2

Capítulo 2 – O Casamento Infeliz

A mansão Valmond era um monumento de grandiosidade e frieza. Seus corredores se estendiam como labirintos de mármore e tapeçarias luxuosas, adornados com retratos de ancestrais que pareciam observar cada visitante com um julgamento silencioso. O grande salão, onde as festividades costumavam acontecer, era um espetáculo de lustres reluzentes e colunas douradas, mas para Selene D’Archambeau, aquele lugar não passava de uma gaiola dourada.

Ela não pertencia àquele mundo.

Desde que sua família enfrentara dificuldades financeiras, seu pai, o Barão D’Archambeau, conseguira um favor especial: enviar Selene para viver entre os Valmond como dama de companhia de Lady Amara. A justificativa era que Selene aprenderia boas maneiras, se tornaria mais refinada e, com sorte, encontraria um casamento vantajoso. Mas a realidade era bem diferente.

Selene era invisível.

Ninguém a olhava duas vezes. E quando o faziam, era apenas para zombar de sua aparência simples. Ela não vestia sedas caras como as outras damas, suas joias eram discretas, e sua postura era sempre recatada. Talvez, se tivesse nascido em outra condição, tivesse sido admirada por sua beleza, mas naquele mundo, onde tudo era uma questão de status e aparências, ser discreta era quase um crime.

E, mais do que tudo, Selene via.

Ela via os segredos que ninguém admitia em voz alta.

Ela via como o duque Cédric Valmond jamais olhava verdadeiramente para sua esposa, e como Amara Valmond, em contrapartida, se certificava de que todos os olhares estivessem sempre sobre ela.

---

Naquela noite, um jantar reunia os nobres mais influentes da região. As taças eram preenchidas com vinhos caros, e as mesas serviam os pratos mais refinados.

Amara estava deslumbrante em um vestido de veludo vermelho, sua gargantilha cravejada de rubis repousando sobre a pele pálida. Ela sorria e conversava com os convidados, sua risada ecoando pelo salão como uma melodia ensaiada.

Selene, como sempre, permanecia no fundo, ocupando um lugar discreto na mesa. Ela deveria apenas ouvir, falar pouco e nunca, jamais, chamar atenção.

Mas mesmo no silêncio, ela via.

— Você me entedia, Cédric. — A voz de Amara cortou o ar como um estilete disfarçado de doçura.

Ela segurava uma taça de vinho e sorria, mas Selene percebeu a frieza no tom.

O duque, sentado à sua esquerda, permaneceu impassível. Seu rosto não demonstrava emoção alguma, mas Selene, que aprendera a observá-lo nos últimos anos, percebeu o jeito como seus dedos apertavam a taça apenas um pouco mais forte.

— O que seria de mim sem nossas noites tão… apaixonantes? — Amara murmurou, levando a taça aos lábios.

Houve risadas entre os convidados, mas Selene sentiu um arrepio.

Ela estava ridicularizando o próprio marido em público.

O duque simplesmente bebeu seu vinho, sem se dar ao trabalho de responder.

Amara sorriu, satisfeita.

Era um jogo.

Ela queria provocar uma reação. Queria que ele demonstrasse algo — irritação, ciúme, frustração — qualquer coisa que confirmasse que ainda tinha poder sobre ele. Mas Cédric Valmond não jogava o jogo de ninguém.

E talvez fosse isso que a enfurecia.

---

Mais tarde, quando os salões já estavam esvaziando e os convidados se despediam, Selene caminhava pelos corredores silenciosos da mansão, sentindo-se exausta.

Mas então, vozes baixas chamaram sua atenção.

Ela hesitou, parada junto a uma das grandes colunas, onde as sombras ocultavam sua presença.

— Você pode ao menos fingir que se importa? — A voz de Amara soou cortante.

Selene prendeu a respiração.

— Me importar com o quê? Com suas provocações infantis? — A resposta do duque veio baixa e fria.

Houve um silêncio tenso antes de Amara soltar uma risada seca.

— Você não me dá motivos para respeitá-lo.

A frase ficou no ar por um longo momento.

— E o que mais você deseja de mim, Amara? — Cédric perguntou, e Selene quase pôde ver o cansaço em seu rosto, mesmo sem olhar diretamente para ele.

— Nada. — Amara suspirou. — Você já me deu tudo o que eu queria. Um título. Riqueza. Poder.

Selene sentiu um aperto no peito.

Então era isso?

Não havia amor.

E, talvez, nunca houvesse existido.

Mas por que, então, ele continuava ao lado dela?

Essa era a pergunta que Selene não conseguia responder.

E talvez, nem mesmo Cédric Valmond soubesse.

---

Mais populares

Comments

Ana Zélia

Ana Zélia

Até eu quero saber Selene!,

2025-03-17

0

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!