A noite caiu com uma tensão no ar que Gabriel não conseguia explicar. As ruas estavam silenciosas demais, como se a cidade soubesse o que estava prestes a acontecer. Ele estacionou a alguns metros da antiga casa onde morou com Enzo nos tempos de universidade.
O lugar parecia congelado no tempo. A mesma pintura descascada nas janelas, a varanda de madeira que rangia com o vento. Gabriel passou os dedos pela maçaneta e respirou fundo antes de empurrar a porta.
O som das dobradiças o transportou de volta para outra época — noites de pizza, risadas abafadas e olhares demorados demais para serem só de amizade.
Lá dentro, Enzo o esperava, encostado na moldura da janela, o rosto parcialmente oculto pela sombra.
— Pensei que não viria. — disse, a voz baixa, quase um sussurro.
— Eu também. — Gabriel fechou a porta atrás de si. — Mas estou aqui.
— Sabia que esse lugar ainda tem o cheiro de quando a gente morava aqui? — Enzo sorriu, nostálgico. — Sinto falta disso. De você.
— Enzo, por que me chamou? Por que aqui?
— Porque esse lugar foi o único onde eu me senti... real. Onde eu não era o filho da máfia. Só um cara apaixonado pelo melhor amigo.
Gabriel engoliu seco. As palavras de Enzo cortavam como navalha.
— Isso acabou há anos.
— Não acabou, Gabriel. A gente só se escondeu atrás do que era mais fácil. Você fugiu pra polícia, eu fui forçado a assumir um trono manchado de sangue.
— Você escolheu esse caminho.
— Eu não tive escolha! — Enzo se aproximou, olhos brilhando de raiva e dor. — Eles mataram meu pai, me jogaram no meio de monstros e me disseram: ou lidera, ou morre. E tudo que eu queria... era você ao meu lado.
Silêncio.
A tensão era elétrica. Gabriel podia sentir o coração batendo nos ouvidos. Ele deveria prendê-lo ali mesmo. Colocar as algemas. Mas, em vez disso, seus dedos se moveram lentamente até o rosto de Enzo.
— Eu te odeio... por me fazer sentir isso de novo. — murmurou.
— E eu te amo... por nunca ter deixado de sentir. — respondeu Enzo, antes de puxá-lo pela nuca e selar seus lábios num beijo desesperado.
O beijo virou desejo, desejo virou urgência.
As roupas foram tiradas em silêncio, com toques tensos e olhos famintos. O velho colchão da sala não era mais o mesmo, mas ainda estava ali — como se esperasse por eles. Gabriel empurrou Enzo de costas, montando sobre ele, olhos ardendo com intensidade.
— Isso é um erro. — murmurou contra os lábios do outro.
— Então erra comigo. — Enzo arfou, puxando-o para mais perto.
Corpos colidiram entre lençóis antigos, entre memórias e cicatrizes. Os gemidos ecoaram pelas paredes velhas, como confissões não ditas, como pedidos de perdão silenciosos.
Horas depois, nus e ofegantes, Gabriel encarou o teto manchado, sentindo o peso do mundo sobre o peito.
— Isso não muda nada, Enzo. Eu ainda sou da polícia. Ainda estou nessa missão.
— Eu sei. — Enzo virou o rosto em sua direção, olhos calmos. — E é por isso que você precisa ouvir o que eu tenho pra te contar.
Gabriel virou-se de lado, desconfiado.
— Fala.
— Tem alguém dentro da sua equipe... passando informações pra máfia rival. E não é qualquer rival. É alguém que quer me ver morto. E você também.
Gabriel arregalou os olhos.
— Como assim?
— Você acha que está me investigando, mas está sendo usado. Estão te manipulando pra fazer o trabalho sujo de outra facção. Seu nome está marcado, Gabriel. Não só por estar perto de mim... mas porque você se recusou a se corromper.
— Quem é?
— Ainda não sei. Mas o nome Matias apareceu em uma das escutas. Significa algo pra você?
Gabriel congelou.
— Matias é o novo analista de inteligência da delegacia. Chegou faz dois meses... E... eu nunca confiei muito nele.
Enzo se levantou e começou a se vestir.
— Então comece a investigar. Porque se esse cara está mesmo infiltrado, ele vai ferrar sua vida. E a minha também.
— Por que você está me ajudando?
— Porque, mesmo com tudo, eu ainda amo você. E porque se alguém for destruir você... que seja eu. — ele sorriu, cínico, antes de sair pela porta.
Gabriel ficou ali, sozinho, sentindo o eco do passado colidir com o caos do presente.
Agora, ele não apenas precisava escolher entre amor e dever.
Precisava sobreviver.
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Atualizado até capítulo 31
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