Depois de organizarmos os aposentos de Celeste, Harper me levou até a cozinha. O caminho era longo, passando por corredores estreitos e escadas secundárias que pareciam feitas para que os criados pudessem se mover sem serem vistos. Harper caminhava à minha frente, falando baixinho, como se estivesse compartilhando segredos de estado.
— Aquela é a cozinheira-chefe, Martha — ela sussurrou, apontando discretamente para uma mulher robusta de braços fortes e um olhar que poderia derrubar um lobo alfa com uma única expressão. — Ela não gosta que mexam nas panelas dela. Nem pense em tocar em nada sem pedir permissão, a menos que queira ganhar uma colher de pau na cabeça.
Eu acenei com a cabeça, tentando memorizar cada detalhe. Martha parecia o tipo de pessoa que não perdoava erros, e eu não estava disposta a testar a paciência dela.
— E aquele ali é o padeiro, Thomas — Harper continuou, indicando um homem mais magro, com farinha até nos cílios. — Ele é... bem, digamos que ele tem um ego maior que os pães que faz. Se elogiar o trabalho dele, ele vai te encher de bolos e pãezinhos. Mas se criticar, prepare-se para comer pão duro pelo resto da semana.
Eu quase ri, mas me contive. Era estranho ouvir Harper falar com tanto sarcasmo sobre as pessoas com quem trabalhava. Era como se ela estivesse me dando um mapa de sobrevivência, e eu estava mais do que disposta a segui-lo.
Finalmente, chegamos à cozinha. O cheiro era celestial — uma mistura de pão fresco, carnes assadas e ervas aromáticas. Meu estômago roncou tão alto que eu tive certeza de que Martha ouviu, mas, felizmente, ela estava ocupada repreendendo um dos ajudantes de cozinha por ter cortado os legumes do tamanho errado.
Harper me puxou para um canto mais discreto, longe dos olhares curiosos. Ela pegou um prato e começou a enchê-lo com um pouco de tudo: um pedaço de carne suculenta, batatas assadas com uma crosta dourada, legumes frescos e até um pãozinho ainda quente. Meu estômago roncou novamente, e minha boca ficou molhada. Fazia tanto tempo que eu não via tanta comida assim em um único prato que eu quase não sabia como reagir.
— Aqui — Harper disse, entregando o prato para mim. — Senta ali no banco. Ninguém vai te incomodar.
Eu olhei para o prato, depois para ela, sem saber o que dizer. Como agradecer por algo assim? Como explicar que, para mim, aquilo não era apenas comida, mas um gesto de humanidade que eu não experimentava há anos?
— Obrigada — consegui murmurar, minha voz um pouco trêmula.
Harper apenas sorriu, como se entendesse tudo o que eu não estava dizendo. — Vai, come. Você parece que vai desmaiar se não colocar algo no estômago.
Eu me sentei no banco, ainda meio desorientada. O cheiro da comida era tão tentador que eu quase não sabia por onde começar. Peguei o garfo com mãos trêmulas e levei um pedaço de carne à boca. O sabor explodiu na minha língua, e eu quase gemei de prazer. Era tão bom, tão reconfortante, que por um momento eu esqueci onde estava.
Harper se sentou ao meu lado, observando-me comer com um sorriso satisfeito. Eu me senti um pouco constrangida, como se estivesse sendo observada, mas ao mesmo tempo era reconfortante saber que alguém se importava o suficiente para garantir que eu estivesse bem.
— O que foi, a comida está ruim? — ela perguntou, brincando, quando percebeu que eu tinha parado de comer por um momento.
Eu engoli seco, tentando encontrar as palavras certas. Como explicar que era estranho ser tratada como gente? Como dizer que, depois de tanto tempo sendo tratada como uma coisa, um objeto, um pedaço de mobília, eu não sabia mais como reagir a gestos de bondade?
— Nada, é que... — comecei, mas as palavras falharam. Como poderia falar sobre algo tão íntimo, tão doloroso, com alguém que eu mal conhecia?
Harper não pressionou. Ela apenas continuou olhando para mim, seu sorriso gentil e paciente. — A comida é ótima, obrigada — eu disse finalmente, minha voz um pouco mais firme.
Ela sorriu, claramente feliz com a reação. — Fico feliz que tenha gostado. Você precisa se alimentar melhor, Selene. Não dá para sobreviver só de migalhas.
Eu olhei para o prato, sentindo uma onda de gratidão que eu não sabia como expressar. Harper não precisava fazer isso. Ela não precisava se importar. Mas ela fez, e isso significava mais do que ela poderia imaginar.
— Você é muito gentil — eu disse, minha voz quase um sussurro.
Harper deu de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Todo mundo precisa de um pouco de gentileza de vez em quando. E, além disso, eu gosto de você. Você não é como as outras.
— Quer dizer, você parece diferente. Sei lá, você não age como se fosse melhor do que todo mundo — Harper explicou, seu tom leve, mas sincero. Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa, enquanto eu terminava o último pedaço de pão. — Depois que as damas chegaram, eu tive que lidar com todo tipo de problema. Você não imagina o que é servir a essas jovens ricas e suas damas de companhia.
Ela fez uma pausa, olhando para mim com um sorriso sarcástico, como se estivesse prestes a compartilhar os segredos mais obscuros do castelo. — Teve uma dama de companhia, a tal da Lady Beatrice, que quase me fez perder a paciência. Ela chegou aqui exigindo que eu lavasse suas roupas pessoais à mão, porque, segundo ela, as lavadeiras comuns não sabiam "tratar tecidos finos". — Harper imitou a voz afetada da mulher, fazendo uma careta. — Como se eu não tivesse coisa melhor para fazer, não é?
Eu quase ri, mas me contive, tentando não chamar atenção. Harper continuou, claramente animada em ter alguém para desabafar.
— E não para por aí. Teve uma jovem, a filha do Alfa de uma matilha vizinha, que exigiu que eu trouxesse água quente para o banho dela no meio da noite. E quando eu disse que o fogo já estava apagado e que levaria um tempo para esquentar a água, ela me olhou como se eu tivesse insultado a linhagem inteira da família dela. — Harper suspirou, rolando os olhos. — E ainda teve aquele incidente com a dama de companhia que insistiu que o vinho estava "estragado" porque não era do ano que ela queria. Como se eu tivesse controle sobre a adega do castelo!
Eu olhei para ela, tentando imaginar como era lidar com tantas exigências absurdas. Harper parecia tão despreocupada ao falar sobre isso, como se fosse apenas mais um dia no trabalho. Mas eu conseguia ver a frustração nos olhos dela, a tensão nos ombros. Era difícil, mesmo para alguém tão forte quanto ela.
— Mas você... — Harper continuou, seu tom mudando para algo mais suave. — Você é diferente. Talvez porque você não fala muito, ou porque tem um pouco de educação. Não sei. Só sei que você não age como se fosse melhor do que todo mundo. E isso é... raro.
Eu me senti um pouco constrangida com o elogio, mas também agradecida. Era bom saber que, pelo menos para alguém, eu não era apenas mais uma ômega escrava. Era bom ser vista como uma pessoa.
— Obrigada — eu disse, minha voz um pouco mais firme desta vez. — Eu... eu tento não causar problemas.
Harper riu, um som leve e genuíno. — E é por isso que eu gosto de você. Você não é como as outras. E, falando nisso... — Ela se inclinou para frente, baixando a voz. — Teve uma dama em especial que eu realmente odiei. A tal da Lady Clarissa. Ela chegou aqui com ares de rainha, exigindo que todas as criadas se curvassem a ela como se fosse a própria Luna do Alfa. E, claro, ela tinha uma dama de companhia que era ainda pior. A mulher passava o dia inteiro reclamando de tudo — da comida, do quarto, até do cheiro das flores no jardim. Como se a gente tivesse controle sobre isso!
Eu olhei para Harper, imaginando como seria lidar com alguém assim. Era difícil até de imaginar. Eu já tinha problemas suficientes com Celeste.
— E o pior — Harper continuou, seu tom agora cheio de indignação — foi quando a Lady Clarissa exigiu que eu arrumasse o quarto dela novamente porque as cortinas não estavam "penduradas corretamente". Penduradas corretamente! Como se eu fosse uma especialista em cortinas! — Ela fez uma pausa, respirando fundo, como se estivesse tentando se acalmar. — Enfim, foi um pesadelo. Mas, felizmente, ela já foi embora. Graças aos deuses.
Eu sorri, sentindo um pouco de alívio por não ter que lidar com pessoas como a Lady Clarissa.
— E você? — Harper perguntou, seu tom mais suave agora, quase como se estivesse tentando me distrair dos pensamentos sombrios. — Como tem sido lidar com Celeste?
Eu hesitei, tentando encontrar as palavras certas. Como descrever Celeste sem parecer ingrata ou, pior, sem atrair problemas para mim mesma? — Ela é... complicada — eu comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Às vezes eu acho que ela tem algum distúrbio ou algo do tipo. Um dia ela está me tratando como se eu fosse a melhor amiga dela, e no outro... — Eu parei, lembrando dos gritos, das humilhações, da sensação constante de caminhar sobre cascas de ovo.
Harper riu, um som leve e reconfortante. — Ah, sim. A famosa bipolaridade da nobreza. Um dia você é a pessoa mais importante do mundo, e no outro você é pior que a sujeira debaixo das botas delas. — Ela fez uma pausa, olhando para mim com um sorriso sarcástico. — Mas, ei, pelo menos ela não te fez lavar as cortinas porque estavam "penduradas erradas", né?
Eu ri também, sentindo um pouco do peso sair dos meus ombros. Era bom rir, mesmo que fosse de algo tão absurdo. — Verdade. Ainda não chegou a esse ponto.
— Enfim, não quero estragar minha comida falando em Celeste — eu disse, tentando mudar de assunto. — Você sabe como é, né? — Eu sorri, pegando o último pedaço de pão e mergulhando-o no molho que sobrou no prato.
Harper riu novamente, balançando a cabeça. — Com certeza. Falar de patroas malucas é um ótimo jeito de perder o apetite.
E o resto daquele dia, nós nos preocupamos apenas em terminar de organizar as coisas. O trabalho era cansativo, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não me senti sozinha.
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Atualizado até capítulo 21
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