O silêncio no apartamento contrastava com a agitação que dominava o coração de Gabriel. De volta à sua base temporária, ele se encarava no espelho do banheiro. O reflexo não mostrava apenas um policial; mostrava um homem dividido. Suado, com os lábios ainda levemente marcados por Enzo, ele tocou o próprio pescoço, onde um roxo começava a se formar.
Maldição...
Como ele deixara aquilo acontecer?
Pegou um punhado de água fria e jogou no rosto, tentando apagar os traços do que vivera horas antes. Mas nada apagava a lembrança daquele toque. Do gosto. Do olhar que dizia “você é meu”, mesmo depois de tantos anos.
Seu celular vibrou. Uma mensagem.
Sofia:
“Preciso falar com você. Descobri algo sobre a família Moretti.”
Respirando fundo, Gabriel se vestiu e saiu em direção a base da equipe. Precisava se manter focado. Enzo era o alvo da investigação mais importante da sua carreira. E apesar de tudo que sentia, ele ainda era o líder de uma máfia perigosa.
Ao chegar, encontrou Sofia debruçada sobre documentos e fotografias.
— Que cara é essa? — ela perguntou ao vê-lo entrar.
— Dormi mal. — mentiu, desviando o olhar.
Sofia franziu a testa, mas não insistiu. Em vez disso, empurrou um dossiê na direção dele.
— Lembra da empresa fachada dos Moretti em Milão? Recebemos uma denúncia anônima. Parece que eles estão lavando dinheiro por meio de contratos falsos com uma empresa de segurança no Brasil.
— Brasil? — Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Sim. E tem mais. Descobrimos que um dos investidores dessa empresa é Matteo Rizzo. Ele está mais envolvido do que pensávamos.
Gabriel folheou os documentos. As conexões começavam a se entrelaçar como uma teia. E no centro dela... Enzo.
— Acha que Enzo sabe?
Sofia hesitou por um segundo antes de responder:
— Enzo sabe de tudo. Ele está no topo dessa pirâmide, Gabriel. E se você acha que ainda existe algo nele que possa ser salvo, está se enganando.
Gabriel permaneceu em silêncio. As palavras dela doíam porque carregavam verdades que ele não queria encarar.
Enquanto isso, no esconderijo dos Moretti, Enzo fitava a cidade do alto da sacada. O cigarro queimava entre seus dedos, mas ele mal percebia. Matteo entrou no cômodo, os olhos escuros fixos no irmão.
— Você o viu, não é? — perguntou.
Enzo não respondeu.
— Achei que fosse esperto o suficiente pra manter distância dele.
— Você não entende... — Enzo murmurou. — Ele não é qualquer um. É o Gabriel.
Matteo bufou.
— Justamente por isso ele é perigoso! O cara é policial, Enzo. Você sabe o que ele está tentando fazer. Ele quer destruir o que a nossa família construiu.
— E ainda assim... — Enzo apagou o cigarro — ...não consigo odiá-lo.
Matteo se aproximou, sério.
— Vai ter que escolher. Ele ou a gente. Amor ou lealdade. Você sabe como isso funciona.
Enzo olhou nos olhos do irmão, e algo mudou neles. Um brilho de determinação.
— E se eu quiser os dois?
Naquela noite, Gabriel caminhava pelas ruas da cidade, tentando clarear a mente. Cada passo ecoava como um conflito entre dever e desejo. Ele sabia que se continuasse a ceder a Enzo, tudo estaria perdido.
Mas então, no beco ao lado de um velho armazém, ele ouviu passos. E logo, uma voz grave e familiar:
— Você está me procurando, ou tentando fugir de mim?
Enzo. De novo.
Gabriel virou-se devagar, mantendo a mão perto da arma.
— Está me seguindo?
— Digamos que eu tenho um talento pra te encontrar. — Enzo deu um meio sorriso, mas seus olhos estavam sérios. — A gente precisa conversar.
— Sobre o quê? Como vai ser sua sentença? Ou o quanto você tem corrompido?
— Sobre nós.
Gabriel riu sem humor.
— Não existe nós. Existe um policial e um criminoso. Essa é a realidade.
— Então por que nós transamos?
Gabriel hesitou.
— Porque... porque você ainda mexe comigo. Mas isso não muda quem você é.
Enzo se aproximou mais um passo. Estava a centímetros de distância agora.
— E quem eu sou, Gabriel? O vilão da sua história? Ou o homem que você amou antes mesmo de entender o que era amor?
A mão de Enzo tocou o rosto dele, gentil.
Gabriel lutava consigo mesmo. Seu corpo pedia aquele toque. Sua alma gritava por justiça.
— Eu devia te algemar agora mesmo.
— Então faça. — Enzo encostou o pulso no peito dele. — Me prende, Gabriel. Mas saiba que mesmo algemado, ainda vou te amar.
Os olhos dos dois se encontraram. Tensão. Desejo. Dor.
Gabriel empurrou Enzo contra a parede e o beijou com força. Um beijo desesperado, de quem não sabia mais como resistir.
As mãos de Enzo encontraram a cintura dele, puxando-o com força. Gabriel gemeu entre os beijos, os corpos colados, as respirações aceleradas.
— Você está me destruindo... — Gabriel sussurrou.
— Então me deixa destruir com você. — Enzo respondeu, entre carícias.
Eles se entregaram mais uma vez, ali mesmo, entre sombras e promessas impossíveis, como se o mundo não existisse além da pele e dos suspiros.
___
A Descoberta de Luca
Enquanto Enzo e Gabriel se perdiam no calor do momento, alguém os observava das sombras.
Luca Moretti, o irmão mais velho de Enzo, se manteve imóvel, escondido atrás de um contêiner, os olhos frios fixos na cena diante dele. O cheiro de traição era mais forte que qualquer coisa no ar.
Ele já suspeitava havia algum tempo. Enzo andava distraído, vulnerável, cometendo erros que nunca cometeria. Agora, tinha a confirmação.
Seu irmão estava envolvido com um policial.
Quando o beijo entre os dois finalmente cessou, Gabriel encostou a testa na de Enzo, os dedos apertando sua jaqueta.
— Isso não pode continuar...
— Mas vai — Enzo respondeu, convicto.
Luca cerrou os punhos.
Se Enzo não tivesse coragem de fazer o que precisava ser feito, ele faria.
Afinal, na máfia Moretti, não havia espaço para fraquezas.
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Atualizado até capítulo 31
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