CAPÍTULO 17

A luz do sol entrou como uma lâmina, cortando a penumbra do quarto. Ethan puxou as cortinas com um estrondo teatral, e eu enterrei o rosto no travesseiro, gemendo. A dor latejante nas têmporas parecia piorar a cada rajada de claridade.

— Você pode me deixar um dia sequer? — grunhi, a voz abafada pelo veludo do travesseiro.

— Óbvio que não — respondeu Ethan, imperturbável. Ouvi o farfalhar de papel e sabia o que vinha a seguir. — Temos uma lista de afazeres digna de um rei: café com as famílias nobres, inspeção dos estábulos, reunião com os conselheiros sobre as colheitas...

— Eu disse que só queria lidar com isso semana que vem — interrompi, sentando-me na cama com um movimento brusco. O lençol se enrolou nos meus pés, e a cabeça latejou como um tambor em ritmo de guerra. — Não quero ver ninguém. Não quero falar com ninguém. Só quero paz.

Ethan cruzou os braços, a postura relaxada, mas os olhos estreitos como os de um falcão avaliando a presa. — Isso seria antiquado, não? Um Alfa se escondendo do próprio reino?

A palavra "escondendo" ecoou na minha mente como um insulto. Senti o calor da raiva subir pelo pescoço, misturado à vergonha de saber que ele tinha razão. — Eu não estou me escondendo! — ergui a voz, as mãos se fechando nos lençóis. — Como Alfa, eu ordeno que me deixe em paz. Pelo menos um dia!

O silêncio que se seguiu foi cortante. Ethan parou de sorrir. Seus dedos apertaram o papel até amassá-lo, e pela primeira vez em anos, vi algo parecido com medo em seus olhos. Não medo de mim, mas medo por mim. Ele sentou-se na beirada da cama, devagar, como se eu fosse um animal selvagem prestes a atacar.

— Tem algo muito errado acontecendo — disse, em um tom mais baixo, quase suave. — E você não quer me contar.

Virei o rosto para a janela, evitando seu olhar. A luz do sol agora me parecia uma acusação. Quantas noites havia passado em claro, revirando os lençóis, perseguindo a imagem daquela figura na cozinha? A ômega dos meus sonhos, tão real quanto o cheiro de pão queimado que ainda impregnava o ar. Ela estava aqui. No meu castelo. E eu não sabia sequer o nome dela.

— Ethan... — comecei, engasgando nas próprias palavras. — Você acredita em assombrações?

Ele soltou um riso curto, forçado. — Não acredito nisso desde que tinha cinco anos e pensei que um lençol velho era um fantasma.

— Não esse tipo de assombração — falei, as unhas cravando-se nas palmas das mãos. — Do tipo... bom. Como se algo que só existia nos seus sonhos de repente... respirasse. Andasse. Olhasse pra você.

Ethan inclinou a cabeça, estudando meu rosto como se eu estivesse falando em línguas antigas. — Você está querendo se referir à senhorita Celeste? Finalmente se encantou por ela, é isso?

— Céus, não! — a resposta saiu mais áspera do que eu pretendia. Celeste era barulho, era luz ofuscante. A figura na cozinha era um sussurro, um reflexo de lua na água.

Ethan se levantou de um salto, as mãos agarrando os cabelos em um gesto dramático. — Então me explique, porra! — gritou, a voz ecoando nas paredes de pedra. — Você tem agido como um lobo encurralado há semanas, Kael. Anda em círculos, evita o próprio salão, quase morde a cabeça de qualquer um que pronuncia a palavra "casamento". E sequer tentou me dizer por quê!

Eu me levantei, as pernas trêmulas, e enfrentei seu olhar. Ethan não era apenas meu conselheiro. Era o irmão que escolhi, a única pessoa que sabia o gosto do sangue na minha boca após as batalhas, o peso da coroa antes que eu aprendesse a carregá-la.

Ele cruzou os braços, os olhos estreitados como se tentasse decifrar um enigma escrito em língua morta. O silêncio entre nós era pesado, cortado apenas pelo som da chuva batendo nas vidraças. Finalmente, eu respirei fundo e mergulhei nas palavras que há semanas queimavam minha garganta.

— Você se lembra daquela matilha do Sul? A que resistiu quando tentamos controlar as rotas de comércio?

Ethan inclinou a cabeça, os dedos tamborilando no braço da cadeira. — Não chamaria aquilo de "guerra". Eles mal tinham armas. Foi mais uma... limpeza. O alfa rebelde foi morto, trouxemos os sobreviventes. Eles servem aqui agora. Por que?

Eu engoli seco, as imagens daquele dia voltando como facas. — Naquele dia, eu vi algo. Uma ômega... — A voz falhou, e eu fechei os olhos, pressionando as pontas dos dedos contra as têmporas. — Alguns dos nossos soldados a tinham encurralado. Ela estava no chão, e eles... você sabe o que fazem em tempos de guerra.

Ethan parou de tamborilar. — E você interveio.

— Sim. — A palavra saiu rouca. — Eu a tirei dali. Cobri-a com meu manto.

Ele arqueou uma sobrancelha, o ceticismo escorrendo como veneno. — Kael, ela era uma escrava. Você a salvou de um estupro para entregá-la a uma vida de servidão. Que honra há nisso?

A raiva subiu, quente e repentina. — Não foi só isso! — Meu punho bateu no colchão, e Ethan recuou um centímetro, surpreso. — Algo... aconteceu. Algo que não consigo explicar. Desde aquele dia, meu lobo não para de uivar por ela. Eu a vejo todas as noites, Ethan. Nos meus sonhos, ela está lá—sorrindo, falando, vivendo. E ontem... — A voz quebrou, e eu engasguei, forçando as palavras a saírem. — Ontem eu a vi na cozinha. Ela é real.

Ethan ficou imóvel, os olhos arregalados. — Você está dizendo que...

— Estou dizendo que sonhei com uma escrava por anos e agora ela está aqui, sob este teto, e eu... — A garganta apertou, e eu me inclinei para frente, as mãos tremendo. — Não sei se é culpa, desejo ou loucura, Ethan. Só sei que quando a vi, foi como se alguém tivesse acendido um fogo nas minhas entranhas. Meu lobo quer ela. Só ela.

Ethan levantou-se de um salto, a cadeira rangendo no chão de pedra. — Santo céus, Kael! Você é o Alfa! Ela é uma serva, uma escrava! Mesmo que você a queira, mesmo que seu lobo a deseje, você não pode simplesmente...

— Eu sei! — Rugi, erguendo-me da cama. O quarto parecia pequeno demais, o ar pesado como chumbo. — Você acha que não passe noites acordado lembrando disso? Que cada olhar dela cheio de medo me corta como lâmina? Mas ela não é só uma escrava. Nos meus sonhos, ela é... — Parei, as palavras fugindo.

Ethan aproximou-se, a voz baixa e urgente. — Kael, ouça-se. Isso é perigoso. Se as famílias descobrirem que você está obcecado por uma serva, vão questionar seu julgamento. Sua autoridade. Você colocou todas aqui para escolher uma companheira digna, não para...

— Para quê, Ethan? — Interrompi, o tom ácido. — Para fingir que não sou humano? Que não posso sentir? — Avancei até ele, os passos ecoando como trovões. — Você quer que eu escolha uma dessas damas fingindo que não há uma ferida aberta no meu peito? Que eu finja que não a ouço respirar no mesmo castelo, tão perto e tão longe?

Ethan não recuou, mas seu rosto suavizou. — Kael...

— Não. — Recuei, esfregando o rosto com as mãos. — Não me diga para ser racional. Eu já tentei. E falhei.

O silêncio caiu novamente, mas agora era diferente—um vácuo carregado de tudo o que não fora dito. Ethan olhou para a chuva lá fora, os músculos da mandíbula tensionados. Quando falou, a voz estava rouca.

— O que você pretende fazer?

A pergunta pairou no ar como fumaça. Eu olhei para as mãos, ainda sentindo o calor do copo que ela havia segurado.

— Não sei. — A admissão saiu como um suspiro. — Mas se eu não descobrir quem ela é... se não a vir novamente... — Tremi, a voz sumindo em um sussurro. — Acho que vou enlouquecer.

Ethan fechou os olhos, como se rezando por paciência. — Está bem. — A palavra saiu grudada, relutante. — Mas você não pode procurá-la. Não agora, com as damas todas aqui. Se alguém suspeitar...

— Eu sei. — A interrupção foi seca. — Por isso preciso de tempo. De um dia. Só um dia para... respirar. Para pensar.

Ele suspirou, derrotado. — Você terá seu dia. Mas amanhã, Kael... amanhã você volta a ser o Alfa.

Eu acenei, o peso no peito aliviando-se um pouco. Ethan virou-se para sair, mas parou na porta, a mão no batente.

— Kael? — Sua voz estava suave, quase gentil. — Se ela é real... se ela é mesmo a pessoa dos seus sonhos... talvez valha a pena. Mas cuidado. Até sonhos têm espinhos.

Ele saiu, deixando-me sozinho com o eco de suas palavras e o fantasma de um cheiro que não conseguia esquecer—flores silvescinco e medo.

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