Capítulo 19: Caçada Silenciosa

A estrada deserta se estendia à frente, sem fim à vista. O carro de Gabriel cortava o silêncio da madrugada com o som baixo do motor, enquanto Enzo permanecia ao seu lado, tenso, os olhos fixos na estrada e sua mente trabalhando em um turbilhão de pensamentos.

— Eu nunca pensei que seria assim... fugir. — Enzo comentou, a voz baixa e séria.

Gabriel olhou para ele rapidamente, os olhos estreitos enquanto tentava se concentrar na estrada.

— Não é o que planejamos, mas a situação mudou. E agora, temos que ser mais rápidos, mais inteligentes. Eles sabem que estamos juntos.

— E sabem que, enquanto estivermos juntos, não importa o que aconteça, vou te proteger. — Enzo disse, virando a cabeça para Gabriel com uma intensidade que fazia o coração dele bater mais rápido.

Gabriel segurou o volante com mais força. O peso daquelas palavras, aquelas promessas, ainda ecoavam em sua mente. Ele sabia que Enzo faria qualquer coisa por ele. Mas agora, estava claro que a linha entre o amor e a destruição era tênue demais para ser ignorada.

— Como sabe disso? — Gabriel perguntou, tentando manter o tom neutro, mas sua voz traiu uma leve vulnerabilidade.

— Porque você é tudo que eu sempre quis, Gabriel. E eu vou te ter, mesmo que tenha que destruir o mundo inteiro para isso.

A frieza com que Enzo disse essas palavras fez Gabriel se arrepiar. Não era apenas o desejo de alguém que amava, mas a determinação implacável de alguém que sabia que não havia outro caminho a seguir.

O carro virou em uma estrada secundária e, pouco depois, entrou em um pequeno vilarejo à beira do rio. Eles haviam trocado o carro por um modelo simples, comum, que passaria despercebido. O vilarejo era pacato, sem muito movimento, o lugar ideal para se esconder por um tempo.

Ao estacionar em uma rua deserta, Gabriel olhou ao redor, sentindo uma crescente sensação de que não estavam mais sozinhos.

— Eu não gosto disso... — ele murmurou, saindo do carro e indo para o porta-malas.

Enzo seguiu ao seu lado, observando cada movimento, atento ao menor detalhe. Eles estavam sendo caçados, mas ainda não sabiam por quem.

— Algo não está certo. — Enzo disse, depois de uma pausa. — Estão nos caçando como uma presa.

Gabriel olhou para ele, sentindo a tensão no ar. Sabia que estavam jogando em um território perigoso, e a tranquilidade do vilarejo não parecia mais tão acolhedora.

— Vamos nos esconder dentro do velho armazém. Eu já estive lá antes, é o melhor lugar. — Gabriel sugeriu, guiando Enzo até a entrada de um armazém abandonado que ficava nos fundos da cidade. Era um prédio velho, mas com boas condições de segurança, uma vez que os acessos eram poucos e discretos.

Ao entrarem no local, Enzo se aproximou de Gabriel e colocou uma mão em seu ombro, sua presença imponente, mas com um toque suave, quase protetor.

— E agora? O que vamos fazer?

Gabriel suspirou, jogando a mochila no chão enquanto procurava alguma coisa para fazer o tempo passar.

— Precisamos alertar os outros. Sofia deve estar preparando um plano, e Luca... Se ele realmente estiver vivo, vamos precisar de mais do que apenas velocidade para lidar com ele. — Gabriel disse, a mente acelerada.

— E sobre nós? — Enzo perguntou, sua voz mais baixa agora, quase um sussurro.

Gabriel olhou para ele, sentindo o calor da proximidade. O desejo era palpável, assim como a necessidade de se afastar um pouco da realidade brutal que os cercava. Mas ele sabia que não podia.

— Não podemos... Não agora. — Gabriel murmurou, os olhos fixos nos de Enzo. — Não enquanto isso estiver acontecendo.

Enzo, porém, não se afastou. Em vez disso, deu um passo mais perto, até que seus corpos quase se tocavam. Gabriel sentiu o calor de Enzo envolvê-lo, e por um momento, o mundo ao redor deles desapareceu. Só havia o desejo, a necessidade de um ao outro, como se aquele fosse o último momento de paz antes da tempestade.

— Não se engane, Gabriel. Eu não vou desistir de você. Nunca. — Enzo disse, a voz carregada de uma intensidade que fez Gabriel sentir o coração bater mais rápido.

O que aconteceu depois foi inevitável. Não havia mais palavras, apenas a necessidade de estar junto, de se sentir vivo e de se reconectar. Quando os lábios de Enzo finalmente encontraram os de Gabriel, foi como se o mundo ao redor deles desaparecesse.

A tensão entre eles se dissolveu com o toque. O beijo foi longo, profundo, com uma urgência que falava mais do que palavras poderiam expressar. Era como se, por um instante, o perigo, a morte, e a traição não existissem. Era apenas eles dois, em um lugar seguro, onde podiam se entregar ao que sentiam.

Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, com os olhos ainda fixos um no outro, como se procurassem alguma confirmação.

— Não podemos mais viver assim... Entre a espada e a parede. — Gabriel disse, a voz rouca.

Enzo sorriu, passando a mão pela nuca de Gabriel.

— Eu não sei o que o futuro nos reserva. Mas o que importa agora é que, juntos, podemos enfrentar qualquer coisa.

Gabriel sorriu, sentindo a verdade daquelas palavras. Ainda havia muito a ser feito, muitas batalhas a serem travadas, mas naquele momento, ele sabia que não estava sozinho.

E, por mais que o mundo ao redor deles estivesse prestes a desabar, com Enzo ao seu lado, ele poderia enfrentar qualquer coisa.

___

A noite estava densa, o silêncio do vilarejo apenas quebrado pelo som do rio ao longe e o ocasional uivo do vento entre as casas antigas. Dentro do armazém abandonado, Gabriel e Enzo ainda estavam despertos, sentados próximos a uma pilha de caixas de madeira, ambos segurando armas.

— Você acha que eles já sabem que estamos aqui? — Enzo perguntou, a voz baixa, observando a porta principal com olhos atentos.

Gabriel verificou o pente da arma antes de responder.

— Se não sabem ainda, vão descobrir logo. Sempre descobrem.

O silêncio voltou, mas era um silêncio carregado. Gabriel percebeu que Enzo apertava a arma com força, o maxilar travado, como se estivesse lutando contra algo dentro de si.

— O que foi? — Gabriel perguntou, sem tirar os olhos da porta.

Enzo hesitou por um segundo, depois respirou fundo.

— Eu não gosto de me esconder. Eu nunca fui um homem que foge.

Gabriel virou o rosto para ele, estudando seus traços sob a fraca luz da lanterna.

— Você não está fugindo. Está se preparando para lutar.

Enzo riu baixinho, sem humor.

— Acha mesmo? Porque eu me sinto como um rato encurralado.

Gabriel segurou seu braço, firme.

— Você não é um rato. E nem está encurralado. A única razão pela qual ainda estamos vivos é porque somos mais espertos do que eles.

Enzo olhou para ele por um momento, depois sorriu de lado.

— Você sempre sabe o que dizer para me irritar e me motivar ao mesmo tempo.

Gabriel apenas balançou a cabeça, mas antes que pudesse responder, algo do lado de fora do armazém chamou sua atenção.

Um som baixo.

Passos na neve.

Ambos se levantaram ao mesmo tempo, armas em punho, os corpos rígidos. Gabriel apagou a lanterna, mergulhando o armazém na escuridão total.

— Quantos? — Enzo murmurou, se movendo para o lado da porta.

Gabriel se concentrou, os sentidos apurados. Mais passos, arrastados, calculados.

— Três, talvez quatro. Estão tentando ser silenciosos.

Enzo sorriu, um brilho predatório nos olhos.

— Péssimos nisso.

Um estalo no vidro de uma das janelas fez ambos se virarem. Uma sombra passou rápido, mal visível na escuridão. Gabriel sentiu a adrenalina subir.

— Eles estão tentando nos cercar.

— Então vamos dar as boas-vindas. — Enzo murmurou, avançando para uma posição estratégica atrás das caixas.

Gabriel seguiu para a lateral do armazém, encostando-se contra a parede enquanto segurava a arma firme. O tempo pareceu se estender, cada segundo um estalo silencioso de antecipação.

E então, o primeiro invasor tentou abrir a porta.

Gabriel não hesitou.

Um disparo.

O corpo caiu com um baque surdo na neve do lado de fora.

Os outros não esperaram. A porta foi arrombada com um chute violento, e o segundo homem entrou, a arma levantada.

Enzo foi mais rápido. Um único tiro no peito, e ele caiu para trás antes mesmo de disparar.

O terceiro tentou se esgueirar pela lateral, mas Gabriel já estava nele. Um golpe seco no braço fez a arma voar para longe, e antes que ele pudesse reagir, Gabriel o pegou pelo colarinho e o jogou contra a parede.

— Quem mandou vocês?! — ele rosnou.

O homem cuspiu sangue, o olhar desafiador.

— Você já sabe a resposta...

Enzo se aproximou, a arma encostada na têmpora do invasor.

— Diga mesmo assim.

O homem sorriu, um sorriso manchado de sangue.

— Vocês podem correr, mas ele sempre encontra vocês.

Antes que Gabriel pudesse reagir, o homem mordeu algo dentro da boca. Seus olhos se arregalaram, e então ele caiu inerte.

Enzo xingou, chutando uma cadeira próxima.

— Cápsula de veneno. Eles se matam antes de falar.

Gabriel rangeu os dentes. Aquilo significava apenas uma coisa.

— Luca está mais perto do que pensávamos.

Os olhos de Enzo encontraram os dele, e Gabriel viu algo ali. Não medo, mas algo mais perigoso.

Determinação.

— Então está na hora de acabar com isso.

Lá fora, a neve continuava a cair, encobrindo os corpos e apagando os rastros. Mas ambos sabiam que a verdadeira tempestade estava apenas começando.

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