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Capítulo 5 – O Duque Viúvo
O castelo Valmond estava mergulhado em um luto sombrio. Desde a fatídica noite da tempestade, quando Amara perdeu a vida em sua fuga desesperada, nenhum som de alegria ecoava pelos vastos corredores de pedra fria.
As tapeçarias que costumavam ser vibrantes pareciam agora desbotadas sob a pouca luz das velas, cujas chamas tremulavam, projetando sombras distorcidas nas paredes. Os criados moviam-se como fantasmas, seus sussurros abafados pelo peso da tragédia. Ninguém ousava perturbar o silêncio que pairava sobre o castelo como uma maldição.
Mas a maior mudança estava no próprio senhor de Valmond.
O duque Cédric, outrora um homem imponente, não saía de seus aposentos desde que trouxera o corpo sem vida de Amara de volta ao castelo. No dia seguinte, ordenara um funeral digno, mas não comparecera.
Ele não chorou. Não pronunciou uma única palavra.
Simplesmente fechou-se no escuro de seu quarto e deixou-se consumir por uma dor silenciosa.
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Selene caminhava pelos corredores vazios, segurando um livro contra o peito. Não conseguia se concentrar na leitura, tampouco afastar os pensamentos que a assombravam desde aquela noite.
Ela se lembrava vividamente da expressão devastada de Cédric ao carregar o corpo inerte de Amara nos braços. A chuva escorrendo por seu rosto, misturada às lágrimas que ele se recusava a derramar.
Ela não sabia o que doía mais: ver o homem que amava em um sofrimento tão profundo ou saber que aquele sofrimento era por outra mulher.
Amara nunca o amou. Suas promessas eram vazias, sua devoção, falsa. Mas Cédric não enxergava isso.
Para ele, Amara era tudo.
Selene sabia que ele estava despedaçado, mas também sabia que não aceitaria consolo de ninguém.
Ainda assim, seu coração teimava em se preocupar.
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Na manhã seguinte, enquanto folheava um livro sem realmente absorver as palavras, um criado se aproximou com passos hesitantes.
— Senhorita Selene...
Ela ergueu os olhos, notando a inquietação na postura do jovem.
— O que houve?
— O duque... ele não sai do quarto há dias. Não fala com ninguém, não come.
Selene franziu a testa.
— Ele precisa se alimentar.
— Sim, mas... ninguém tem coragem de insistir.
O silêncio pairou entre eles.
Então, com um suspiro decidido, Selene fechou o livro.
— Eu irei vê-lo.
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Os corredores que levavam aos aposentos do duque pareciam ainda mais frios e escuros do que o resto do castelo. A cada passo, Selene sentia um peso crescer dentro de si.
Ao parar diante da porta de madeira maciça, respirou fundo antes de bater.
Nenhuma resposta.
Ela bateu de novo, dessa vez com mais firmeza.
— Cédric.
Nada.
Seu coração acelerou em preocupação. Por um instante, imaginou o pior. Ele poderia estar inconsciente? Doente?
Hesitou apenas por um momento antes de girar a maçaneta. Para sua surpresa, a porta não estava trancada.
O quarto estava mergulhado em sombras. As cortinas pesadas permaneciam cerradas, impedindo qualquer vestígio de luz do dia. O ar era denso, impregnado pelo cheiro forte de álcool e pelo leve odor de madeira queimada, vindo da lareira onde brasas moribundas ainda brilhavam fracamente.
No centro do aposento, Cédric estava afundado em uma poltrona de couro escuro. Seus cotovelos repousavam sobre os joelhos, e ele segurava uma garrafa quase vazia entre os dedos.
Seu rosto, antes sempre impecável, estava marcado por olheiras profundas e pela barba negligenciada. Seus cabelos caíam desarrumados sobre a testa, e seu olhar, quando finalmente se ergueu para Selene, era vazio.
Ela nunca o tinha visto assim.
Cédric, o imponente duque de Valmond, estava destruído.
— O que está fazendo aqui? — Sua voz era rouca, carregada de cansaço e ressentimento.
Selene sentiu um nó na garganta, mas manteve a postura firme.
— Você precisa comer. Precisa reagir.
Ele soltou uma risada amarga, levantando a garrafa até os lábios.
— Para quê?
Selene caminhou até ele, ignorando o cheiro de álcool e a atmosfera opressiva. Com delicadeza, tomou a garrafa de suas mãos e a colocou longe de seu alcance.
— Isso não vai trazê-la de volta.
Cédric a encarou, os olhos brilhando com algo sombrio.
— E o que você sabe sobre isso, Selene? — sua voz saiu fria, mas havia uma vulnerabilidade escondida ali.
Ela se ajoelhou diante dele, os olhos fixos nos dele.
— Eu sei que você está se destruindo.
O silêncio entre eles se prolongou.
Cédric desviou o olhar, encostando a cabeça no encosto da poltrona com um suspiro exausto.
— Vá embora, Selene.
Ela sentiu a pontada no peito, mas não recuou de imediato.
Ficou ali, observando-o, lutando contra o desejo de tocar sua mão, de consolá-lo. Mas sabia que ele não aceitaria.
Por enquanto.
Levantando-se devagar, Selene lançou-lhe uma última olhada antes de sair do quarto, fechando a porta atrás de si.
Se ele achava que poderia se afundar para sempre naquela dor, estava enganado.
Ela não desistiria dele tão facilmente.
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Comments
Maria Célia
Solene vai tirar ele do luto
2025-03-20
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