A noite passou como um borrão, um ciclo interminável de olhares vazios para o teto e suspiros pesados. Eu não consegui dormir nem por um minuto.
Toda vez que fechava os olhos, via o rosto do Lucca e da Emilly, sorrindo como se ainda estivessem aqui. E então, a realidade me golpeava como um soco no estômago: eles não estavam mais aqui.
Minha única companhia naquela madrugada silenciosa foi a respiração leve da Dayse, que dormia na maca ao meu lado, os cabelos cacheados bagunçados e o rostinho ainda molhado de lágrimas.
O tempo se arrastou de forma cruel.
O sol começou a surgir no horizonte quando Samuel apareceu na enfermaria. Seu rosto estava abatido, os olhos fundos, demonstrando o mesmo cansaço e tristeza que eu sentia.
— Está tudo certo. — ele disse com a voz rouca. — Os corpos já foram transferidos para Londres. O enterro será às dez da manhã.
Olhei para o relógio de parede. 06h00.
Meu peito apertou. Ainda não conseguia acreditar que em poucas horas estaria enterrando meu primo e sua esposa.
Virei para a cama onde Dayse ainda dormia, enrolada no lençol branco. Meu coração apertou ainda mais.
Aproximei-me de uma das enfermeiras e perguntei, baixando a voz para não acordar a menina:
— Ela já pode receber alta? Está tudo certo?
A mulher assentiu, chamando um médico para avaliar a pequena. Ele fez alguns exames rápidos, checou os sinais vitais e, depois de algumas anotações na prancheta, disse:
— A Dayse está bem. Pode ir para casa.
Casa.
Engoli em seco. Onde era a casa dela agora?
Agradeci ao médico e assinei os papéis de liberação. Com cuidado, peguei Dayse no colo. Ela ainda dormia, o corpinho quente e pequeno se aconchegando contra o meu peito.
Saímos do hospital e encontramos Samuel parado ao lado do carro. Assim que abri a porta do passageiro, percebi algo diferente no banco de trás: uma cadeirinha infantil.
Olhei para ele, confuso. E ele disse.
— Comprei porque sabíamos que iríamos precisar.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo uma onda de gratidão misturada com tristeza.
— Obrigado, cara.
Com muito cuidado, prendi Dayse na cadeirinha, ajustando os cintos para que ela ficasse confortável. Ela abriu os olhos por um segundo, murmurou algo incompreensível e voltou a dormir.
Fechei a porta e fui para o banco da frente.
Samuel dirigia em silêncio, até que, depois de alguns minutos, perguntou:
— Você vai levar a Dayse para o enterro?
Respirei fundo. Era a mesma pergunta que vinha martelando na minha mente desde que soube do velório.
— Eu não sei. — admiti.
Era certo levá-la para um momento tão doloroso? Ela deveria se despedir dos pais ou seria melhor poupá-la dessa cena?
Samuel continuou dirigindo por alguns instantes antes de falar:
— Se você não quiser levá-la, posso pedir para a Samira cuidar dela durante o enterro.
Samira era a irmã do Samuel, uma pessoa doce e confiável.
Refleti por um momento e assenti, sentindo o peito pesado.
— Acho que seria um clima muito pesado para ela. Melhor que fique com Samira.
Samuel concordou e seguimos viagem em silêncio, apenas o som do motor do carro e a respiração tranquila de Dayse preenchendo o espaço.
O dia estava apenas começando, mas a dor que me acompanhava parecia eterna.
O trajeto até minha casa foi silencioso, apenas o barulho baixo da cidade despertando para um novo dia. Mas para mim, nada parecia novo. Tudo estava cinza.
Dayse dormia profundamente na cadeirinha do carro, e eu invejava a paz que ela ainda conseguia ter, mesmo que momentânea.
Quando chegamos, Samuel desligou o motor e virou-se para mim.
— Vou buscar a Samira para sua casa. Assim ela pode ficar com a Dayse enquanto estamos no enterro.
Assenti, saindo do carro e pegando a pequena no colo. Ela murmurou algo baixinho, mas não acordou.
Entrei com cuidado na minha casa, um apartamento espaçoso, mas que agora parecia enorme e minimalista.
Coloquei Dayse no sofá, ajeitando uma almofada sob sua cabeça. Ela se mexeu um pouco, franzindo a testa, mas permaneceu dormindo.
Olhei para ela por um longo tempo.
Ela ainda não entendia completamente o que tinha acontecido. Sabia que os pais não voltariam, mas ainda não sentia a dimensão da perda. O vazio real viria com o tempo, quando ela percebesse que não era um pesadelo passageiro.
Suspirei e passei a mão pelo rosto.
— Preciso me arrumar.
Fui até meu quarto e vesti um terno preto. O nó da gravata parecia apertar minha garganta mais do que o normal.
Quando voltei para a sala, Samira já estava lá, sentada ao lado da Dayse. Ela me olhou com um sorriso triste.
— Pode ir tranquilo, Lorenzo. Eu cuido dela.
— Obrigado, Samira.
Dayse abriu os olhos lentamente, piscando algumas vezes.
— Tio Enzo?
Ajoelhei ao lado dela e segurei sua mãozinha.
— Oi, pequena. Preciso sair por um tempo, mas volto logo, tá bom? A Samira vai ficar com você.
Ela olhou para Samira, depois para mim. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar na noite anterior.
— Você promete?
Apertei sua mão.
— Prometo.
Ela assentiu devagar e eu dei um beijo em sua testa antes de sair.
Samuel me esperava no carro.
— Pronto?
Respirei fundo e assenti.
O caminho para o cemitério pareceu curto demais. Eu queria mais tempo para me preparar. Mais tempo para aceitar. Mas o tempo não esperava por ninguém.
E naquele dia, eu teria que dizer adeus.
O carro parou em frente ao cemitério. O lugar estava silencioso, com poucas pessoas chegando. Samuel saiu primeiro e me esperou do lado de fora. Respirei fundo antes de abrir a porta e descer.
Meus olhos passaram pelo ambiente. O céu estava cinza, combinando perfeitamente com a dor que eu sentia no peito. Algumas coroas de flores já estavam posicionadas perto do local onde os caixões seriam enterrados.
As poucas pessoas que compareceram estavam de preto, com expressões sérias e olhos baixos. A maioria eram amigos próximos de Lucca e Emilly.
Samuel colocou a mão no meu ombro.
— Se precisar sair daqui por um tempo, eu seguro as pontas.
Apenas assenti. Eu sabia que ele estava preocupado, mas eu precisava passar por isso. Por mim. Por Lucca. Por Emilly. E por Dayse.
Caminhei até os caixões fechados. O peso da realidade caiu sobre mim como um soco. Era isso. Era real. Meu primo, meu irmão de consideração, estava ali dentro. Emilly, minha amiga, a mulher que sempre sorria e me tratava como família, também estava.
Meus olhos arderam, mas eu respirei fundo, tentando me manter firme.
Uma mulher de cabelo curto e loiro se aproximou. Era uma amiga de Emilly, uma colega de trabalho.
— Sinto muito, Lorenzo. Eles eram pessoas maravilhosas.
Apenas assenti. Não conseguia falar.
A cerimônia começou. O padre dizia palavras bonitas, mas tudo parecia um ruído de fundo. Minha mente viajava para momentos com Lucca e Emilly.
Lembrei da primeira vez que vi os dois juntos. Lucca estava completamente apaixonado por ela desde o primeiro dia. Ele dizia que ela tinha o sorriso mais bonito do mundo.
E agora, aquele sorriso nunca mais se abriria.
Meus punhos se fecharam. Isso não era justo.
Quando chegou o momento do sepultamento, senti minha respiração acelerar. As pessoas começaram a jogar flores sobre os caixões.
Samuel me olhou.
— Vai ficar bem?
Engoli em seco.
— Tenho que ficar.
Peguei uma rosa branca e me aproximei. Olhei para os dois caixões uma última vez.
— Eu prometo cuidar da Dayse. Sempre.
Minha voz saiu falha, mas foi o suficiente.
Soltei a flor e dei um passo para trás, deixando a terra começar a cobrir aqueles que um dia foram minha família.
Naquele momento, entendi que minha vida nunca mais seria a mesma.
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Helena
o coração da gente fica tão apertado.parece real.um jovem casal apaixonado.e uma criança órfã. será que foi mesmo acidente??
2025-04-03
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Claudia
Esse capítulo foi muito triste 😥😥😥😥😥♾🧿
2025-03-23
3
Milena Araujo
mds como que paro de chorar 🥺
2025-04-03
0