O som de tiros ecoou no corredor. Gabriel se protegeu atrás da parede, sacando sua arma. O caos havia começado. Os capangas de Enzo trocavam fogo com a equipe tática da polícia, que havia cercado o prédio. Ele precisava sair dali — e rápido.
Mas, em sua mente, só havia uma imagem: Enzo.
Aquele toque, o sussurro no ouvido, o calor do corpo que ele não sentia há anos. Era como se o tempo tivesse parado no instante em que Enzo o abraçou. Maldição. Aquilo não devia ter acontecido.
— Aqui é o agente Costa, estou no andar cinco! Confronto iniciado! Preciso de reforços! — Gabriel gritou pelo rádio, tentando ignorar o tumulto emocional que o dominava.
Ele se moveu pelo corredor, atento a cada sombra. Encontrou um dos homens de Enzo desacordado no chão. Passou por ele e continuou avançando, tentando manter o foco. Mas seus pensamentos voltavam, insistentes, ao passado.
Universidade, cinco anos antes...
Gabriel dividia o quarto com Enzo desde o segundo semestre. O apartamento era apertado, mas havia uma energia estranha entre eles. Os olhares demorados, as conversas até tarde da noite, as brigas que sempre acabavam em silêncio carregado.
Numa noite, depois de uma festa, Enzo entrou no quarto rindo, os cabelos bagunçados, ainda cheirando a uísque. Gabriel fingia dormir, mas seus olhos estavam entreabertos, observando.
Enzo parou diante da cama dele.
— Sei que você está acordado.
Gabriel suspirou.
— Vai dormir, Enzo.
— Você me evita por quê?
Silêncio.
— Não vou te machucar, Gabriel. — Enzo sussurrou, ajoelhando-se ao lado da cama. — Você sente isso tanto quanto eu.
Gabriel fechou os olhos com força, reprimindo a vontade de puxá-lo para cima da cama. Mas naquela época, eles nunca atravessaram a linha.
Fim da lembrança.
De volta ao presente, Gabriel sacudiu a cabeça. Não podia se perder naqueles pensamentos agora. Um barulho o alertou — passos vindo do corredor oposto.
Ele se virou com a arma apontada... e lá estava ele.
Enzo.
Sem capangas. Sem arma à mostra. Apenas ele.
— Por que você voltou? — Gabriel perguntou, a respiração pesada.
— Porque eu sabia que você não ia conseguir me esquecer. Assim como eu nunca consegui te esquecer. — Enzo caminhou devagar, como se cada passo fosse uma provocação.
— Isso aqui não é um jogo, Enzo. Gente está morrendo por sua causa!
— E você acha que eu não carrego isso comigo todas as noites? — Enzo retrucou, com a voz mais tensa agora. — Eu não escolhi essa vida. Ela me foi imposta.
Gabriel apertou a arma. O dedo no gatilho. O coração disparado.
— Você tem escolha. Sempre teve.
Enzo parou, a menos de um metro de distância.
— Eu só quero uma coisa. Uma única. Você.
Os dois se encararam. Os olhos de Gabriel estavam cheios de raiva, dor e desejo reprimido. Ele queria gritar, queria prendê-lo, queria beijá-lo até o ar faltar.
E então, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido, Enzo avançou.
As mãos dele agarraram Gabriel pela nuca e o puxaram para um beijo. Foi bruto, faminto, cheio de saudade e raiva acumuladas por anos. Gabriel resistiu por um segundo... só um segundo. Mas então o desejo venceu.
A arma caiu ao chão com um estrondo surdo. As mãos de Gabriel deslizaram pelas costas de Enzo, puxando-o com força contra seu corpo.
O beijo se aprofundou, urgente, descontrolado.
Gabriel empurrou Enzo contra a parede, suas bocas nunca se separando. As mãos de Enzo correram por dentro da camisa de Gabriel, sentindo a pele quente, o peito ofegante.
— Você me odeia tanto assim? — Enzo sussurrou contra os lábios dele.
— Eu devia... — Gabriel respondeu, colando as testas. — Mas meu corpo não colabora.
As mãos de Gabriel estavam famintas, explorando cada centímetro que podia alcançar. Os dois sabiam que aquele momento era proibido, errado — mas ainda assim, inevitável.
As roupas começaram a ser arrancadas entre beijos e mordidas. Gabriel virou Enzo de costas para a parede, as mãos deslizando pela cintura firme dele. Os dois estavam ofegantes, em um transe de luxúria e lembranças.
Enzo arqueou o corpo quando sentiu os beijos de Gabriel descendo por seu pescoço, pela clavícula, até o abdômen. A respiração dele estava falha, os gemidos escapando mesmo que ele tentasse contê-los.
— Você ainda é meu, Gabriel... sempre foi. — Enzo sussurrou, enquanto os dois se entregavam àquela explosão de sentimentos proibidos, entre cicatrizes mal curadas e promessas nunca feitas.
Foi rápido, selvagem, intenso. Um momento roubado em meio ao caos. Quando terminou, os dois estavam encostados um no outro, suados, respirando pesadamente.
— Isso não muda nada — Gabriel murmurou, ainda com os olhos fechados.
— Mas muda tudo... — Enzo respondeu, com a voz baixa e rouca.
Gabriel pegou a arma de volta do chão, se afastando. Precisava sair dali. Precisava respirar. Aquilo não podia acontecer de novo.
Mas enquanto ele caminhava de volta pelo corredor, a voz de Enzo ainda ecoava em sua mente.
“Você ainda é meu.”
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Aqui está uma cena extra para aprofundar ainda mais a tensão emocional e o dilema entre Gabriel e Enzo:
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Gabriel saiu do prédio, o coração batendo contra as costelas como se quisesse escapar de seu peito. O ar frio da madrugada bateu contra seu rosto, mas não foi suficiente para dissipar o calor do que acabara de acontecer. Ele passou a mão pelos cabelos, tentando se recompor.
Mas a verdade era simples. Ele havia cometido um erro.
O rádio em seu cinto chiou.
— Costa, qual sua posição? — A voz firme de Sofia trouxe Gabriel de volta à realidade.
Ele demorou um segundo para responder.
— Saindo do prédio. Nenhum sinal do alvo.
Silêncio do outro lado da linha.
— Você está bem?
Gabriel fechou os olhos. Não. Ele não estava.
— Sim. Estou indo para o ponto de encontro.
Ele desligou o rádio e respirou fundo. Mas antes que pudesse dar um passo, sentiu algo vibrar no bolso da calça. O celular.
Número desconhecido.
Ele atendeu com hesitação.
— Alô?
— Eu avisei que a guerra ia começar, Gabriel. Mas parece que você já perdeu a primeira batalha.
A voz de Enzo atravessou a linha como um veneno doce.
Gabriel sentiu o maxilar travar.
— Isso não significa nada.
Uma risada baixa do outro lado.
— Você sempre foi péssimo mentindo para mim.
Gabriel cerrou os punhos.
— Se eu te encontrar de novo...
— Vai me prender? — Enzo interrompeu, com uma provocação velada. — Ou vai me beijar primeiro?
O silêncio de Gabriel foi a única resposta.
E então, antes que pudesse desligar, ouviu a última frase de Enzo, sussurrada como uma promessa.
— Até breve, meu policial.
A linha caiu.
Gabriel ficou parado ali, no meio da noite, sentindo que, não importa o quanto tentasse fugir, Enzo sempre estaria um passo à frente.
E o pior?
Parte dele queria que fosse assim.
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Atualizado até capítulo 31
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