Narrado por Lorenzo Morreti.
O peso da terra caindo sobre os caixões parecia o som mais ensurdecedor que eu já tinha ouvido. Era o fim de uma história. O fim de duas vidas que foram arrancadas cedo demais.
Minha respiração estava pesada, meus olhos fixos no chão recém-coberto, quando senti uma mão forte apertar meu ombro.
Era uma mão familiar. Uma mão que eu não sentia há anos.
Ergui a cabeça e virei um pouco o rosto. Lá estava ele: Giulio Morreti, meu pai.
Alto, postura impecável, cabelos grisalhos perfeitamente penteados. Seus olhos azuis estavam firmes, mas havia algo diferente neles. Talvez um resquício de dor, talvez um traço de respeito pelo momento.
E não estava sozinho. Ao seu lado, minha mãe, Dalila Morreti, seus cabelos castanhos presos em um coque elegante, os olhos castanhos marejados. Mesmo depois de anos sem contato, ainda tinha aquele olhar acolhedor de mãe.
E atrás deles, meus irmãos: Caetano e Diogo.
Caetano, o mais velho, sempre sério, sempre carregando a responsabilidade da família nos ombros. Seu terno preto estava impecável, assim como sua barba bem feita. Ele acenou levemente com a cabeça para mim, um gesto mínimo, mas que significava muito vindo dele.
Diogo, o mais novo, parecia mais desconfortável. Mexia nos punhos da camisa social como se quisesse estar em qualquer outro lugar. Seu cabelo loiro estava um pouco bagunçado, mas seu olhar carregava algo que eu nunca tinha visto antes: preocupação comigo.
Minha mãe deu um passo à frente e me envolveu em um abraço apertado.
— Meu filho. — sua voz era baixa, cheia de sentimento.
Fechei os olhos por um momento, tentando absorver aquele contato que há anos não acontecia.
Depois de alguns segundos, me afastei um pouco e olhei para o meu pai.
— Os pais do Lucca… Eles não vieram?
O semblante do meu pai ficou mais sério.
— Seu tio se recusou a vir. Ele queria que o filho fosse enterrado na Itália, mas você negou.
Soltei um suspiro pesado.
— Porque eu sabia que era isso que Lucca queria. Ele queria descansar ao lado da Emilly, perto dos pais dela.
Meu pai assentiu lentamente. Não parecia feliz com minha decisão, mas também não discutiu. O que já era um milagre.
Caetano quebrou o silêncio.
— Se precisar de algo, Lorenzo… Estamos aqui.
Arqueei a sobrancelha.
— Estamos?
Ele respirou fundo.
— Pelo menos nesse momento, sim.
Pisquei algumas vezes. Aquilo parecia irreal.
Uma trégua temporária.
Por mais breve que fosse, eu aceitaria.
O silêncio pairava sobre o cemitério enquanto eu encarava minha família. O dia estava azulado, o ar pesado, carregado de emoções que nenhum de nós parecia saber como expressar.
— Eu não esperava ver vocês aqui. — minha voz saiu rouca, e eu passei uma mão pelo rosto, tentando afastar o cansaço.
Meu pai manteve sua postura rígida, as mãos cruzadas nas costas, como se estivesse analisando a situação antes de responder.
— Lucca era família.
Soltei uma risada amarga.
— Família? Você não falava com ele há mais de dez anos.
Caetano pigarreou, e minha mãe lançou um olhar repreensivo para meu pai, como se dissesse para ele não começar uma briga ali.
— Ainda assim, é uma perda para todos nós. — minha mãe interveio, sua voz suave, mas firme. — Sabemos o que Lucca significava para você, Lorenzo.
Meus olhos desviaram para o túmulo recém-fechado, o nome dele e de Emilly gravados na lápide. Minha garganta apertou.
— Não é só uma perda para mim. Dayse perdeu os pais. Ela só tem a mim agora.
A expressão do meu pai endureceu, mas minha mãe levou uma mão à boca, chocada.
— A pequena Dayse… Ela ficou sozinha?
— Não está sozinha. — minha voz saiu firme, sem hesitação. — Ela tem a mim.
O olhar do meu pai se estreitou.
— E o que você pretende fazer? Criá-la?
— É exatamente isso que eu vou fazer.
— Lorenzo… — Caetano suspirou, esfregando a têmpora. — Você sabe que isso não é simples. Criar uma criança exige responsabilidade, estabilidade. Você tem um trabalho que consome seu tempo, uma vida agitada.
— E vocês acham que eu vou simplesmente abandoná-la? — cruzei os braços, sentindo a irritação crescer.
Meu pai soltou um suspiro longo, pesando as palavras antes de falar.
— Apenas pense com racionalidade. Podemos encontrar uma solução melhor para ela. Deixar ela com os avós
Senti o sangue ferver.
— Ela não é um problema para ser resolvido. É uma criança que perdeu tudo! E Lucca não queria que ela ficasse com seus pais.
O silêncio caiu entre nós.
Minha mãe deu um passo à frente e pousou uma mão no meu rosto, como fazia quando eu era criança.
— Se essa é a sua decisão, Lorenzo, eu sei que você fará o melhor por ela.
Fechei os olhos por um segundo, absorvendo aquelas palavras.
Mas então, meu pai interveio.
— Se for seguir com isso, precisará de suporte. E apoio financeiro.
Soltei uma risada sem humor.
— Eu não preciso do seu dinheiro.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Tem certeza? Criar uma criança exige muito mais do que boa vontade.
Fiquei em silêncio por um momento. Eu sabia que ele tinha razão.
Mas eu não aceitaria nada vindo dele.
— Eu vou me virar.
Meu pai me encarou por um longo tempo antes de finalmente assentir, como se reconhecesse que não adiantaria argumentar mais.
— Muito bem. Mas lembre-se, Lorenzo… Assumir essa responsabilidade significa abrir mão de muitas coisas.
Eu já sabia disso.
E mesmo assim, não hesitaria.
Dayse precisava de mim.
E eu nunca abandonaria a minha família.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Adriana Marques
estou amando a história não demora muito pra atualizar os capítulos por favor
2025-03-23
1
Izilda Dourado
aí autora volta aqui por favor mas mas mas mas mas mas mas mas mas capítulo por favor parabéns que capítulo muito bom más mas mas capítulo muito mais.
2025-03-23
1
Helena
que povo estranho.os país do Lucca nem vieram dar um último adeus. o que será que aconteceu ? pq o Lucca e o Enzo se mandaram??
2025-04-03
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