A manhã seguinte chegou mais cedo do que Gabriel gostaria. Ele não conseguiu dormir naquela noite, o encontro com Enzo estava martelando em sua mente, como um tambor que ecoava dentro de seu peito. As palavras de Enzo ainda reverberavam, e a intensidade daquele olhar parecia ter queimado sua alma.
Ele estava em pé na sala de operações, os olhos fixos na tela à sua frente, observando as imagens das câmeras de segurança em um prédio no centro da cidade. O plano para capturar um dos membros-chave da máfia Moretti estava em andamento, e Gabriel tinha um papel importante a desempenhar.
Mas, ao invés de se concentrar nos detalhes da missão, sua mente continuava a vagar para aquele momento no restaurante. O jeito como Enzo se aproximou, o sorriso desafiador, a tensão que ficou no ar. Gabriel sentia o peso da missão, mas também sentia o peso de algo que não conseguia ignorar: o desejo. Um desejo proibido, mas que ele sabia que nunca havia desaparecido.
— Você está distraído hoje, Gabriel. — A voz de Sofia Almeida, sua melhor amiga e analista forense, soou ao seu lado, puxando-o de volta à realidade. — Está tudo bem?
Gabriel deu um sorriso forçado, tentando esconder sua preocupação. Sofia o conhecia há anos, desde a universidade, e sabia quando algo estava errado. Mas ele não podia contar a ela sobre Enzo. Não podia contar a ninguém. Isso significaria colocar tudo em risco.
— Tudo certo, Sofia. Só... um pouco cansado. — Ele desviou o olhar, focando novamente nas telas de segurança.
Sofia observou por um momento, com uma expressão que indicava que ela não acreditava no que ele dizia. Mas, como sempre, preferiu não insistir.
— Se precisar de algo, me avise. — Ela murmurou antes de se afastar para a mesa de operações.
Gabriel assentiu sem dizer mais nada. Seus olhos se fixaram nas imagens da tela novamente, mas ele não conseguia escapar do pensamento que o atormentava: Enzo. O que ele faria agora? Estaria ele mesmo, novamente, tão perto de Gabriel por causa da missão ou por algo mais?
A resposta era clara: Enzo queria algo mais. E Gabriel também queria. Mas esse "algo mais" era um caminho perigoso demais para seguir, uma estrada sem volta.
Ele ainda estava perdido em seus próprios pensamentos quando o som do telefone quebrou o silêncio. Era uma mensagem criptografada, um alerta sobre a operação que estava prestes a acontecer. Ele precisava ir até o local indicado imediatamente, com ou sem sua concentração.
Gabriel se levantou da cadeira e pegou a jaqueta, colocando-a rapidamente enquanto ajustava sua arma. Era hora de agir. Não havia mais espaço para dúvidas.
A operação começou como esperado. Gabriel e sua equipe estavam posicionados nos pontos estratégicos ao redor do prédio onde a transação de drogas da máfia Moretti estava prestes a acontecer. Ele estava pronto, cada movimento calculado, cada respiração controlada. Mas quando ele se aproximou da entrada principal do edifício, seu coração acelerou.
Enzo estava ali. Não no campo de visão de Gabriel, mas ele sabia que Enzo estava nos bastidores, controlando tudo. O instinto de Gabriel dizia que ele não seria capaz de escapar tão facilmente.
— Posição 4, repito, posição 4. — A voz de Ricardo Mendes soou no comunicador de Gabriel, trazendo-o de volta à realidade da missão. — A transação está em andamento. Cuidado com as saídas de emergência.
Gabriel acenou com a cabeça, ignorando o nervosismo crescente dentro dele. Sua missão era clara. Desmantelar a operação e capturar os responsáveis. Mas, à medida que se movia entre as sombras, ele sentia que havia algo mais, algo além do que seus olhos podiam ver.
Ele entrou silenciosamente no prédio, seus passos abafados pela espessa carpete do corredor. As luzes fracas da sala de segurança iluminavam os rostos de homens armados e pessoas importantes da máfia. Ele estava quase lá, perto de alcançar os líderes da operação, quando algo aconteceu.
Uma sombra se movia na escuridão à sua esquerda. Gabriel girou rapidamente, posicionando a arma, mas antes que pudesse agir, a figura apareceu à sua frente.
— Você não aprendeu, Gabriel? — A voz de Enzo foi como um sussurro, mas tinha o peso de uma acusação. — O que você está fazendo aqui? Não percebeu ainda que a batalha entre nós não acabou?
Gabriel sentiu seu corpo se tencionar, o suor frio percorrendo sua espinha. Não era possível. Como ele estava aqui? Como Enzo sempre conseguia estar no lugar certo, no momento certo?
— Você... — Gabriel gaguejou, sem conseguir processar o que estava acontecendo. — Não devia estar aqui. Isso não é mais seu mundo.
Enzo riu baixinho, a arrogância em seu sorriso claro, enquanto dava um passo em direção a Gabriel.
— E quem decide isso, Gabriel? Você? — Enzo deu mais um passo, agora tão perto que Gabriel podia sentir a pressão de sua presença. — Você está lutando por algo que nunca vai alcançar. No fim, você vai ter que escolher entre a lealdade à lei ou a lealdade a mim.
Gabriel sentiu a pressão aumentar. Ele estava a um fio de cair na armadilha que Enzo havia armado para ele. Mas ele não podia ceder. Não agora. Não quando havia tanto em jogo.
— Eu não sou mais aquele garoto que você conheceu, Enzo. Não sou mais seu amigo. Sou um policial. E vou fazer o que é certo, mesmo que isso signifique destruir tudo o que você construiu. — As palavras saíram com uma força que surpreendeu Gabriel, mas não havia como voltar atrás.
O sorriso de Enzo desapareceu por um momento, e seus olhos se tornaram sombrios, perigosos.
— Então prepare-se, Gabriel. Porque a guerra que você está começando vai mudar tudo.
Gabriel sentiu o peso das palavras, como se o chão estivesse se abrindo abaixo de seus pés. Ele sabia que estava entrando em um jogo onde as apostas eram mais altas do que ele jamais imaginou.
___
O silêncio entre eles se tornou insuportável. Gabriel sentia seu coração martelando contra o peito, mas sua expressão permaneceu firme. Ele não podia fraquejar.
Enzo inclinou ligeiramente a cabeça, observando cada reação de Gabriel como um predador estudando sua presa. Então, com um movimento ágil e inesperado, ele se aproximou ainda mais.
— Você acha que pode me derrotar, Gabriel? — sussurrou, sua voz carregada de ironia e algo mais sombrio. — Que pode me apagar da sua vida como se eu nunca tivesse existido?
Gabriel queria recuar, mas não podia demonstrar fraqueza. Seu olhar encontrou o de Enzo, e por um instante, ele viu algo ali. Uma chama. Algo que não deveria estar presente naquela guerra velada entre eles.
— Não importa o que aconteça, Enzo. Vou cumprir minha missão.
Um sorriso torto surgiu nos lábios do mafioso. Ele levou uma das mãos ao bolso do paletó e puxou um pequeno papel dobrado.
— Então me diga, policial... por que isso estava no meu bolso depois daquela noite no restaurante?
Ele jogou o papel no peito de Gabriel, que o pegou instintivamente. Suas mãos hesitaram antes de abrir o bilhete. Quando o fez, sentiu o sangue gelar.
Era um guardanapo do restaurante. Seu próprio rabisco estava ali, um número de telefone escrito às pressas.
— Eu nunca escrevi isso... — Gabriel murmurou, a confusão tomando conta de sua expressão.
Enzo riu baixinho.
— Não? Então talvez tenha sido seu subconsciente, te traindo.
Antes que Gabriel pudesse responder, um barulho de passos apressados ecoou pelo corredor. O comunicador em seu ouvido chiou.
— Gabriel! Saia daí agora! A operação foi comprometida! Repito, retire-se imediatamente!
Ele desviou o olhar por um segundo, mas quando voltou a encarar Enzo... ele já não estava mais lá.
O mafioso havia sumido como uma sombra na escuridão, deixando apenas o bilhete em suas mãos e um turbilhão de dúvidas em sua mente.
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Atualizado até capítulo 31
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