pé o examinando.
Não respondi.
Soltando um suspiro Bernardo levantou e me pegou em seus braços. Soltei um grito surpresa.
Todos os presentes também pareciam surpreendidos.
— O que está fazendo? — Perguntei levemente assustada com o comportamento de Bernardo.
— Você acha que consegue andar com os pés nesse estado? — Ele perguntou já sabendo a resposta.
O encarei, imagino que ele me levará até chegarmos em um local sem grama. Senti o vento da noite me atingir novamente, respirei fundo fechando os olhos.
Quando os abri novamente, observei o rosto de Bernardo. A mandíbula marcada, os cabelos bem penteados que estavam sendo bagunçados pelo vento e seu olhar firme para frente. Era como uma escultura de tão bonito. Seus olhos vermelhos ficavam hipnotizantes com as luzes da noite. Como consegui pensar que esse cara era um demônio?
— Oh, chegamos. — Falei notando um caminho de pedras brancas. — Pode me colocar no chão agora.
— Como? — Bernardo não parecia ter intensão de me soltar.
— Aqui posso andar. — Falei apontando para o chão.
— Com esses pés? A senhorita só vai piorar os cortes. E se pegar uma infeção?
— Andei assim durante vários dias em uma cela imunda. — Respondi, se não peguei uma infeção lá, por que pegaria uma aqui?
As sobrancelhas de Bernardo franziram.
— Não, vou chamar um médico para cuidar disso quando chegarmos no quarto. — Ele decidiu sozinho.
Eu não entendi o comportamento de Bernardo. Por que ele estava agindo assim? Ele deveria ser uma das pessoas que mais me odeiam nesse mundo.
Por que ele se importa? É algum senso de justiça nobre que eu não conheço?
Eu não preciso fritar meus neurônios com isso agora, eu tenho problemas maiores para pensar.
Vou ficar dois dias no Palácio Imperial, com o azar que eu tenho, provavelmente posso acabar me encontrando com Daniel.
Se eu passar esses dois dias sem sair do quarto, a chances de eu encontrar com ele são quase nulas, certo? Ótimo, vou me enfurnar e sair apenas depois que o julgamento passar.
Sim, e assim vou embora para o território do marquês Vont Devier, o pai de Lara. Se eu não me engano, Lara tem mais dois irmãos. Um mais novo e outro mais velho.
Não tenho ideia de como é a relação familiar que eles têm. Se são próximos, distantes ou carinhosos. Vai ser difícil agir normalmente, eles podem notar a mudança brusca de personalidade da Lara.
A magia existe nesse mundo, embora os humanos sejam incapazes de usar. E quem possui magia são os chamados "feras mágicas".
São raros e quase nunca se mostram para humanos. Bianca encontrou com uma fera mágica apenas uma vez na história, foi quando ela estava caçando na floresta disfarçada. Foi um evento importante no desenvolvimento do livro já que é assim que o relacionamento de Daniel e Bianca começou.
De qualquer forma, eu posso ser confundida com uma fera mágica de espécie desconhecida que possuiu a verdadeira Lara.
Parando para pensar, isso é bem próximo da realidade.
Enfim, parece que eu só tenho problemas, e quando penso resolver um, aparece outro.
— Chegamos. — Ouvi Bernardo dizer e me colocar sentada em uma poltrona.
Estava tão perdida em meus pensamentos que nem notei quando entramos no quarto.
Fiquei embasbacada com a arquitetura do lugar, era luxuoso no estilo renascentista.
Isso significa que era grande o suficiente para caber 4 famílias diferentes.
— Quando o médico vai chegar? — Perguntei, embora esteja acostumada, meu pé ainda dói.
— Logo, você está bem? — Olhei ao redor notando que apenas Jorge restou no quarto conosco.
— Estou, na medida do possível. — Falei e Bernardo sentou na poltrona na minha frente. — Imagino que eu não irei participar do Julgamento?
— Não tem porquê, o julgamento não é mais seu. — Ele falou e um – eu acho – mordomo entrou no quarto segurando uma bandeja.
Ele serviu chá para mim e para Bernardo.
— Então, por que ainda estou aqui? — Se eu não sou mais a principal suspeita e não vou ter um julgamento, por que devo ficar?
— Ordem de sua majestade. — Ele falou meio sombrio. — Imagino que ele queira falar sobre retomar o seu noivado com sua alteza, o príncipe.
Quase cuspi o chá que estava tomando. Acabei de entrar em um terreno perigoso para se falar, ainda por cima é com Bernardo.
Isso pode piorar? O que eu faço se o imperador ordenar que o noivado seja retomado? Para começo de conversa, o noivado só acabou por causa da acusação de envenenamento.
É por isso que odeio casamentos políticos! A família do marquês e a família imperial não estavam exatamente em bons lençóis, por isso o noivado aconteceu como uma tentativa de restaurar a relação das duas famílias.
Era muito importante para o marquês e para o imperador que Lara e Daniel se casassem, mas eu não posso deixar que isso aconteça!
— É provável que você esteja certo, mas gostaria de deixar claro que não pretendo voltar a ser noiva do príncipe Daniel.
— E por que não? Lembro que a senhorita até poucos dias atrás estava apaixonada. — Corrigindo: até poucos dias atrás eu estava muito feliz com a minha vida de solteira.
— Você ficaria surpreso do quão rápido uma decepção pode matar um sentimento. — Falei cruzando as pernas. — Principalmente quando o sentimento não é amor.
— E o que isso significa, senhorita? — Bernardo perguntou interessado.
— Eu estava apenas encantada com a ideia de está apaixonada. — Sorri. — Refletindo naquela cela percebi que não era amor o que sentia por sua alteza, e sim, uma obsessão passageira.
— A senhorita estava apenas obcecada com a ideia de está apaixonada? — Afirmei com a cabeça.
— Sim, e devo acrescentar que estou muito arrependida e envergonhada com tudo o que fiz com a senhorita Bianca. — Vamos começar com a propaganda.
Se eu me mostrar arrependida desde já, a carta de desculpas não será algo que mandei do nada. Vai ser muito mais crível assim.
— Então a senhorita se arrepende? — Bernardo falou mais para si mesmo. O olhei e a profundidade de seus olhos me surpreendeu.
Ele está zangado ou só pensativo? Fui muito precipitada?
Eu estava prestes a falar algo quando o médico bateu na porta e entrou logo em seguida.
— Boa noite, sua graça e senhorita Vont Devier. — O médico falou sorrindo.
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Atualizado até capítulo 58
Comments
Giulia Jung
Pode ser isso, mas você também tem que pensar nas opções que são ruins, por mais que possa não acontecer, você já fica esperta
2024-12-01
0
Iara Drimel
É acho que complicou tudo na sua vida. Se Daniel te quiser como não acatar sua ordem?
2025-02-21
1
Iara Drimel
Começou por acidente a se relacionar com Daniel? O uso de magia pode ser traiçoeiro
2025-02-21
1