Duas Vidas, Dois Destinos

Duas Vidas, Dois Destinos

Introdução

Meu pai é caminhoneiro desde que me conheço por gente, no começo viajava eu, ele e minha mãe. Mas, em um dia chuvoso, sofremos um acidente e minha mãe faleceu. Meu pai ficou um bom tempo perdido, me largou com Tia Ema (irmã da minha mãe) porque eu tinha 10 anos e ele achou que assim estava me salvando, mas só conseguiu fazer com que eu me sentisse mais órfã do que já estava.

Caiu na estrada, aparecia ocasionalmente, me visitava e trazia dinheiro, mas não conseguia ficar muito, sempre chorava quando estava comigo porque eu lembrava muito a minha mãe.

 Mas o que ele não entende é que amo a estrada, falo para todos que não, mas sei diferenciar até o barulho da troca de freio do caminhão à distância, claro, porque se chegar perto de um caminhão, minha tia pira.

Quando fiz 15 anos, ele estava no Maranhão, me ligou me dando os parabéns. Estava tão brava com ele que desliguei o celular. Eu queria que ele estivesse aqui, que me chamasse para viajar com ele, mas não só sabe me deixar longe.

— Meg você não devia tratar seu pai assim, ele te ama, só não consegue superar a perda da sua mãe.

— Tia, ele me abandonou aqui como se eu fosse uma panela, não vou perdoar ele nunca. No dia do acidente, fiquei órfã e devo minha vida para a senhora que me criou, e continua comigo.

— Ele se sente culpado, e você é a cara de sua mãe, ele te vê e lembra de tudo.

Perdi o controle e acabei falando demais.    

— Ele vai ver só, quando eu fizer 18 anos, vou encontrar com ele na estrada, vou virar caminhoneira. Se esse é o pior pesadelo dele, então vai se tornar real.

— Meg você deve estudar e ter uma profissão decente. Se minha irmã escutar você falando assim, vai se revirar na tumba. 

Para não assustar minha tia, faço cara de anjo e minto: 

— Estou brincando, tia, acha que vou querer ser caminhoneira? E sofrer nas estradas com saudades de você?

— Isso mesmo, não me larga sozinha aqui, eu quero ver você formada e trabalhando bem perto de mim.

“Ema”

Preciso falar com o João, preciso que ele venha tentar convencer a Meg de que essa vida na estrada não é para ela. Sei que as lembranças que ela tem são de uma criança, e que boa parte é só imaginação dela, mas se ele não vier convencê-la, não sei o que vai ser.

Maria vice tinha que ter deixado seu lado, Maria gasolina no sangue da sua filha? Agora, quem tem que contornar sou eu.

Ligo… o celular toca até cair, ligo de novo, João atende.

— Alô, aconteceu alguma coisa com a Meg.

— Bom dia para você também, João.

— É alguma coisa importante? Se não for, estou desligando, tive que parar na beira da rodovia para te atender.

— É sobre sua filha, preciso falar com você urgente.

— Tá bom, a noite, na hora que eu parar no posto, te ligo, tchau.

Nossa! Como ele sabe ser mal-educado, mas tem uma voz que faz a gente arrepiar, desculpa, Maria, mas seu marido poderia ser locutor de rádio.

Quando briguei com minha irmã, nunca imaginei que minha vida fosse mudar tanto.

Maria saiu de casa querendo me provar que sabia cuidar de si mesma, e voltou me provando o tanto que era imatura, saiu com um caminhoneiro e conseguiu engravidar dele.

Depois de um mês, ela já estava casada com ele e morando em um caminhão, saiu de casa, ficou brigada comigo e só voltou porque João achou melhor ela ficar aqui no último mês de gravidez.

 Porque na estrada é difícil, médico, ficou aqui só o suficiente, a bebê tinha dois meses e eles foram embora para aquela vida errante.

“João”

Minha menina já tem 15 anos. Cada vez que vejo Meg lembro de minha mulher. Nossa, como é difícil voltar e ver aqueles olhos que me lembram tanto o amor da minha vida.

Lembro da primeira vez que vi Maria, atrás do balcão, tão linda, parecia até uma modelo dessas de capa de revista, passei a parar toda semana e comprar um guaraná que nem bebo, só para vê-la. Mesmo parecendo que sou invisível, mas de repente tudo mudou, quando entrei, vi ela me olhando, fiquei encabulado, mas parece que a deusa dos caminhoneiros resolveu jogar um anjo na minha rede.

Peguei meu refrigerante como sempre e fui até ela, entreguei o dinheiro para cobrar o refrigerante e ela falou comigo.

— Tudo bem? Posso saber seu nome?

— João Ricardo, e o seu?

— É, Maria, você vai ficar para a festa do irmão caminhoneiro à noite?

— Acho que sim, faltam só algumas horas.

— Então, João, a gente podia ir junto.

— Claro, venho te pegar às 17:30.

 — Tá bom, te encontro na frente do restaurante.

Sai com meu guaraná já pensando no que fazer.

Você ficou louco, João, a festa é só à noite, o que você vai dizer para o patrão? Vou ligar e dizer que preciso tirar sangue, é isso, nem é uma desculpa, eu preciso mesmo.

O patrão atendeu:

— João, está tudo bem? O caminhão quebrou?

— Tá tudo bem, patrão, estou no posto onde vai ter a festa do irmão caminhoneiro e resolvi ficar.

— Mas João, a festa é só à noite, dava para você estar aqui de volta.

— Vou ficar, preciso do exame de sangue feito no evento.

— Mas se você vier, eu te libero amanhã para você fazer o exame.

— Prefiro ficar, patrão.

— Olha, não sei o que está te acontecendo, mas toma cuidado para não cair em nenhum golpe.

— Pode deixar, patrão, não vou prejudicar sua carga em nada.

— Se cuida, João. Tchau.

— Tchau, patrão.

O jeito é ir dormir, porque o dia é longo e a festa é só à noite.

Fiquei no caminhão até às 16:00, depois tomei banho e coloquei minha melhor roupa, e quando chegou perto das 17:30, parei na frente do restaurante esperando Maria.

“Maria”

Estou no caixa ainda remoendo a briga que tive com minha irmã, vou provar para ela que dou conta de cuidar de mim, ouço o barulho da porta abrindo e vem entrando um caminhoneiro.

Acho que tem a minha altura e parece esses caras de academia. Fiquei encarada nele e percebeu.

Vi que ficou desconcertado, vou tentar falar com ele, dei um sorriso, encarei e comecei a paquerá-lo descaradamente, ele se aproximou, pagou um guaraná que havia pegado na geladeira, em um impulso convidei ele para sair à noite.

Acho que deu certo, ele aceitou e disse que falta pouco tempo, são 13:00 e vamos sair às 18:00, se para ele é pouco tempo, beleza.

Chegou a noite, vou ao banheiro, solto meus cabelos e tirei o uniforme do posto, coloquei uma roupa que levo junto, passo um batom vermelho e uso meu perfume de sempre.

“Vamos lá, garota, você consegue.”

Quando cheguei na porta, ele está do lado de fora me esperando. Meu Deus, se todo caminhoneiro fosse bonito assim, eu estava perdida. Vou até ele e o cumprimento com um beijo no rosto.

Ele sobe as mãos, enfia nos meus cabelos e desliza, deixando meus cabelos escorrendo no meio de seus dedos. Antes de acabar de sair, ele leva no nariz e cheira. E diz:

— Você está linda, e seu cabelo me deixa hipnotizado.

— Você também está bonito, João. Falo tímida e tenho certeza de que fiquei vermelha.

— Vamos, João, o show já vai começar.

— Hoje é Cezar e Paulinho, você gosta?

— Gosto, sim, João. 

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Comments

Vanildo Campos

Vanildo Campos

que linda a história deles ❤️❤️❤️❤️

2025-04-02

1

Marilene Lena

Marilene Lena

Começando 01/04/25

2025-04-02

1

Dulce Gama

Dulce Gama

começando 25/03/25

2025-03-25

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