Capítulo 9: Jantar Com o Inimigo

O hospital estava em silêncio, exceto pelo som ritmado das máquinas monitorando os sinais vitais de Silas. Gabriel observava o homem inconsciente através do vidro da UTI. Apesar de tudo, Silas era um policial. Traidor ou não, ainda fazia parte da corporação — ou pelo menos fazia até aquele tiro interromper sua jogada.

— Ele vai sobreviver. — disse Sofia, se aproximando com duas xícaras de café. — Mas a bala atingiu um ponto complicado. Não sabemos se ele vai conseguir falar quando acordar.

Gabriel pegou o café sem tirar os olhos de Silas.

— Esse tiro não era pra matar. Era pra silenciar.

— Você acha que foi o Enzo?

— Não. Tenho certeza. Ele não quer me ver comprometido. Mas o problema é que agora a equipe começa a desconfiar.

Sofia suspirou.

— Ricardo te chamou na sala dele. Parece que tem algo grande vindo aí.

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Gabriel atravessou os corredores da delegacia sentindo o peso dos olhares. Os outros agentes cochichavam quando ele passava. Sabiam que Silas ia entregar alguém. Sabiam que Gabriel estava envolvido em algo mais do que a missão. E sabiam que ele estava ficando tempo demais fora da linha de investigação.

Ao entrar na sala de Ricardo, encontrou o chefe de polícia com expressão séria.

— Gabriel, sente-se.

Ele obedeceu, o coração acelerado.

— Recebemos um convite. Oficial, com selo da família Moretti. Enzo está oferecendo um jantar em uma de suas propriedades, fora da cidade. Motivo: celebrar acordos de paz com velhos aliados. — Ricardo o encarou. — Ele quer que você vá.

Gabriel arregalou os olhos.

— Isso é uma armadilha.

— Ou um teste. Enzo está mexendo as peças. Ele quer te provocar. Ver até onde você está disposto a ir.

— E o que o senhor espera que eu faça?

— Vá.

Gabriel quase caiu da cadeira.

— O quê?

— Vá ao jantar. Esteja armado, microfone escondido. Vamos escutar tudo. Se ele entregar algum nome, qualquer movimentação ilegal, nós o pegamos. Mas vá com cuidado. Enzo não joga limpo.

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O convite era tão formal quanto ameaçador: “Senhor Gabriel Costa, sua presença é aguardada no jantar da família Moretti. Uma noite para relembrar o passado e brindar o futuro.” O envelope vinha acompanhado de uma gravata preta.

Gabriel chegou à mansão no alto de uma colina, onde as luzes douradas brilhavam como promessas e mentiras. Havia seguranças por todo lado, mas nenhum o impediu de entrar. Ele foi guiado por um homem alto e silencioso até o salão principal.

Lá, Enzo o aguardava — impecável num terno escuro, com um sorriso que misturava saudade e perigo.

— Que bom que veio, amor.

Gabriel o ignorou e olhou em volta. Empresários, políticos, rostos conhecidos — todos sorrindo enquanto negociavam o submundo.

— Que porra é essa, Enzo?

— Um teatro. — respondeu ele, oferecendo uma taça de vinho. — Como tudo neste mundo.

— Isso aqui é um circo. Você quer me exibir como seu troféu?

— Quero te manter por perto. Porque sei que está dividido. E porque talvez você ainda me queira.

Gabriel ficou em silêncio por um instante. Depois, levou a taça aos lábios e bebeu.

— Você é um idiota.

— Mas sou o idiota que você amou.

O jantar seguiu com conversas paralelas, brindes e mentiras disfarçadas de promessas. Gabriel manteve o microfone ativado sob a camisa, tentando captar cada frase suspeita. Mas Enzo estava contido, cauteloso.

Luca Moretti se aproximou mais tarde, com olhar fulminante.

— Gabriel. Ainda respirando, eu vejo. Pena.

— Luca. Ainda tentando parecer mais perigoso do que realmente é?

O mais velho riu com desprezo.

— Continue brincando com a cobra e ela vai te morder, policial.

— E você continue me ameaçando... e a gente vai ver quem sobrevive.

Antes que a tensão explodisse, Enzo surgiu entre eles.

— Luca, querido, por que não vai cuidar dos convidados?

Luca saiu, resmungando algo em italiano.

Enzo segurou Gabriel pelo braço e o levou para um corredor lateral, onde a música e os risos não podiam alcançá-los.

— Você está jogando com fogo. — Gabriel disse, tentando soltar o braço.

— Não. Eu estou protegendo o que é meu.

Enzo o empurrou contra a parede e o beijou com força. Um beijo quente, raivoso, desesperado. Gabriel o empurrou no início, mas... cedeu. Com a mesma fome que sentia desde o reencontro.

As mãos de Enzo deslizaram pela camisa de Gabriel, e ele o prensou contra a parede com o corpo, enquanto sussurrava:

— Você me quer aqui, no meio disso tudo. Porque por mais que tente se enganar... você ainda é meu.

Gabriel arfava.

— Você é louco...

— Louco por você.

Enzo puxou Gabriel para dentro de um dos quartos de hóspedes. Trancou a porta. E ali, entre jantares de fachada e mentiras políticas, os dois se entregaram ao desejo com uma intensidade que beirava a fúria. Enzo tirou cada peça de roupa como se marcasse território. Gabriel retribuía, como se quisesse esquecer o mundo por uma única noite.

Corpos colidindo, gemidos abafados pelo quarto luxuoso. Línguas, unhas, mordidas e beijos como promessas nunca cumpridas.

Ali, entre lençóis caros e sentimentos proibidos, os dois se lembraram do que haviam perdido... e do que ainda podiam destruir.

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Quando tudo terminou, Gabriel vestiu a camisa e disse, ainda ofegante:

— Isso não muda nada.

— Não, mas muda tudo.

Gabriel o encarou. E, mesmo sem saber qual era seu próximo passo, uma coisa era certa: ele já não era o mesmo policial que entrou naquela mansão.

E talvez, não quisesse mais ser.

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