Narrado por Ruby Evans.
Ficar no hospital foi a melhor decisão. Não valia a pena ir para a casa do meu pai e ter que voltar de manhã. Além disso, eu queria aproveitar mais tempo com eles, já que nos víamos tão pouco.
Meu pai, claro, reclamou.
— Vocês acham que estou morrendo? Eu só torci o pé!
— Sim, pai. Você vai morrer. De teimosia. — Tomaz revirou os olhos.
— Ei, respeito! Eu sou seu pai!
— E eu sou seu filho. E estou aqui para garantir que você não suba escada atrás de pencas de banana.
Minha madrasta riu enquanto colocava as marmitas na mesinha do quarto. Ela sempre trazia comida caseira, porque segundo ela, comida de hospital era só um experimento científico para testar a resistência humana.
— Almoço na cama, hein, pai? — provoquei. — Que vida boa!
— Vida boa? — Ele bufou. — Estou preso nessa cama feito um velho inválido!
— Pai, você tem cinquenta e oito anos. Isso já te coloca no grupo de risco.
— Grupo de risco é a sua cara de pau!
Tomaz gargalhou e se serviu da comida antes que eu tivesse chance. O garoto de 17 anos era um aspirador de comida.
— Sério, Tomaz, você come para um time de futebol inteiro.
— Crescimento. — Ele deu de ombros, a boca cheia de arroz.
— Que crescimento? Você já tem um metro e oitenta! Para de roubar centímetros meus!
Meu pai riu, mas logo fez uma careta ao tentar se mexer na cama.
— Velho teimoso, disse para não se mexer tanto. — minha madrasta reclamou, entregando um prato para ele.
Enquanto comíamos, aproveitei para olhar bem para o meu pai. Ele estava mais grisalho do que da última vez que o vi, e as linhas de expressão estavam mais marcadas. Mas seus olhos ainda tinham aquele brilho determinado de sempre.
Ele trabalhou muito para me criar depois que minha mãe morreu quando eu tinha sete anos. Criar uma criança sozinho e ainda tocar a fazenda não foi fácil, e eu sabia disso. Era por isso que fazia questão de enviar dinheiro para ele todo mês e garantir que tivesse o melhor plano de saúde possível.
— Então, Ruby… — Meu pai limpou a boca e me olhou de um jeito suspeito. — Já superou o amorfa… amorfa…
— Amorfadinha? — Tomaz completou, segurando o riso.
— Isso! Esse daí!
Soltei um suspiro dramático.
— Eu prefiro nem lembrar que ele existe.
Meu pai sorriu satisfeito.
— Isso aí. E tem pretendentes novos?
Arregalei os olhos.
— Pai!
— O quê? Você ainda é jovem, bonita…
— E ocupada. Sem tempo para essas coisas.
Tomaz pigarreou e sorriu malicioso.
— Hmm… Sei não.
Acertei um guardanapo nele.
— Qual é o problema de vocês?
— Só estamos preocupados com seu futuro. — Meu pai fez cara de inocente. — Quero netos antes de virar um velho caquético.
— Pai, sua prioridade devia ser parar de cair de escadas.
— Eu sou um homem ativo!
— Ativo demais. — murmurei.
Depois do almoço, ficamos conversando mais um pouco. Eu realmente sentia falta disso, da minha família, da tranquilidade do interior. Londres era incrível, mas às vezes era solitária.
Tomaz começou a contar sobre as últimas fofocas da cidadezinha, incluindo um caso de um vizinho que plantou abóboras gigantes e estava convencido de que tinha um dom especial.
— Ele jura que fala com as plantas.
— E elas respondem?
— Pior que ele disse que sim. Mas só quando ninguém está olhando.
Eu gargalhei alto, quase derrubando o copo de suco.
Ficar ali, rindo com minha família, me fez perceber o quanto sentia falta deles. E o quanto precisava dessas pequenas pausas da minha vida corrida.
Mas, no fundo, também sentia falta de algo mais… ou melhor, de alguém.
E isso me preocupava.
O hospital estava silencioso, exceto pelos passos apressados dos enfermeiros e pelo barulho dos monitores nos quartos. Meu pai descansava depois do almoço, e minha madrasta estava ao lado dele. Tomaz tinha saído para passear, mas eu não estava com vontade.
Saí do quarto e caminhei sem rumo pelos corredores, olhando distraída para o celular. Meus dedos deslizaram pela tela e, sem perceber, procurei o número de Lorenzo. Só que me dei conta de que não o havia salvo, e o cartão dele estava na minha outra bolsa.
Suspirei, frustrada. Por que diabos eu estava pensando nele agora?
Antes que pudesse continuar com meus devaneios, um som cortou o silêncio do corredor.
Um choro infantil.
Alto, desesperado.
Meu peito apertou instantaneamente. Aquele choro não era apenas de birra. Era um choro de dor, de medo, de desespero.
Segui o som instintivamente, sem nem pensar. Meu coração batia mais rápido, como se algo dentro de mim soubesse que eu precisava ir até lá.
Ao virar o corredor, cheguei a uma ala com várias macas e pacientes. No meio delas, uma menininha pequena, de no máximo quatro anos ou cinco anos, chorava inconsolável.
Ela tinha cachinhos dourados que caíam desajeitados ao redor do rosto redondinho e branco. Os olhos grandes estavam vermelhos de tanto chorar, e, mesmo soluçando, vi que tinha uma covinha adorável na bochecha.
Meu peito apertou ainda mais quando ouvi a conversa de dois enfermeiros que estavam um pouco afastados.
— O acidente foi há uma hora. Os pais dela morreram na batida.
Senti meu estômago despencar.
— Ela foi a única sobrevivente. Estamos tentando contato com algum familiar, mas até agora, nada.
— Ela está completamente sozinha?
— Sim.
Meus olhos foram da enfermeira para a garotinha, que se encolhia na maca, apertando um bichinho de pelúcia contra o peito enquanto chorava baixinho.
Uma dor antiga me atingiu como um soco.
Eu sabia o que era perder a mãe.
Eu sabia o que era sentir que o mundo desmoronava ao seu redor e não entender por quê.
Sem pensar, me aproximei devagar.
As enfermeiras estavam tentando acalmá-la, mas sem sucesso. Elas pareciam aliviadas quando me viram ali.
Me abaixei ao lado da maca, ficando na altura da menina.
— Oi, princesa. — falei suavemente.
Ela soluçou e olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas.
— Qual é o nome do seu bichinho?
A menininha apertou o bichinho contra o peito.
— M-Milo.
— Que nome bonito! Você sabia que tem uma história mágica sobre um coelhinho chamado Milo?
Ela piscou para mim, ainda fungando, mas pareceu curiosa.
— Tem?
— Tem! Eu conheço essa história desde que eu era pequena. Quer que eu te conte?
Ela hesitou, mas assentiu, ainda segurando o bichinho com força.
Sorri e comecei a inventar uma história sobre um coelhinho aventureiro chamado Milo, que morava em uma floresta encantada e queria encontrar o caminho para casa.
Conforme eu falava, a menininha foi acalmando. Os soluços diminuíram, e ela até passou a brincar com uma das mangas do meu casaco, distraída.
No meio da história, ela olhou para mim e disse baixinho:
A vozinha doce da menina me atingiu em cheio.
— Você pode ficar comigo? Eu estou com medo.
Ela apertou ainda mais o bichinho de pelúcia contra o peito, os olhinhos grandes e suplicantes me encarando.
Respirei fundo, sentindo uma mistura de emoções que não conseguia explicar.
— É claro que posso, princesa.
Ela me lançou um sorriso tímido e fungou, ainda com os olhinhos vermelhos.
As enfermeiras se entreolharam, surpresas com a minha abordagem, e uma delas se aproximou.
— Você é parente da criança?
Engoli em seco. Eu sabia que essa pergunta viria.
— Não... Eu só... — olhei para a menininha, que ainda me segurava como se eu fosse sua única âncora no mundo. — Não consegui ignorar o choro dela.
A enfermeira suspirou, cruzando os braços.
— Ela precisa fazer alguns exames, mas não conseguimos contato com nenhum responsável. A assistente social do hospital está tentando localizar algum parente.
A menininha enterrou o rostinho no meu ombro, me segurando como se eu fosse a única pessoa confiável ali.
Suspirei.
— Eu fico com ela até encontrarem alguém.
A enfermeira arqueou as sobrancelhas.
— Tem certeza?
Olhei para a garotinha, sentindo um aperto no peito.
— Sim.
Me sentei na poltrona ao lado da maca e a coloquei no meu colo. Ela se ajeitou como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo, ainda agarrada ao bichinho de pelúcia.
— Eu sou Ruby. Qual é o seu nome, princesa?
Ela ergueu a cabeça e piscou algumas vezes.
— Dayse.
— Dayse? Que nome lindo! Sabe que eu sempre quis ter uma amiga chamada Dayse?
Ela sorriu, tímida.
— Sério?
— Sério! E agora eu tenho.
Dayse soltou uma risadinha baixa e escondeu o rostinho na minha blusa.
Nesse momento, Tomaz apareceu no corredor com um pacote de salgadinhos na mão.
— Ei, Ruby! O que você tá fazendo aqui? Eu tava te procurando.
Antes que eu pudesse responder, ele arregalou os olhos ao ver Dayse no meu colo.
— Meu Deus! Você roubou uma criança?!
Revirei os olhos.
— Claro que não, idiota!
Dayse riu, e Tomaz a encarou com curiosidade.
— Quem é essa fofura?
— Dayse.
Ele sorriu para ela.
— Oi, Dayse. Eu sou o Tomaz, irmão da Ruby.
Ela o observou por um momento, depois acenou com a mãozinha.
— Oi, Tomaz.
Tomaz se sentou ao meu lado e olhou para mim.
— Tá me devendo uma explicação.
Suspirei e expliquei a situação. Contei por alto o que tinha acontecido sem expor sobre a verdade condição sobre os pais da pequena na frente dela.
Tomaz ficou em silêncio por um momento, depois coçou a nuca.
— Nossa... Isso é pesado.
Olhei para Dayse, que agora brincava com os botões do meu casaco.
— Eu sei.
Ele suspirou e me deu um empurrãozinho de leve no ombro.
— Você tem um coração gigante, sabia?
Sorri de lado.
— Alguém tinha que ficar com ela.
Tomaz assentiu e pegou um salgadinho no pacote.
— Bom... Então acho que agora você tem uma filhinha temporária.
Dayse olhou para ele, curiosa.
— O que é temporária?
Tomaz sorriu.
— Significa que você pode ficar com a Ruby até sua família chegar.
Dayse fez um biquinho.
— Mas eu quero ficar com a Ruby para sempre.
Meu coração apertou.
Tomaz e eu nos entreolhamos.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Fernanda Rodrigues
ah não autora o Lucas e Emily morreram. não pode ser
2025-03-17
6
Claudia
Quando Lörenzo receber a notícia e correr para o hospital e encontrar a sobrinha e a Rubý 🤔🤔♾🧿
2025-03-18
0
Cida Lima
Nossa autora pq vc vez isso matou Lucca é Emilly coitada da deyse é Lorenzo
2025-04-03
0