Meu pai caiu de cima da carga, e agora?

“João”

Passei, peguei minha filha e vamos fazer nossa entrega, paramos no posto para o café da manhã, estou feliz. Faz mais de uma semana que não vejo a Scania azul.

 Sinal que não me achou, adoro a companhia da minha menina, estamos rindo e brincando, entramos no restaurante, comemos e, quando saímos na porta, lá está ele parado ao lado do meu caminhão.

 Vejo o sorriso de minha filha aumentar e passar por mim, indo na direção dele, segurei o braço dela e balancei a cabeça, negando. Ela se soltou de mim e foi ao encontro do Gabriel.

 Estende a mão e cumprimenta, ele pega a mão dela e dá um beijo. Quando dou por mim, já estou dando um soco nele, e minha filha gritando comigo como se eu estivesse errado. Esse cara abusado, como se atreve a beijar a mão dela na minha frente?

Meg toda preocupada com o folgado, pergunta:

— Biel você está bem?

 Está tudo bem, Meg, ele só está defendendo você.

_ Pai, você enlouqueceu? Ele só estava me cumprimentando.

— Vamos embora, Meg, antes que eu mate esse folgado e você fique longe da minha filha.

— Desculpa, João, mas como te disse antes, só se ela me disser para eu me afastar.

Vi Meg colocar as mãos na cintura e ficar brava, esse moleque não sabe lidar com uma mulher como a Meg.

— Vocês dois andaram falando de mim? Quem vocês pensam que são? Ninguém manda em mim. Vamos embora, pai.

— É, João, acho que ela ficou brava com a gente.

— É idiota, ela tem opinião e o gênio forte, e você acaba de nos pôr em problemas. O pior é que quem vai aguentar o furacão sou eu.

Fui em direção ao meu caminhão e subi calado, e vou tocando, vejo ela se acalmando e tento conversar.

— Filha, me escuta, não tentei mandar em você, só quero o seu bem.  Ele é um caçador e você é a caça.

— O senhor mudou toda a rota para me afastar dele, não foi?

— Sim, foi, mas só porque quero um futuro melhor para você.

— Escolho meu destino, e o senhor tem que entender isso, não sou sua propriedade, sou sua filha, não vou deixar ninguém fazer escolhas por mim. 

— Tudo bem, então me promete que vai tomar cuidado, que aquele cara não vai te confundir?

— Prometo e pode ficar tranquilo que sei lidar com ele, amanhã voltamos para nossa rota.

— Vou confiar em você e na criação que te dei.

— Confie no que minha tia me ensinou, porque na sua criação eu já estaria dentro daquela boleia.

— Nossa filha!  Fiquei magoado.

— Não foi assim com minha mãe? Mas fique tranquilo que não sou ela e vou mostrar para aquele moço que aqui a porca torce o rabo.

Fui criada na estrada, sei bem lidar com esse tipo de homem.

“Meg”

Como que ele pode falar com meu pai antes de falar comigo?

O que ele pensou?

“Convenço o pai dela e ela vem comigo”

 Pois você cometeu um erro.

Agora vai ter que me conquistar e não vou facilitar sua vida, só porque você é bonito e gostoso e tem uma Scania azul linda.

Os dias vão passando, eu continuo na estrada com meu pai e estudando muito porque as provas para entrar na faculdade chegaram.

Gabriel, cada vez que me vê, vem feito um urubu na carniça, só que dessa carniça ele não vai provar tão facilmente.

Agora tenho carta, já peguei o caminhão e a emoção foi tanta que quase bati em outro que estava parado no posto. Adoro sentir a força do motor roncando cada vez que viro a chave, e quando saio então. 

Por enquanto, meu pai só me deixa manobrar no pátio do posto. 

Um dia estava manobrando e vi a Scania azul chegando, ele parou, desceu e ficou olhando eu dirigindo o caminhão. Quando parei e desci, Biel veio falar comigo.

— Meg quando você quiser sentir a força do meu trucão é só pedir!

— A oferta é tentadora, mas prefiro guiar o trucão do meu pai.

— Você quer tomar um café comigo?

— Não, Biel, estou querendo ficar sozinha.

— Entendi, está me dispensando. Tem medo do seu pai, mas uma hora você vai esquecer o medo e vai cair de boca nesse corpinho. 

— Mas, como você é convencido, não tenho medo do meu pai, só não quero falar com você, pode me dar licença?

Virou as costas e saiu chateado, mas não vou dar mole, se ele achou que ia ser fácil, se enganou.

Meu pai vem e continuamos nosso caminho, fazemos a entrega e ele me deixa chegar em casa guiando o caminhão.

Minha tia está chorando, não sei se de emoção ou tristeza de me ver guiando.

Mas prefiro pensar que é de emoção.

Entramos em casa e fico até mais tarde com eles, porque vou ficar três semanas sem poder ir com meu pai.

Porque as provas da faculdade são de final de semana, mas depois disso só volto ano que vem e, se eu passar, resolvi ir dormir e deixar ambos namorar. Me despeço de meu pai e dou boa noite para minha tia, vou para o quarto.

Ouço ele saindo às 04:00 da manhã e voltei a dormir. Às 07:00, comecei meu dia de estudo e assim vai à semana inteira e final de semana prova, e durante três finais de semana faço do mesmo jeito.

Mas quando amanhece a segunda-feira do último final de semana, quando ouço meu pai, já estou de pé e saio do quarto já com minha mochila e dei de cara com os dois se beijando. Meu pai tenta se explicar.

— Não é nada disso que você está pensando, Meg.

— Para pai! Eu já sei há anos, mas vocês quiseram continuar escondido, eu deixei.

Virei para minha tia e falei:

— Tia, você já é minha mãe, então para mim está tudo normal. Vamos, pai, senão vamos nos atrasar.

Virei e fui na direção do caminhão. Eles aproveitam para se dar outro beijo.

E vi meu pai subir no caminhão todo sem graça. Preferi não falar no assunto, liguei e seguimos nosso caminho comigo no volante.

Demorou mais que o normal para carregar, meu pai está incomodado com o jeito que o rapaz novo amarrou, as cordas da carga não parecem firmes.

Paramos no posto e meu pai resolveu subir na carga para arrumar.

— Filha, vou subir e você me ajuda daqui debaixo, precisamos arrumar os pontos de apoio senão vai escapar na rodovia.

— Certo, mas toma cuidado, a carga está frouxa.

Vejo meu pai subindo e me dá um frio na espinha, mas fico firme, amarramos o primeiro lance, quando ele muda o pé para frente, desequilibra e cai.

Tudo aconteceu tão rápido, que quando dou por mim, Gabriel está ao meu lado chamando a ambulância e meu pai está no chão desacordado.

— Pelo amor de Deus, fala comigo, pai.

— Meg não mexe com ele, pode piorar as fraturas, olhei para cima e Gabriel está falando comigo.

Meu pai começa a gemer, olhei para ele e devo estar chorando muito porque ele tenta enxugar meu rosto.

— Fica calmo, pai, a ambulância já está chegando.

— Meg cuida da nossa entrega, entendeu?

Enxuguei minhas lágrimas e prometi para ele que vou fazer a entrega, liguei para minha tia e falei para ela ir ao hospital.

 Esperei a ambulância sair com ele e fui ao banheiro me acalmar, fechei os olhos, respirei fundo, me acalmei e voltei.

Olhei para a carga mal amarrada e aproveitei que estão todos à minha volta e pedi ajuda. Em poucos minutos, eles consertam a amarração e estou pronta para seguir meu caminho.

Vou fazer isso, pai, te prometi e vou dar conta, não se preocupe.

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Rosângela Dias Lopes

Rosângela Dias Lopes

Amando a história

2025-03-29

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