Narrado por Ruby Evans.
Ao sair da enfermaria, senti o peso das emoções do dia inteiro pressionando meus ombros. Tudo tinha acontecido tão rápido que parecia surreal.
Segui pelos corredores do hospital até o quarto onde meu pai estava. Quando abri a porta, vi que ele estava deitado, assistindo TV, enquanto minha madrasta cochilava na poltrona ao lado.
Meu irmão Tomaz, por outro lado, estava sentado na beira da cama, também assistindo à televisão, parecendo entediado.
Assim que coloquei os pés no quarto, meu pai desviou os olhos da tela e me encarou.
— Pensei que já tivesse ido embora.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até uma cadeira, jogando minha bolsa sobre a mesa ao lado.
— Ainda não. Estava cuidando de uma criança que perdeu os pais. Muito triste.
Meu pai franziu a testa e abaixou o volume da TV.
— Como assim? O que aconteceu?
Soltei um suspiro e me recostei na cadeira.
— Os pais dela sofreram um acidente de carro e não sobreviveram. Só ela escapou. É uma menininha, tem uns cinco anos. Está assustada e sem família por perto.
Meu pai balançou a cabeça em silêncio. Ele sempre foi um homem de poucas palavras, mas seus olhos diziam muito.
Tomaz também ficou quieto, mas sua expressão séria me dizia que ele estava absorvendo a informação.
— E quem está cuidando dela? — ele perguntou.
— O tio dela.
Meu pai assentiu lentamente.
— Esse tio... ele vai ficar com ela?
Fiquei em silêncio por um momento, lembrando do olhar devastado de Lorenzo e de suas palavras sobre ser o tutor legal da garota.
— Acho que sim. Mas não vai ser fácil. Ele também está destruído com a perda do irmão.
Tomaz bufou.
— Isso é muito pesado. Não consigo nem imaginar.
Meu pai coçou a barba grisalha e suspirou.
— A vida às vezes prega peças cruéis. Mas essa menina tem sorte de ter você por perto, Ruby. Você tem um coração grande.
Revirei os olhos, tentando disfarçar o calor que subiu para meu rosto.
— Nem começa, pai. Eu só fiz o que qualquer pessoa faria.
Ele sorriu de canto.
— Nem todo mundo faria.
Fiquei em silêncio por um momento, observando minha madrasta dormir profundamente. O dia tinha sido longo para todos nós.
Tomaz se esticou e bocejou.
— Bom, agora que você voltou, eu vou dar uma volta. Preciso esticar as pernas.
— Só não some, Tomaz. — avisei.
Ele fez um gesto zombeteiro de continência e saiu do quarto.
Meu pai voltou a aumentar o volume da TV, mas eu sabia que ele ainda estava pensando no que eu tinha contado.
E eu também.
A pequena Dayse, Lorenzo...
E o fato de que, de alguma forma, eu me sentia conectada a eles.
Passei um tempo assistindo TV com meu pai e Tomaz, mas, na verdade, minha atenção estava completamente dividida entre a tela e o celular. Mantinha o aparelho nas mãos o tempo todo, esperando qualquer ligação ou mensagem de Lorenzo.
Mas nada.
Os minutos se transformaram em horas, e, antes que eu percebesse, acabei cochilando ali mesmo, na poltrona.
Acordei com a movimentação no quarto.
— Ruby, vai dormir na sua casa, menina. — meu pai resmungou, já sentado e se espreguiçando.
Esfreguei os olhos e peguei o celular para ver as horas. 06h20.
Suspirei, desbloqueando a tela na expectativa de encontrar alguma notificação, mas... nada. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem.
Franzi o cenho. Lorenzo não tinha dado nenhuma notícia. Será que tava tudo bem com a pequena?
— Vou dar uma volta. — avisei, levantando-me.
Passei no banheiro para jogar uma água no rosto e escovar os dentes. O cansaço ainda pesava nos meus ombros, mas a preocupação falava mais alto.
Saí do quarto e segui direto para a enfermaria.
Ao chegar lá, meus olhos varreram rapidamente o ambiente, mas algo estava errado. Dayse e Lorenzo não estavam mais lá.
Meu coração acelerou.
Fui até o balcão de atendimento e chamei a enfermeira mais próxima.
— Com licença, a garotinha que estava aqui ontem, a Dayse... e o tio dela, o Lorenzo. Onde eles estão?
A mulher, de jaleco branco e coque apertado, olhou para mim sem pressa alguma e respondeu com naturalidade:
— Ah, eles tiveram alta há pouco tempo. Foram embora faz alguns minutos.
Pisquei algumas vezes.
— Foram embora? Assim?
— Sim, o médico liberou a criança e o responsável assinou os papéis.
Agradeci rapidamente e saí quase correndo pelos corredores do hospital, na esperança de encontrá-los ainda no estacionamento.
Mas não adiantou.
Quando cheguei à saída principal, olhei para os lados, vasculhei o espaço com os olhos, mas Lorenzo e Dayse já tinham partido.
Fiquei ali parada por alguns segundos, sentindo um vazio estranho no peito.
Ele nem sequer me mandou uma mensagem.
Por que aquilo me incomodava tanto?
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Atualizado até capítulo 36
Comments
Helena
da pra imaginar o peso esmagando.o coração dele.e não quis incomodar a Ruby.
2025-04-03
0
Claudia
Úall esse momento não é fácil e com certeza o Enzö está sem cabeça 😥😥🧿🧿
2025-03-23
2