Capítulo 7 – O Casamento Frio
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Visão de Selene
O ar dentro da imponente Catedral de Saint-Michel estava carregado de murmúrios contidos e olhares furtivos. O casamento de Cédric Valmond, um dos homens mais poderosos e desejados da nobreza, deveria ser uma celebração grandiosa, mas em vez disso, o ambiente era sombrio, quase melancólico.
A luz das velas dançava sobre os rostos dos convidados, que se encontravam elegantemente vestidos, adornados com joias que cintilavam como estrelas. Mas nada naquele momento tinha brilho para Selene D’Archambeau.
Ela estava ali, diante do altar, com um vestido branco impecável, ricamente bordado com fios dourados, que deveria simbolizar pureza e felicidade. Mas para Selene, era um fardo.
Seu coração batia acelerado, não por emoção, mas por ansiedade. Por anos, ela havia alimentado um amor silencioso e devotado por Cédric, mas naquele instante, ao fitá-lo ao seu lado, percebeu que aquele sonho romântico nunca passaria de um delírio seu.
O duque estava ali porque precisava estar.
Seus olhos cinzentos, tão enigmáticos e penetrantes, estavam vazios, distantes. Ele olhava para frente, sem sequer lançar um único olhar para ela.
E Selene sabia por quê.
Amara Valmond.
O nome ecoou em sua mente como uma faca retorcida.
Mesmo morta, Amara continuava presente. Um espectro intransponível. A mulher que um dia ocupou aquele lugar ao lado dele, a mulher que ele acreditava ter amado.
Mas Selene sabia a verdade.
Antes de morrer, Amara revelou algo a Cédric. Algo que ele jamais compartilharia, mas que, de alguma forma, pesava sobre ele naquela noite.
"Eu nunca te amei."
Foram essas as palavras de Amara no leito de morte.
E então, antes de seu último suspiro, ela disse algo ainda mais devastador:
"Mas Selene... Selene sempre te amou."
Selene não sabia o que aquelas palavras significavam para Cédric, mas pelo modo como ele se fechara ainda mais depois da morte da esposa, podia imaginar.
Ele as negava.
Negava que fossem verdade.
Negava que Selene pudesse significar algo para ele.
E agora, ali estavam eles, selando uma união que nunca deveria ter acontecido.
— Duque Cédric Valmond, aceita tomar Selene D’Archambeau como sua esposa, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
O silêncio caiu sobre a catedral.
Selene prendeu a respiração.
Cédric hesitou.
Foi apenas um instante, mas para Selene, pareceu uma eternidade.
Então, sua voz ecoou firme, mas sem emoção:
— Aceito.
Seu coração apertou, mas ela forçou um sorriso delicado, sabendo que não passava de uma máscara.
Quando chegou sua vez, sua resposta veio sem hesitação:
— Aceito.
E então, veio o beijo.
Cédric virou-se para ela, aproximando-se lentamente. Selene tentou ignorar o aperto no peito, tentando se convencer de que aquele momento significava algo.
Mas quando seus lábios se tocaram, tudo desabou.
O beijo foi breve, sem paixão, sem calor. Um simples toque formal, frio como o inverno.
Os aplausos soaram pelo salão, mas eram educados, sem entusiasmo.
Entre os convidados, Selene notou uma presença inesperada: Claire D’Archambeau, sua prima distante. Claire raramente aparecia em eventos, mas ali estava ela, observando tudo com um olhar perspicaz e indecifrável.
Quando saíram da catedral, as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
Selene ergueu o rosto para o céu nublado.
Talvez fosse um presságio.
Ou apenas um reflexo de sua própria tristeza.
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Visão de Cédric
O nome de Amara ainda ecoava em sua mente.
O véu da catedral, os rostos dos convidados, o altar… nada daquilo parecia real.
Ele estava prestes a se casar novamente, mas sua mente ainda estava presa ao passado.
A última vez que viu Amara viva, ela estava pálida e frágil, sua beleza desvanecendo-se diante da morte iminente. Ele segurou sua mão, acreditando que ouviria palavras de despedida cheias de amor.
Mas o que Amara disse naquele dia destruiu tudo.
— Eu nunca te amei.
Ele sentiu como se tivesse sido atingido por um golpe invisível.
Mas ela não parou ali.
Com um sorriso fraco e irônico, continuou:
— Mas Selene... Selene sempre te amou.
Cédric se recusava a acreditar.
Selene? A doce e reservada Selene?
Ele sempre soube que ela o admirava, mas amar? Não. Ele não podia aceitar isso.
Porque se aceitasse, teria que encarar a verdade mais cruel.
Amara nunca o amou.
Mas Selene sim.
Agora, parado diante do altar, prestes a selar seu destino ao lado de Selene, ele sentiu o peso daquele momento.
Quando o arcebispo fez a pergunta, seu corpo travou.
Seus olhos cinzentos se voltaram brevemente para Selene, e então, ele percebeu o que sempre ignorou.
Havia esperança nos olhos dela.
Ela o amava.
Mas ele ainda se agarrava ao fantasma de outra mulher.
Depois de uma breve hesitação, pronunciou as palavras:
— Aceito.
Não porque queria.
Mas porque era o que precisava fazer.
Quando chegou o momento do beijo, ele se aproximou, mas o fez sem emoção. Seus lábios tocaram os dela por um instante, sem envolvimento, sem calor.
Selene não recuou.
Mas ele sentiu quando seu corpo ficou tenso.
Ela percebeu.
Ela sabia que aquele casamento nunca teria amor.
A cerimônia terminou, e a recepção no castelo Valmond seguiu sem vida.
Horas depois, na escuridão do quarto de núpcias, Cédric encarou a figura de Selene sentada na beira da cama. Sua camisola branca contrastava com sua pele pálida, e seu olhar estava cheio de algo que ele não queria decifrar.
Por um momento, um desejo desconhecido passou por ele.
Mas ele se afastou.
Ele não poderia fazer isso.
Não quando ainda se sentia preso ao passado.
— Não espere nada de mim esta noite, Selene.
Sua voz soou dura, cruel.
Ela piscou, surpresa, mas não chorou.
Não implorou.
Isso o irritou mais do que deveria.
Ele saiu do quarto sem olhar para trás, mas enquanto caminhava pelos corredores escuros do castelo, sentiu algo diferente daquela vez.
Selene estava casada com ele.
Ela sempre o amou.
Mas e se…
E se, um dia, ele descobrisse que também poderia amá-la?
A ideia o assombrou.
E ele a rejeitou.
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Comments
Ana Zélia
É, tomara q ele caia do cavalo 🐎
2025-03-17
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