Tenho vários amigos, Gabriel não entende

Gabriel vem falar comigo:

— Meg se você quiser, eu faço a entrega para você.

— Por quê? Você não me acha competente o suficiente para fazer?

— Não é isso, é que você continua abalada com o acidente do seu pai e nunca esteve sozinha na estrada.

Tentou segurar, mas eu me afastei e olhei para ele e disse:

— Pode ficar tranquilo, eu sou filha do meu pai e vou fazer essa entrega sem problemas, tchau.

Subi no caminhão e segui o meu caminho, sei que ele tem um pouco de razão, nunca estive sozinha na boleia, mas pelo meu pai vou fazer.

Sei todos os pontos de entrega e conheço as pessoas para as quais devo entregar as verduras. Uma hora eu ia ter que ficar sozinha, vou conseguir.

Fiz a entrega, neste meio de tempo minha tia ligou falando que meu pai quebrou a perna e deslocou o baço, vai ficar uns dias internado e depois vai para casa, mas que ela acha que vai poder guiar só dentro de uns quatro meses. 

Agora, não tem jeito, é assumir o lugar dele no caminhão e seguir com as entregas.

Parei no posto para jantar e lá está Gabriel, e vem na minha direção.

— Meg, tem notícias de seu pai.

— Ele vai ficar bem, mas não vai poder trabalhar por um tempo.

— Se você quiser, arrumo alguém para ficar no lugar dele.

— Não precisa se preocupar, eu vou tocar o caminhão, se me dá licença, preciso comer alguma coisa e tomar um banho.

“Gabriel”

Mas que mulher teimosa, nem ficando sozinha no caminhão, se abalou, mas vai perceber como é solitária a vida na estrada.

O pai dela não deixou ela fazer amizade com ninguém, o único que conversou com Meg todos esses anos fui eu.

Ela vai acabar vindo falar comigo, é só esperar.

 Mas passou por mim feito um vento e foi para o interior do restaurante, está me afastando, parece uma pedra de gelo.

Vou esperar você se acalmar, depois me aproximo para conversar, não vai conseguir fugir de mim, agora que você está sozinha, não vou desperdiçar um dia sequer, vou te conquistar.

O predador sempre pega suas presas.

“Meg”

Entrei no restaurante e fui direto comer, peguei o prato e, quando sentei na mesa, chegaram mais dois estradeiros e sentaram comigo, já tenho a resposta na ponta da língua. Se acham que, porque estou sozinha, vão mexer comigo, estão errados.

— Senhorita, somos amigos do seu pai e, se você permitir, queremos ser seus amigos.

— Continuo me acostumando a estar sozinha e não quero ter que ficar me defendendo de homens que acham que, porque estou sozinha, podem se aproveitar disso.

— Nós só queremos sua amizade e mais nada, vamos te tratar como se fosse um de nós.

— Se é assim, aceito vossa amizade.

Eles se olharam e me disseram.

Somos só o porta-voz, temos mais alguns amigos que querem ter você como amiga de estrada.

— Quer dizer, vocês foram mandados como as iscas?

— Somos os mais novos, eles acharam que você ia assustar menos do que se viessem 20 estradeiros falar com você.

— Tudo bem, eu aceito, mas se algum me ofender, eu não falo mais com nenhum.

— Você pode deixar o predador fora da nossa lista?

— Quem é predador?

— O Gabriel, ele não tem como controlar, ele é o predador. Vimos você conversando com ele.

— Então ele é o predador? Tudo bem, meninos, vamos comer e depois vocês me explicam como entro no grupo.

 Eles sentaram e começam a comer, já vi eles no trecho, são dois moleques, adoram brincar e comecei a relaxar com a conversa, contam piada e se empurram. Eu me sinto uma velha perto deles, Bob e Joy, dois irmãos que viajam juntos, fiquei tão amiga dos carinhas que saímos do restaurante rindo.

Damos de cara com um homem muito mal-humorado. Eles cumprimentam em uníssono:

— Oi, Predador.

— Oi, vocês podem ir agora.

Mas eles não desistem e Bob fala já tirando sarro:

— Você está com alguma dor, sua cara está muito feia.

Eu não aguento e começo a rir. Ele manda os meninos embora e me pega pelo braço, me arrasta até o caminhão.

Olha para mim e fala:

— Se você está procurando problemas, eu estou aqui para te ajudar.

— Gabriel, solta meu braço, eu só estava conversando com os meninos e se ofereceram para serem meus amigos.

— Eles são homens e você…….

— Eu o quê? Gabriel.

— Você é uma mulher linda e sensual, não pode sair por aí falando com qualquer um.

— Só você viu maldade no que estávamos fazendo e tem outra coisa, não banca meu pai, eu não preciso de babá.

Ele olha para mim e fica irado, me prensa no caminhão e fala:

— Posso te garantir que o que sinto por você não é nada paternal.

Me mantém presa entre seus braços e me beija, por alguns segundos fico sem ação, nunca havia sido beijada desse jeito, troquei uns selinhos com os meninos da escola, fiz a única coisa que meu cérebro consegue pensar, mordi a boca dele, no susto se afastou de mim.

Vi o sangue saindo, mas não peço desculpas, e esbravejei:

— Você ficou louco, como pode me agarrar desse jeito? Nunca te dei liberdade para isso, nunca mais fale comigo, ouviu?

Ele parece não me ouvir, só me olha e diz:

Você não gostou? Quem deveria estar reclamando era eu que saí ferido, mas vou te dizer uma coisa, pode me morder quando você quiser, adorei seu beijo.

Gabriel vai para o caminhão dele e eu subi no meu. Agora que passou a raiva e estou sozinha, comecei a lembrar da sensação da boca dele na minha.

Nem sobre tortura falarei isso para ele, mas adorei o beijo, minha nossa, que sensação boa, algum dia vou querer repetir, se possível sem a mordida, e dou risada sozinha.

O que estou pensando, me envolvendo com o predador?

Estou na rodagem já faz um mês, meu pai está se recuperando bem, minha tia cuida direitinho dele, consigo passar em casa toda sexta-feira para ver ambos e contar como estão as coisas.

Gabriel, depois do beijo, não chegou mais perto de mim, fiz amizade com todos os caminhoneiros do trecho, agora ando com o rádio amador ligado falando com meus amigos, nunca estou sozinha, tanto no café da manhã, como no almoço e no jantar, sempre estou com algum deles.

Me apelidaram de sereia e meu caminhão safira, porque todos têm apelidos no rádio amador.

Sei que Gabriel é predador e sua Scania menina, mas evito falar com ele.

Meu rádio amador vibra, lá vem conversa:

— Sereia, está na escuta?

— Estou, sim, tubarão, aconteceu alguma coisa? Precisa de ajuda?

— Não, sereia, só para saber se você vai estar na festa dos caminhoneiros hoje à noite.

Não sei se chego a tempo, se conseguir chegar, dou um toque por aqui. O rádio não para de vibrar:

— Sereia, eu também estarei lá. Rato marcando presença.

— Certo, Rato.

— Esquilo confirmando, doido para cantar com Chitãozinho e Xororó.

 -Coelho também estarei presente.

— Barriga, Ok.

— Chifrudo confirmando.

— Tá bom, gente, já entendi, vai ser uma festa e tanto vou fazer de tudo para estar com vocês, não precisa todos me avisar, certo?

— Nós te aguardamos com a safira, não se atrase.

Dou uma risada e continuo meu trabalho para dar tempo de chegar. Eles são loucos, mas são legais.

“Biel”

Como você mudou, agora anda com um bando, nem te reconheço mais, nem toca no meu nome, nem me procura mais, sereia, eles acertaram no seu apelido, você encanta os homens e depois descarta como lixo.

Vou estar nesta festa, se todo mundo tira uma lasca de você porque eu não posso, hoje te levo para o interior da minha boleia, e vou te mostrar porque meu apelido é predador.

“Meg”

Estou chegando no posto e a festa está animada, já são 20:00.

O show começa daqui a pouco, vai ser o tempo de tomar um banho e comer um salgado. Parei a safira e desci, já indo direto para o banheiro. Os meninos estão saindo do restaurante e vêm na minha direção.

Me falam:

— Meg, você conseguiu chegar.

— Sim, meninos, vou tomar um banho e comer algo e já encontro vocês lá.

— Tá bom, os outros estão todos já curtindo a festa, te esperamos lá.

Dou tchau e entrei no banheiro, tomei banho rapidinho, vesti uma roupa legal, passei meu perfume, dei uma olhada no espelho e gostei do efeito.

Quando passei pela porta indo em direção ao restaurante, Gabriel está parado bem no meio do caminho. Tento desviar dele, mas me cerca.

E fala:

— Boa noite, sereia.

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