Capítulo 18: Refúgio

O chalé afastado na serra era cercado por pinheiros altos e uma densa neblina que parecia proteger o lugar do mundo. Era discreto, frio, silencioso. Um esconderijo perfeito.

Gabriel encostou a mala na parede e observou Enzo acender a lareira. O calor começou a preencher o ambiente, mas o silêncio entre eles era denso como a fumaça da madeira.

— Nunca pensei que terminaria assim... — Enzo quebrou o silêncio, sem tirar os olhos do fogo. — Exilado. Com uma recompensa na cabeça.

— Pelo menos você não está sozinho. — Gabriel disse, aproximando-se, e sentando no sofá ao lado dele.

— Isso muda tudo. — Enzo murmurou, virando-se para encará-lo. — Você mudou tudo, Gabriel.

O policial suspirou e apoiou os cotovelos nos joelhos. O peso dos últimos dias ainda estava em seus ombros.

— Ainda não acabou. Luca pode estar preso, mas o império dele não vai cair tão fácil. Tem gente que vai querer vingança. E a polícia não vai descansar enquanto não me encontrar. Nem você.

— Acha que me arrependo? — Enzo questionou com um sorriso triste. — Se voltasse no tempo, faria tudo de novo. Desde o momento que te vi naquela maldita sala da universidade até o último tiro naquele galpão.

Gabriel riu de leve.

— Eu também. Ainda lembro quando você pegava café errado só pra vir falar comigo.

— Estratégia. — Enzo se aproximou, o olhar mais suave. — E funcionou.

O silêncio voltou por alguns segundos, mas dessa vez foi diferente. Cheio de tensão, de algo prestes a transbordar.

— Por que não me procurou antes? — Gabriel perguntou de repente. — Depois da formatura.

— Porque eu sabia que se te visse de novo, não conseguiria ir embora. — Enzo respondeu, agora bem perto. — E eu tinha que proteger você... até mesmo de mim.

As palavras foram ditas com dor e arrependimento, e Gabriel sentiu o coração apertar. Aquela confissão era mais valiosa do que qualquer prova, qualquer plano.

Sem dizer nada, ele segurou o rosto de Enzo e o beijou.

Dessa vez, não havia pressa. Era um beijo carregado de desejo contido, de promessas silenciosas e da vontade desesperada de esquecer o mundo lá fora.

Enzo respondeu com a mesma intensidade, suas mãos deslizando pelas costas de Gabriel, puxando-o para mais perto até que seus corpos estivessem colados. O calor da lareira já não era necessário.

— Sente isso? — Enzo sussurrou contra os lábios dele. — Eu nunca esqueci.

— Nem eu. — Gabriel murmurou de volta, enquanto o empurrava gentilmente contra o sofá.

As roupas foram tiradas com pressa, mas os toques eram cuidadosos. Como se cada parte do corpo um do outro precisasse ser redescoberta. Gabriel explorou cada centímetro da pele de Enzo com a boca e as mãos, como se quisesse gravar aquele momento para sempre.

Enzo gemeu baixo quando Gabriel o provocou, os olhos cerrados, os dedos se apertando contra os ombros do policial.

— Você é minha ruína... — ele sussurrou, arfando. — E meu único refúgio.

Os movimentos eram ritmados, intensos, e misturavam vulnerabilidade com paixão crua. Ali, no meio da noite, entre suspiros e gemidos abafados, eles se pertenciam.

Quando o ápice veio, foi como uma libertação. Um alívio que quebrou barreiras e cicatrizes antigas. Gabriel deitou-se sobre Enzo, o coração ainda acelerado, o corpo colado ao dele.

— Estamos ferrados. — ele disse, rindo contra o pescoço do outro.

— Completamente. — Enzo respondeu, sorrindo. — Mas nunca estive tão certo de alguma coisa.

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Na madrugada, Gabriel acordou com um pressentimento estranho. Levantou-se devagar, ainda nu, e pegou a arma do criado-mudo.

Silêncio.

Ele saiu para o lado de fora do chalé. A floresta estava calma, mas havia pegadas na neve. Recentes.

— Merda... — ele sussurrou, voltando correndo para dentro.

Enzo já estava levantado, os olhos atentos.

— Sentiu também?

Gabriel assentiu.

— Alguém sabe que estamos aqui.

Eles se vestiram rapidamente. Matteo havia providenciado celulares descartáveis, e Gabriel pegou um deles para mandar um sinal de alerta para Sofia. Apenas uma palavra: “Localizado.”

— Vamos sair daqui antes do amanhecer. — Gabriel disse.

Enzo olhou para ele por alguns segundos, depois assentiu. Mas antes de sair, segurou o rosto de Gabriel mais uma vez e o beijou, firme, com gosto de urgência.

— Não importa onde, enquanto for com você.

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O carro serpenteava pelas estradas da serra, cortando a neblina que começava a se dissipar com os primeiros sinais da manhã. Gabriel dirigia em silêncio, os olhos atentos ao retrovisor a cada dois minutos. Enzo, no banco do passageiro, observava a estrada com os braços cruzados e a mandíbula tensa.

— Estamos sendo seguidos? — ele perguntou, quebrando o silêncio.

— Não tenho certeza. Mas tem um carro que está mantendo a mesma distância há uns dez minutos.

Enzo se virou discretamente para o espelho lateral. — Pode ser só coincidência...

— E pode ser um dos capangas do Luca. — Gabriel retrucou, firme. — Ou alguém da polícia que ainda acha que você é cúmplice dele.

O silêncio voltou a reinar por alguns segundos, até que Enzo soltou um suspiro pesado.

— Eu odeio correr. Não por medo... mas porque sempre parece que estamos fugindo do que somos.

Gabriel o encarou rapidamente, antes de voltar os olhos para a estrada.

— E o que somos?

— Dois homens tentando consertar um passado fodido. — Enzo respondeu, amargo. — Mas às vezes parece que tudo o que fazemos é deixar destroços pra trás.

Gabriel apertou o volante com mais força.

— Talvez seja isso mesmo. Mas se for, então que a gente construa algo com os destroços.

Enzo se calou por alguns segundos. Então, com um olhar distante, murmurou:

— Eu sonhei com você outro dia. Estávamos de novo naquela cafeteria da faculdade... só que dessa vez, você me beijava no meio de todo mundo. E eu não ligava.

Gabriel sorriu de canto.

— Deveria ter feito isso de verdade.

— Ainda dá tempo.

O carro atrás deles acelerou de repente, se aproximando. Gabriel imediatamente pisou mais fundo e desviou para uma estrada secundária de terra.

— Merda! Eles são bons. — ele disse, os olhos fixos no retrovisor.

Enzo sacou a arma.

— Quer parar e resolver isso?

— Não. Quero te manter vivo. — Gabriel respondeu, fazendo uma curva brusca e desaparecendo entre as árvores.

Eles seguiram em silêncio por um tempo, até que finalmente perderam o carro perseguidor. Quando pararam num posto de gasolina abandonado, ambos estavam em alerta máximo.

— Isso foi por pouco. — Enzo disse, descendo do carro e passando a mão nos cabelos.

— Eles sabem que a gente está em movimento. — Gabriel respondeu. — A partir de agora, cada parada é um risco. Cada estrada, uma escolha entre viver... ou morrer.

Enzo se aproximou devagar e segurou o rosto de Gabriel com as duas mãos.

— Então escolhe viver comigo.

Gabriel o olhou nos olhos, cansado, sujo, com a alma em frangalhos.

— É a única escolha que eu quero fazer.

Eles se beijaram ali mesmo, sob o céu pálido da manhã, cercados por silêncio e poeira.

O jogo recomeçava — mas agora, não havia mais máscaras. Apenas dois homens lutando pela chance de um futuro.

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O chalé ficou para trás, envolto pela névoa da madrugada.

O jogo ainda não havia terminado.

Mas agora, estavam prontos para enfrentá-lo.

Juntos.

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