Capítulo 11: A Casa das Lembranças

A noite caiu com uma tensão no ar que Gabriel não conseguia explicar. As ruas estavam silenciosas demais, como se a cidade soubesse o que estava prestes a acontecer. Ele estacionou a alguns metros da antiga casa onde morou com Enzo nos tempos de universidade.

O lugar parecia congelado no tempo. A mesma pintura descascada nas janelas, a varanda de madeira que rangia com o vento. Gabriel passou os dedos pela maçaneta e respirou fundo antes de empurrar a porta.

O som das dobradiças o transportou de volta para outra época — noites de pizza, risadas abafadas e olhares demorados demais para serem só de amizade.

Lá dentro, Enzo o esperava, encostado na moldura da janela, o rosto parcialmente oculto pela sombra.

— Pensei que não viria. — disse, a voz baixa, quase um sussurro.

— Eu também. — Gabriel fechou a porta atrás de si. — Mas estou aqui.

— Sabia que esse lugar ainda tem o cheiro de quando a gente morava aqui? — Enzo sorriu, nostálgico. — Sinto falta disso. De você.

— Enzo, por que me chamou? Por que aqui?

— Porque esse lugar foi o único onde eu me senti... real. Onde eu não era o filho da máfia. Só um cara apaixonado pelo melhor amigo.

Gabriel engoliu seco. As palavras de Enzo cortavam como navalha.

— Isso acabou há anos.

— Não acabou, Gabriel. A gente só se escondeu atrás do que era mais fácil. Você fugiu pra polícia, eu fui forçado a assumir um trono manchado de sangue.

— Você escolheu esse caminho.

— Eu não tive escolha! — Enzo se aproximou, olhos brilhando de raiva e dor. — Eles mataram meu pai, me jogaram no meio de monstros e me disseram: ou lidera, ou morre. E tudo que eu queria... era você ao meu lado.

Silêncio.

A tensão era elétrica. Gabriel podia sentir o coração batendo nos ouvidos. Ele deveria prendê-lo ali mesmo. Colocar as algemas. Mas, em vez disso, seus dedos se moveram lentamente até o rosto de Enzo.

— Eu te odeio... por me fazer sentir isso de novo. — murmurou.

— E eu te amo... por nunca ter deixado de sentir. — respondeu Enzo, antes de puxá-lo pela nuca e selar seus lábios num beijo desesperado.

O beijo virou desejo, desejo virou urgência.

As roupas foram tiradas em silêncio, com toques tensos e olhos famintos. O velho colchão da sala não era mais o mesmo, mas ainda estava ali — como se esperasse por eles. Gabriel empurrou Enzo de costas, montando sobre ele, olhos ardendo com intensidade.

— Isso é um erro. — murmurou contra os lábios do outro.

— Então erra comigo. — Enzo arfou, puxando-o para mais perto.

Corpos colidiram entre lençóis antigos, entre memórias e cicatrizes. Os gemidos ecoaram pelas paredes velhas, como confissões não ditas, como pedidos de perdão silenciosos.

Horas depois, nus e ofegantes, Gabriel encarou o teto manchado, sentindo o peso do mundo sobre o peito.

— Isso não muda nada, Enzo. Eu ainda sou da polícia. Ainda estou nessa missão.

— Eu sei. — Enzo virou o rosto em sua direção, olhos calmos. — E é por isso que você precisa ouvir o que eu tenho pra te contar.

Gabriel virou-se de lado, desconfiado.

— Fala.

— Tem alguém dentro da sua equipe... passando informações pra máfia rival. E não é qualquer rival. É alguém que quer me ver morto. E você também.

Gabriel arregalou os olhos.

— Como assim?

— Você acha que está me investigando, mas está sendo usado. Estão te manipulando pra fazer o trabalho sujo de outra facção. Seu nome está marcado, Gabriel. Não só por estar perto de mim... mas porque você se recusou a se corromper.

— Quem é?

— Ainda não sei. Mas o nome Matias apareceu em uma das escutas. Significa algo pra você?

Gabriel congelou.

— Matias é o novo analista de inteligência da delegacia. Chegou faz dois meses... E... eu nunca confiei muito nele.

Enzo se levantou e começou a se vestir.

— Então comece a investigar. Porque se esse cara está mesmo infiltrado, ele vai ferrar sua vida. E a minha também.

— Por que você está me ajudando?

— Porque, mesmo com tudo, eu ainda amo você. E porque se alguém for destruir você... que seja eu. — ele sorriu, cínico, antes de sair pela porta.

Gabriel ficou ali, sozinho, sentindo o eco do passado colidir com o caos do presente.

Agora, ele não apenas precisava escolher entre amor e dever.

Precisava sobreviver.

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