A manhã chegou carregada de tensão. O céu estava cinza, refletindo exatamente como Gabriel se sentia. A cama improvisada no galpão ainda guardava o calor da noite anterior, mas Enzo já estava de pé, conversando ao telefone com Matteo.
— Ele confirmou. O carregamento vai acontecer amanhã à noite, no armazém da zona leste. Luca vai pessoalmente. — Enzo informou, desligando em seguida.
Gabriel, ainda sentado, passou a mão pelo rosto.
— E você acha que ele não desconfia de você?
— Não. — Enzo respondeu com firmeza. — Mas se desconfia, vai querer me testar. É por isso que precisamos agir rápido.
Gabriel se levantou, pegando o celular e digitando uma mensagem codificada para Sofia. Não podia arriscar uma ligação. Precisava dela para começar a levantar os dados dos envolvidos com Luca. Principalmente os contatos internos na polícia. Eles sabiam que Luca tinha olhos por todos os lados — e agora, Gabriel estava determinado a arrancá-los um por um.
— Matteo vai se encontrar com um dos nossos contatos infiltrados hoje. Se tudo der certo, teremos provas das movimentações de lavagem de dinheiro e do envolvimento direto do Luca. — Enzo explicou.
Gabriel assentiu.
— Ótimo. E da minha parte... — ele pausou. — Ricardo está estranho.
— O seu chefe? — Enzo arqueou uma sobrancelha.
— Sim. Ele me afastou da investigação por “motivos de segurança”. Desde quando ele joga tão limpo assim? — Gabriel comentou, andando pelo espaço, inquieto. — E mais: tem gente nos arquivos da central mexendo em registros que só eu e Sofia deveríamos acessar.
Enzo se aproximou, com o olhar sombrio.
— Então temos um rato na delegacia.
— Ou mais de um. — Gabriel retrucou. — Se Ricardo estiver envolvido com Luca, isso muda tudo.
— Muda o jogo. — Enzo concordou. — Mas não o objetivo. Vamos até o fim.
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Naquela tarde, Gabriel encontrou Sofia em uma cafeteria discreta no centro da cidade. Ela entregou a ele um pen drive com cara de quem tinha visto um fantasma.
— Você estava certo. — ela disse, sussurrando. — Tem alguém dentro da central enviando informações diretamente para Luca Moretti. E não é qualquer policial. É o tenente Duarte... e...
— E...? — Gabriel pressionou.
Sofia respirou fundo.
— Ricardo. Há transações bancárias, encontros fora do expediente, e uma conta no exterior em nome da esposa dele.
Gabriel fechou os olhos, sentindo o chão se abrir. Seu mentor. Aquele que o guiou, que acreditou nele desde o início… estava sujo.
— Filho da mãe. — murmurou, fechando a mão em punho.
— O que vai fazer agora? — Sofia perguntou, preocupada.
— Armar uma armadilha. — ele respondeu. — E dessa vez, Sofia... vai ter sangue.
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No final do dia, Gabriel voltou ao galpão. Enzo o esperava, sentado à mesa, analisando documentos e mapas da rota do carregamento.
— Boas notícias? — Enzo perguntou ao ver o semblante tenso do outro.
— Pior do que eu esperava. Ricardo está envolvido. Junto com o tenente Duarte.
Enzo bateu com força na mesa.
— Ele te criou como um peão dentro do jogo. Te controlou por anos. — disse com raiva. — Mas agora vai pagar.
Gabriel se aproximou, encarando Enzo com firmeza.
— Vamos desmascarar Luca, Duarte e Ricardo de uma só vez. Preciso que amanhã você vá ao armazém como se nada tivesse mudado. Matteo vai gravar tudo. Eu vou invadir a central e vazar as provas internamente. E quando tudo explodir… você e eu vamos desaparecer.
Enzo encarou Gabriel, os olhos brilhando de um misto de orgulho e temor.
— Você está disposto a tudo isso... por mim?
— Não só por você. — Gabriel tocou no ombro dele. — Mas porque já fui enganado por tempo demais. Agora, ou a gente vence... ou a gente morre tentando.
Enzo o puxou pela cintura com força, colando seus corpos.
— Então vamos vencer. Porque se eu perder você de novo... não vai sobrar nada de mim.
Gabriel não disse nada. Apenas o beijou. Dessa vez, o beijo não foi urgente, nem tomado por desejo. Foi firme, íntimo. Uma promessa silenciosa.
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Gabriel se afastou lentamente do beijo, mantendo a testa encostada na de Enzo. O silêncio entre eles era denso, carregado de tudo o que não conseguiam dizer em voz alta.
— Sabe o que mais me assusta nisso tudo? — Gabriel sussurrou.
— O quê? — Enzo perguntou, acariciando a nuca do outro com os dedos.
— Que mesmo sabendo quem você é, o que você representa… eu ainda escolheria você. — Gabriel confessou, os olhos marejando. — Parte de mim odeia isso. A outra… só quer fugir com você.
Enzo respirou fundo, sentindo o peito apertar.
— Eu daria qualquer coisa pra te tirar disso. Te proteger de tudo. Mas não posso. — Ele afastou uma mecha do cabelo de Gabriel com delicadeza. — Agora é tarde demais pra recuar. Você entrou nesse mundo por minha causa.
— Não. — Gabriel o interrompeu. — Eu entrei nesse mundo por causa da justiça. Mas continuo aqui… por sua causa.
Enzo desviou o olhar, lutando contra a emoção que ameaçava emergir. Ele sempre foi treinado para esconder fraquezas. Mas ali, com Gabriel, não conseguia manter as defesas.
— Então vamos sair juntos. — ele disse com convicção. — Quando tudo acabar. Eu tenho uma casa no sul da Itália. Escondida, silenciosa. Ninguém vai nos encontrar lá. Só eu e você. Longe da máfia. Longe das algemas.
Gabriel esboçou um sorriso fraco.
— Longe das cicatrizes?
Enzo o puxou para um abraço apertado.
— Algumas a gente carrega pra sempre. Mas se for ao seu lado… eu aguento todas.
Ficaram assim por alguns minutos, se abraçando no silêncio do galpão, como se aquele momento fosse o único refúgio verdadeiro que ainda restava.
Porque sabiam que, quando o sol nascesse no dia seguinte, estariam colocando tudo em jogo.
Mas agora, só por agora… eram apenas Gabriel e Enzo. Dois homens tentando amar no meio da guerra.
O dia seguinte seria um campo de guerra.
E eles estavam prontos.
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Atualizado até capítulo 31
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