Jorge demorou um pouco para voltar e quando ele finalmente voltou eu pude sentir o cheiro da comida antes mesmo dele aparecer, quando o vi ele estava segurando uma bandeja com comida e algumas bebidas.
Ele passou a bandeja pelo mesmo local onde me passavam a sopa branca. Me aproximei já salivando.
Eu nunca havia visto aquelas coisas antes.
Era uma refeição completa e bem colorida. Tinha um copo de suco e água também, peguei os talheres e comi o que se assemelhava ao arroz, era branco com um formato que lembrava corações.
Era doce, não, não doce... Apenas não tinha sal. Resolvi comer junto com as outras coisas do prato e parecia que eu estava no céu. Talvez fosse apenas a mesma fome que conseguia me fazer gostar da sopa branca.
O sabor era bem equilibrado, bebi o suco vermelho que também tinha um gosto exótico. Acredito que um mundo diferente também tem comidas diferentes e isso não era nem de longe uma coisa ruim.
Comi como um porco, a sociedade que me perdoe, mas eu estava morrendo de fome e aquela era a primeira refeição decente há dias.
De barriga cheia bebi a água e olhei para Jorge que quando notou o meu olhar sorriu.
— A senhorita já acabou? — Ele perguntou se aproximando.
— Sim, estava uma delícia.
Eu estava feliz agora. Sinto que nem se eu levasse um tapa agora isso poderia arruinar o meu humor.
— Que bom que gostou. Não se preocupe, cuidei para que a partir de agora os responsáveis por sua refeição façam seus trabalhos adequadamente.
Era péssimo pensar que teria que ficar mais tempo aqui, mas pelo menos agora vão me alimentar.
— Obrigada, Jorge. — Sorri e ele começou a pegar a bandeja de volta. — Você é uma boa pessoa.
— Não precisa me agradecer, qualquer um faria o mesmo. — Ele falou se afastando.
— Ah vamos lá, nem você acredita nisso.
— Tem razão. Fazer isso não estava nos meus planos também, mas por alguma razão eu comecei a pensar que você não é tão ruim assim. — Ele me olhou uma última vez sorrindo e então saiu levando a bandeja provavelmente para uma cozinha.
Eu estava feliz, as coisas pareciam estar começando a dar certo. Bernardo encontrou o veneno, Jorge virou meu amigo e agora terei refeições três vezes ao dia que não são sopas brancas.
— Tudo parece correr bem. — Falei para o nada. — Espero sair logo daqui.
Sentei na cama de ferro e como já era costumeiro, fiquei só com meus pensamentos.
...----------------...
No Palácio Rosário no quarto de Bianca se encontrava Bernardo, ele estava segurando a mão de sua irmã enquanto a observava desacordada.
Para os desinformados poderia parecer que Bianca estava apenas dormindo um sono tranquilo, mas sua pele pálida e lábios brancos denunciavam que algo estava errado.
Bernardo sempre passava muitas horas com ela, temendo que em algum momento ela poderia simplesmente parar de respirar. Os irmãos sempre tiveram uma relação próxima, como dois melhores amigos contra o mundo.
Ver Bianca naquele estado o deixava com uma raiva colossal, mas agora ele não tinha a quem destinar esse sentimento corrosivo. Lara não parecia mais ser a culpada por aquilo e apesar do que viu na gaveta de Judith, ele ainda não poderia dizer se realmente havia sido a empregada.
Guardar essa raiva sem destinatário estava o deixando angustiado. Quem ele deveria culpar? Existe alguém quem ele possa culpar? Ele mesmo por ser descuidado? Os cozinheiros? O médico que ainda não encontrou um antídoto?
— Eu vou encontrar o culpado. — Ele disse afastando a franja da testa de Bianca. — Custe o que custar, eu prometo.
— Sua graça? — Bernardo virou para olhar o médico particular de sua família.
Um homem em seus quarenta anos com cabelos grisalhos e rugas de expressão já presentes em seu rosto. Ele segurava o frasco de veneno em uma das mãos e papéis na outra.
— O que foi? — Perguntou Bernardo levantando.
— Terminei a análise do veneno que sua graça me deu. — O médico falou mostrando o frasco.
— E o resultado? — Bernardo andou rapidamente parando em frente ao médico.
— Deu positivo, senhor. É o mesmo veneno que a senhorita Bianca bebeu.
— Então foi mesmo Judith. — Bernardo falou com o desprezo nítido em sua voz.
— Sim, senhor.
— Estou saindo, certifique-se de prender Judith imediatamente. Busque a última gaveta da mesa de cabeceira no quarto dela e mande para sua alteza, o príncipe Daniel. — Bernado falou enquanto saía como um furacão.
— Aonde está indo, meu senhor? — O médico que ainda não havia dado a outra notícia correu atrás de Bernardo.
— Estou indo ver sua majestade, o imperador. — Disse e parou para olhar o médico. — Fez um bom trabalho, Doutor Kalil.
— Muito obrigado, sua graça. — Ele disse fazendo uma reverência respeitosa. — Mas existe mais uma coisa que...
Quando Kalil levantou o rosto Bernardo já havia ido.
Depois de um suspiro, Kalil voltou para o quarto de Bianca.
A outra coisa que Kalil queria contar para Bernardo era que agora ele poderia criar um antídoto eficiente para o veneno.
...----------------...
No outro dia de manhã eu acordei como sempre, mas desta vez havia um cheiro saboroso esperando por mim.
Olhei a bandeja que foi entregue e novas comidas exóticas e frescas apareceram.
Comi tudo feliz por Jorge ter realmente dado um jeito nisso. Talvez ele tenha dado um esporro nos cozinheiros e em seus amigos cavaleiros novatos? Espero que sim.
Eu olhei para o guarda que na verdade devia ser um cavaleiro. Eram sempre os mesmo, o da manhã, o da tarde e o da noite. Jorge era o da noite.
Jorge foi o único que consegui ter uma conversa - talvez porque ele seja do tipo inocente - e esses caras me odeiam muito para sequer me dirigir uma palavra a mais do necessário.
Notei que era diferente do ódio que Jorge sentia por mim no início. Não acho que poderia apazigua-los com apenas palavras. Eu não sei nem se existia uma forma de eu conseguir apazigua-los.
Eu devo esperar que todos lá fora sejam como esses dois guardas e considerar Jorge uma exceção. Sim, também preciso pensar no que vou escrever na carta de Bianca.
Devo escrever uma para Daniel também? Ele leria? Mais provável que queimasse assim que soubesse que era minha.
Outra coisa para a lista, seria bom evitar me encontrar com Daniel. Vou evita-lo a todo custo.
E com novos planos em mente eu passei a manhã e a tarde. Jorge apareceu assim que as velas foram acesas, sorrindo brilhantemente.
— Boa noite, senhorita bruxa! — Ele parecia muito feliz. — Como foi seu dia? Teve boas refeições?
— Graças a você. — Sorri de volta sendo contaminada por seu humor. — O que aconteceu no seu dia para estar tão feliz?
— Hoje é um dia de comemoração senhorita! — Jorge bateu palmas eufórico. — Para mim e para você.
Ele sorriu e se aproximou pedindo meu ouvido para contar um segredo.
— Quando eu estava vindo a caminho para meu turno, ainda no campo de treinamento... — Ele sussurrou fazendo uma pausa dramática. — Eu ouvi um dos cavaleiros seniores falar sobre uma empregada da casa do duque Rosário ter sido presa no fim da tarde de ontem.
— Judith? — Questionei com olhos arregalados, meus dias de glória estão chegando?
— Você acha que poderia ser outra pessoa? Claro que só pode ser Judith! — Ele se afastou sorrindo. — E mais uma coisa: O meu capitão me disse hoje que se eu alcançar mais um nível na minha habilidade de esgrima, eu seria promovido!
— Oh, minha nossa! — Falei totalmente tomada pelo o humor do ambiente, mas eu estava genuinamente feliz por Jorge, afinal, somos amigos agora. — Isso é ótimo!
Jorge me ajudou muito. Acredito que posso dizer que, sem ele, eu não teria conseguido.
Nós dois comemoramos o nosso provável caminho de vitória, não era certo se íamos alcançar nossos objetivos e aquela poderia ser apenas uma comemoração antecipando um desastre.
Mas estávamos felizes e eu queria me agarrar aquela felicidade.
Momentos depois, Bernardo entrou acompanhado de alguns cavaleiros do ducado Rosário.
— Boa noite, sua graça. — Jorge o cumprimentou bem mais formal e menos agitado do que normalmente fazia, assumi que era por causa dos outros cavaleiros.
Imitei Jorge e cumprimentei Bernardo.
— Boa noite, sua graça. — Me aproximei das grades depois de uma leve reverência. — O que o trás aqui?
Notei o olhar dos outros dois cavaleiros presentes no local. Eles não usavam um capacete igual ao de Jorge. Os deles cobria apenas suas bochechas e testa, o que me permitia ver nitidamente seus olhares de desprezo.
Não me ofendi, Lara fez várias coisas com a senhorita deles para merecer esse olhar.
— A senhorita já deve imaginar. — Bernardo se aproximou e abriu a minha cela. — Você estava certa.
Saí graciosamente, estava descalça e o chão estava frio, mas eu já havia me acostumado.
— Sobre Judith? — Ele fez que sim com a cabeça.
— Estou livre, então? — Eu apenas queria que ele confirmasse tudo, para que mais tarde não viesse dizer que houve algum equívoco.
— Está livre desta cela até o dia do julgamento.
Parei.
— O que quer dizer? — Tinha um mal pressentimento.
Estou livre desta cela? Quer dizer que vou ficar em outra?
— A senhorita vai ficar em um quarto no Palácio Imperial, irá para casa apenas um dia depois que acabar o julgamento. — Bernardo explicou, mas minha cabeça foi incapaz de entender.
Meu olho tremeu, parecia que estava desenvolvendo um tic novo.
— Eu vou o quê? — Perguntei pasma, meu rosto incrédulo devia estar mais pálido que a lua cheia que brilhava lá fora.
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Atualizado até capítulo 58
Comments
Iara Drimel
Está muito complicado e enrolado esse envenenamento. Bianca tinha inimigos? Como pode ninguém ajudar com um crime para uma pessoa importante como Bianca?
2025-02-20
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Iara Drimel
Lara , você é má, né? Tudo quer que de esporro ou que seja tratado pior que você. Quem tanto quer a infelicidade dos outros puxa para si também o mau
2025-02-20
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Iara Drimel
Eu também acho que deveria pedir uma carta com essa informações para qualquer imprecisão, vai saber se não muda a história novamente?
2025-02-20
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