Nunca pensei que passaria por isso.
Eu tinha acabado de chegar em casa depois de um dia cansativo no escritório quando meu celular tocou. Atendi sem pensar, acreditando que fosse algo banal. Mas a voz do outro lado da linha destruiu qualquer resquício de normalidade no meu dia.
Um acidente.
Meu primo Lucca e sua esposa, Emilly, estavam no hospital.
Saí de casa às pressas, com o coração disparado encontrei com Samuel na entrada do prédio ele era meu vizinho e então ele foi comigo. Enquanto Samuel me acompanhava em silêncio. Ele dirigia, mas eu mal percebia a estrada. Minha mente estava em um turbilhão. Isso não podia estar acontecendo.
Quando chegamos ao hospital, tudo parecia um borrão. Médicos, enfermeiros, barulhos de monitores... Eu nem conseguia entender direito o que diziam. Só uma frase ficou clara na minha mente, uma frase que me perfurou como uma lâmina:
— Sinto muito, senhor Moretti. Seu primo e a esposa não resistiram.
A ficha não caiu na hora. Meu corpo ficou frio, minha respiração travou. Como assim? Eu tinha visto Lucca e Emilly ontem. Estávamos rindo, conversando. Ele me chamou para jantar com eles. E agora eles estavam... mortos?
— Lorenzo... — Samuel chamou meu nome, colocando uma mão no meu ombro. Mas eu não conseguia reagir.
Foi quando, com um peso insuportável no peito, fiz a única pergunta que minha mente conseguia formular:
— E a Dayse?
A enfermeira hesitou por um momento, antes de dizer:
— Ela sobreviveu. Está na enfermaria.
Meus joelhos quase cederam. Um alívio tomou conta de mim, mas foi logo esmagado pela dor. Dayse tinha só cinco anos. Como ela ia entender que seus pais nunca mais voltariam?
Segui apressado pelo corredor, quase tropeçando nos próprios pés. Quando entrei na enfermaria, meus olhos imediatamente buscaram a garotinha.
E foi aí que eu a vi.
Deitada em uma maca, sua cabeça repousando no colo de alguém.
Ruby.
Ela estava lá, segurando a pequena mão de Dayse, sussurrando algo para acalmá-la. A garotinha soluçava, mas parecia confiar na presença dela.
— Dayse!
Minha voz saiu embargada e desesperada.
A menininha virou o rosto, os olhos cheios de lágrimas, e assim que me viu, seu pequeno corpo se impulsionou para frente.
— Tio Enzo!
Corri até ela, e Dayse praticamente se jogou nos meus braços. Eu a segurei com força, sentindo seu corpinho tremendo contra o meu.
— Meus papais — sua voz saiu fraca, embargada pelo choro.
Meu coração se despedaçou.
Como eu podia dizer isso a ela? Como eu podia olhar para aquela carinha inocente e dizer que seus pais não voltariam?
Ruby olhou para mim, seus olhos expressavam a mesma dor que eu sentia. Ela passou a mão nos cachos de Dayse, tentando acalmá-la.
— Dayse, querida... — Ruby começou, com uma voz suave.
Mas a garotinha já sabia. Eu vi nos olhos dela.
— Eles não vão voltar, né?
Um soluço escapou de sua garganta.
Abracei-a com mais força.
— Não, meu amor... Não vão...
Ela começou a chorar de novo, agarrada a mim como se sua vida dependesse disso.
Meu coração estava em pedaços. Mas eu não podia desmoronar. Não na frente dela, quando ela conseguiu dormir um pouco fui para um canto com a Ruby
Samuel apareceu na porta naquele momento, sua expressão carregada de tristeza.
— Lorenzo... Precisamos ir.
Ergui o olhar para ele.
— Ir para onde?
— Reconhecer os corpos. Organizar o funeral.
Meu estômago revirou.
Eu não queria fazer isso. Eu não queria ver Lucca e Emilly assim.
Mas eu precisava.
Fechei os olhos por um momento, tentando me recompor.
— Eu não posso deixar a Dayse sozinha.
— Eu fico com ela.
Virei o rosto e encarei Ruby.
Ela estava séria, determinada.
— Ruby, eu...
— Vai, Lorenzo. Eu prometo que vou cuidar dela até você voltar.
Ela segurou a mão de Dayse com delicadeza, como se reforçasse sua promessa.
Engoli em seco, então beijei a testa da minha sobrinha.
— Eu volto logo, meu amor.
Ela não respondeu, apenas me abraçou mais forte.
Ruby assentiu para mim.
— Vai.
Dei um último olhar para as duas antes de sair.
Cada passo que eu dava em direção àquela realidade que eu não queria enfrentar parecia um soco no estômago.
Mas eu precisava ser forte.
Por Dayse.
O caminho até o necrotério foi o mais longo da minha vida. Cada passo que eu dava parecia me arrastar para um buraco mais fundo de dor e desespero. Samuel caminhava ao meu lado, em silêncio. Ele sabia que não havia palavras que pudessem diminuir o que eu estava sentindo.
Quando chegamos à sala gelada e iluminada artificialmente, um funcionário do hospital nos recebeu com um olhar grave.
— O senhor está pronto? — ele perguntou.
A pergunta era ridícula. Como alguém pode estar pronto para reconhecer o corpo de um irmão?
Engoli em seco e assenti.
Ele puxou a cortina, revelando os dois corpos cobertos por lençóis brancos. Meu coração parou por um segundo.
— Lorenzo... — Samuel sussurrou, colocando uma mão no meu ombro.
Eu inspirei fundo e dei um passo à frente.
O funcionário puxou o lençol primeiro do corpo de Lucca.
Minha visão ficou turva.
Meu primo... Meu irmão de consideração...
Ele parecia estar dormindo. Mas a palidez e os cortes em seu rosto me diziam o contrário.
Minha mente se encheu de lembranças. O jeito que ele ria quando fazíamos alguma besteira na adolescência. As noites que passávamos acordados planejando o futuro. A forma como ele me apoiou quando decidi me mudar para Londres com ele.
Minha garganta queimava.
Eu queria dizer algo. Mas o que se diz em um momento desses?
A dor me consumia.
— É ele. — minha voz saiu rouca.
O funcionário assentiu e puxou o lençol sobre o rosto de Lucca novamente.
Então, ele foi até Emilly.
Quando revelou o rosto dela, senti um nó no peito.
Emilly sempre foi um raio de luz. Seu sorriso era constante, sua alegria era contagiante. Ela fazia Lucca feliz. Ela era mãe da Dayse.
E agora estava ali.
Mortos.
Os dois.
A vida era injusta.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu segurei.
Não podia desmoronar.
— É ela também. — murmurei.
O funcionário assentiu e cobriu Emilly novamente.
— Sinto muito pela sua perda, senhor Moretti.
Não respondi. Apenas virei as costas e saí da sala.
Samuel me seguiu, sem dizer nada.
Assim que saímos do necrotério respirei fundo, tentando me recompor.
— Temos que organizar o funeral. — minha voz estava dura, fria.
Samuel assentiu.
— Vou ligar para os serviços funerários e cuidar dos trâmites. Você quer que eu entre em contato com a família na Itália?
Fechei os olhos por um momento.
Minha família...
Meu pai nunca aprovou minha mudança para Londres. Nem a de Lucca. Mas agora... agora isso não importava.
Peguei o celular e disquei o número da minha casa na Itália.
Demorou alguns toques até alguém atender.
— Pronto.
A voz grave do meu pai ecoou no outro lado da linha.
Engoli em seco.
— Pai...
— Lorenzo? O que foi?
Havia impaciência na voz dele. Mas assim que soltei as palavras seguintes, o silêncio tomou conta.
— O Lucca morreu.
A linha ficou muda.
Por um momento, achei que ele tivesse desligado.
Então, ouvi um suspiro pesado.
— O quê?
— Ele e Emilly sofreram um acidente de carro. Não resistiram.
O silêncio voltou.
Então, a respiração do meu pai ficou pesada, e ouvi um ruído abafado.
— Vamos para Londres. — ele disse, depois de um longo momento. — Não importa o que houve entre nós. Lucca era família.
Assenti, mesmo sabendo que ele não podia me ver.
— O funeral será amanhã.
— Estaremos aí.
Ele desligou.
Eu fiquei parado ali, com o celular na mão, sentindo o peso de tudo desabar sobre mim.
Samuel colocou uma mão no meu ombro.
— Vamos resolver isso.
Assenti e comecei a andar.
Mas, no fundo, só queria voltar para o hospital.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Helena
que tristeza.horrivel isso.o Lucca era o irmao gêmeo do Leandro? será?
2025-04-01
3
Helena
nem da pra imaginar o qto ele tá sofrendo.bom que tem a Ruby e o Samuel pra dar forças nesse momento
2025-04-03
0
Claudia
Essa é a parte mais difícil 😥😥😥😥😥🧿♾
2025-03-19
4