Capítulo 17: A Armadilha

A noite caiu como um véu sobre a cidade, escondendo nos becos e sombras os segredos mais sombrios do submundo. Gabriel vestia um uniforme tático falso, capuz cobrindo metade do rosto, carregando apenas o necessário: pen drive com os arquivos coletados por Sofia, uma arma carregada e o coração acelerado.

Do outro lado da cidade, Enzo caminhava para o armazém da zona leste. Seu terno escuro contrastava com o caos da noite, mas sua expressão era fria. Controlada. Como se não fosse um homem prestes a trair a própria família.

— Matteo, está com o equipamento? — ele perguntou ao se aproximar do galpão.

— Câmera no bolso, microfone ativado. Assim que o Luca chegar, começamos. — Matteo respondeu, mas seus olhos estavam inquietos. — Você tem certeza disso, Enzo?

— Nunca tive tanta certeza de nada. — ele respondeu, antes de encarar a imensa porta metálica do galpão que começava a se abrir.

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Na central de polícia, Gabriel entrou como um fantasma. As câmeras haviam sido desativadas por Sofia. O alarme, desativado. Ele sabia os corredores de cor, cada sala, cada código. Ao chegar na sala de comunicações, conectou o pen drive no sistema principal.

Os vídeos começaram a ser transferidos: encontros de Luca com Ricardo, depósitos, escutas telefônicas. A verdade estava ali, crua, suja, imperdoável.

De repente, passos. Gabriel se virou, arma em punho, e congelou ao ver Ricardo parado na porta.

— Sabia que não resistiria. — Ricardo disse, apontando a própria arma para ele. — Você cavou a própria cova, garoto.

— E você cavou a sua anos atrás. — Gabriel respondeu, os olhos firmes. — Está tudo aqui, Ricardo. Todo mundo vai saber quem você é de verdade.

— Você nunca vai sair daqui com esse pen drive. — o homem rosnou.

Mas antes que qualquer um pudesse atirar, um disparo ecoou do corredor. Ricardo caiu no chão, gemendo, atingido na perna. Sofia apareceu logo atrás, pálida, com a mão tremendo segurando a arma.

— Eu disse que cuidaria das suas costas. — ela sussurrou para Gabriel.

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No galpão, Luca finalmente apareceu, cercado por quatro homens armados.

— Enzo, meu irmão... espero que tenha vindo com boas notícias. — ele disse com um sorriso sinistro.

Enzo engoliu em seco, tentando manter a postura.

— O carregamento está seguro. Mas acho que precisamos conversar. — Enzo respondeu.

— Sobre o quê? — Luca perguntou, desconfiado.

— Sobre traição. — Matteo interveio. — A sua.

Luca sorriu, um sorriso que não alcançou os olhos.

— Você sempre foi o mais fraco, Enzo. Acha que pode me derrubar? Logo você?

— Não estou sozinho. — Enzo respondeu, sinalizando discretamente para Matteo ativar a transmissão.

Em segundos, o áudio das confissões de Luca começou a ecoar no galpão, vindo do pequeno transmissor escondido. Ele falava sobre assassinatos, tráfico, pagamentos a policiais... tudo ali, em alto e bom som.

Os homens de Luca se entreolharam, hesitantes. Um deles deu um passo atrás. Luca percebeu.

— TRAÍDORES! — ele gritou, sacando a arma.

Um tiro foi disparado — mas não por ele.

Enzo atirou primeiro.

A bala acertou o ombro de Luca, que caiu no chão, berrando de dor.

— Isso é pelo pai. — Enzo disse com os olhos cheios de raiva. — E por tudo que me obrigou a fazer.

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Horas depois, a cidade amanheceu com a notícia estampada nas manchetes:

“Líder da máfia Moretti é preso após delação e provas internas. Escândalo expõe corrupção dentro da polícia.”

Gabriel e Enzo assistiram à TV em silêncio, dentro de um quarto de hotel longe da cidade. Matteo e Sofia cuidavam da retaguarda. A operação tinha sido um sucesso — mas agora, eram fugitivos de ambos os mundos.

— Ainda quer fugir comigo? — Enzo perguntou, deitado ao lado de Gabriel na cama, o braço envolvido em seu peito.

— Sempre quis. Só precisava de uma desculpa. — Gabriel respondeu com um sorriso cansado.

— E agora? — Enzo perguntou, beijando a pele do ombro dele.

— Agora... — Gabriel virou-se de frente para ele. — Agora é só você e eu. Contra o mundo.

O beijo veio lento, carregado de alívio e desejo reprimido. Pela primeira vez, estavam livres — mas o caminho à frente ainda seria perigoso. Eles sabiam disso.

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O hotel onde Gabriel e Enzo estavam escondidos era simples, mas seguro. As paredes abafavam o som do mundo lá fora, mas dentro daquele quarto, o silêncio era denso, carregado por tudo o que haviam vivido nas últimas horas.

Gabriel se sentou na beira da cama, olhando pela janela entreaberta. A cidade ainda dormia, alheia ao caos que havia sido evitado por um fio. Ele sentia o corpo tenso, a adrenalina começando a ceder lugar à exaustão.

Enzo surgiu atrás dele, apenas com uma toalha amarrada na cintura, cabelo úmido após o banho rápido. Ele o observou em silêncio por alguns segundos antes de se aproximar.

— Você não dormiu nada. — murmurou, colocando uma mão no ombro de Gabriel.

— Não consigo. — Gabriel respondeu, a voz rouca. — Acho que meu corpo ainda não entendeu que acabou.

Enzo se ajoelhou à frente dele, forçando Gabriel a encará-lo.

— Não acabou. — disse, firme. — Só mudamos o inimigo.

Os olhos de Gabriel se suavizaram. Ele sabia que Enzo tinha razão. Mas, por um momento, queria esquecer. Queria sentir.

— E se amanhã tudo desabar? — Gabriel perguntou, quase num sussurro.

— Então vamos cair juntos. — Enzo respondeu, antes de puxá-lo para um beijo lento e profundo.

O quarto escureceu ainda mais quando a cortina foi fechada. Enzo guiou Gabriel para a cama com calma, como se cada toque fosse uma promessa silenciosa. Ali, entre lençóis bagunçados e respirações entrecortadas, o mundo sumiu.

A urgência que os acompanhava nos últimos dias deu lugar a um desejo mais íntimo, mais sincero. Gabriel se entregou ao toque de Enzo, aos beijos que percorriam sua pele, às mãos que traçavam caminhos já conhecidos, mas agora com outro peso — o de uma liberdade recém-conquistada.

Quando seus corpos se uniram, não havia pressa, apenas a necessidade de pertencer um ao outro. Os gemidos abafados e os olhares intensos diziam mais do que qualquer palavra. Eles se amaram com a intensidade de quem pode não ter o amanhã, mas também com a ternura de quem sabe que, finalmente, está onde deveria estar.

E quando tudo terminou, ofegantes e entrelaçados no escuro, Gabriel sussurrou:

— Eu te amo, Enzo.

Enzo não hesitou.

— Eu sempre te amei. Mesmo quando te odiei por ter ido embora.

O silêncio voltou a dominar o quarto. Mas, dessa vez, era confortável.

Eles adormeceram lado a lado, pela primeira vez sem fantasmas entre eles.

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Comments

Jackeline Lins

Jackeline Lins

aí que lindo

2025-04-01

1

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