CAPÍTULO 6

POV DE KAEL

O escritório está silencioso, exceto pela voz constante de Ethan, que parece estar em um fluxo interminável de palavras. Ele está sentado à minha frente, uma pilha de papéis organizados com precisão militar sobre a mesa, enquanto fala sobre os preparativos para o baile. Cada detalhe é minuciosamente planejado — desde o cardápio até a disposição das mesas e a lista de convidados. Ethan é meticuloso, quase obsessivo, e eu deveria estar prestando atenção. Mas não estou.

Meu olhar está fixo na janela, onde o céu está pintado com tons de laranja e rosa, o sol começando a se esconder no horizonte. Meus pensamentos, no entanto, estão longe dali. O baile. A ideia de encontrar uma Luna. Tudo isso parecia tão simples quando Ethan sugeriu, mas agora... Agora eu não tenho tanta certeza.

— Kael? — A voz de Ethan corta meus pensamentos, e eu me viro para olhar para ele. Ele está com uma sobrancelha levantada, os olhos verdes estudando meu rosto com uma mistura de preocupação e curiosidade. — Você está me ouvindo?

— Claro — respondo, tentando parecer convincente. — Você estava falando sobre... os convidados.

Ethan suspira, claramente não convencido. — Eu estava falando sobre a segurança, Kael. Os convidados já foram discutidos há quinze minutos. — Ele cruza os braços, inclinando-se para trás na cadeira. — O que está acontecendo com você? Você não parece... você.

Eu olho para ele, tentando encontrar as palavras certas. Ethan é meu conselheiro, mas também é meu melhor amigo. Ele é a única pessoa que eu permito ver além da fachada do Alfa implacável. Mas mesmo assim, é difícil colocar em palavras o que estou sentindo.

— Eu só... — Começo, mas as palavras falham. Como explicar que a ideia de encontrar uma Luna, que parecia tão lógica, tão necessária, agora me enche de uma inquietação que não consigo nomear? — Será que foi uma boa ideia, Ethan? O baile, a Luna... tudo isso. Será que não é apenas uma perda de tempo?

Ethan olha para mim, sua expressão séria. — Kael, você precisa de uma Luna. Não é apenas uma questão de aparências ou de política. É sobre ter alguém ao seu lado, alguém que possa compartilhar o peso do que você carrega. Você não pode continuar sozinho.

Eu sei que ele está certo. Ter uma Luna ao meu lado faria sentido. Ela seria uma figura feminina próxima, alguém para equilibrar a frieza do meu comando, para suavizar as arestas do meu domínio. Mas então, por que esse sentimento persistente de que algo está errado? Por que a ideia de ter alguém ao meu lado me faz sentir... vazio?

— Eu só não sei se estou pronto — admito, minha voz mais baixa do que eu pretendia. — E se eu não conseguir... ser o que ela precisa?

Ethan olha para mim, sua expressão suavizando. — Kael, você é o Alfa. Você é forte, poderoso, e mais do que capaz de liderar. Mas você também é humano. E humanos precisam de conexões, de alguém que os entenda. Você não precisa ser perfeito. Você só precisa ser você.

Eu olho para ele, tentando absorver suas palavras. Ethan sempre foi o mais sábio entre nós, o mais centrado. Mas mesmo assim, há uma parte de mim que resiste. Uma parte que ainda está presa em sonhos, em uma figura que não consigo esquecer.

— Talvez você esteja certo — digo finalmente, minha voz carregada de resignação. — Talvez eu precise tentar.

Ethan acena com a cabeça, um sorriso satisfeito se formando em seus lábios. — Bom, então vamos nos concentrar nos preparativos. O baile será em duas semanas, e precisamos garantir que tudo esteja perfeito.

Eu assino com a cabeça, tentando me concentrar nas palavras dele. Mas, no fundo, minha mente ainda está presa naquela inquietação, naquela sensação de que algo está faltando. E não sei se um baile, ou uma Luna, será capaz de preencher esse vazio.

Enquanto Ethan continua falando, detalhando cada aspecto do evento, eu me permito mais um momento de distração. Meu olhar volta para a janela, para o céu que agora está tingido de tons mais escuros. A noite está chegando, e com ela, a promessa de mais sonhos, mais lembranças. E eu não sei se estou pronto para enfrentar o que vem a seguir.

— Kael — a voz de Ethan me traz de volta à realidade. — Você está bem?

Eu olho para ele, forçando um sorriso. — Estou bem, Ethan. Só... pensando.

Ele me olha por um momento, como se estivesse tentando decifrar meus pensamentos. Mas, finalmente, ele acena com a cabeça, voltando aos papéis sobre a mesa. — Certo. Então, sobre a segurança...

Eu tento me concentrar nas palavras dele, mas minha mente continua vagando. O baile está chegando, e com ele, a possibilidade de encontrar uma Luna. Mas, no fundo, sei que não será tão simples. Porque, enquanto meu coração ainda estiver preso em sonhos, em uma figura que não consigo esquecer, nenhuma Luna será capaz de preencher o vazio que ela deixou.

Ethan finalmente termina de detalhar os preparativos do baile, empilhando os papéis com uma precisão que só ele consegue ter. Ele me olha por um momento, como se estivesse esperando que eu dissesse algo mais, mas eu apenas aceno com a cabeça, fingindo que estou satisfeito com tudo o que ele apresentou. Ele suspira, claramente percebendo que minha mente está em outro lugar, mas decide não pressionar. Ele sabe quando é hora de recuar.

— Certo, Kael — ele diz, levantando-se da cadeira. — Vou deixar você descansar. Amanhã revisamos os últimos detalhes.

— Obrigado, Ethan — respondo, minha voz um pouco distante. Ele me dá um último olhar, uma mistura de preocupação e compreensão, antes de sair do escritório, fechando a porta atrás de si.

Finalmente sozinho, eu me permito relaxar um pouco. Minha mão vai até o pescoço, massageando os músculos tensos, enquanto meus olhos voltam para a janela. O sol já está quase completamente escondido, deixando o céu tingido de tons profundos de roxo e azul. É um cenário bonito, mas minha mente está longe de apreciá-lo.

A inquietação que sinto é difícil de explicar, até mesmo para mim. Ethan acha que é medo de compromisso, ou talvez insegurança sobre ser um bom parceiro. Mas não é nada disso. É mais profundo. É a sensação de que, não importa quem eu escolha como Luna, não será *ela*. A ômega dos meus sonhos. A mulher que invade meus pensamentos todas as noites, que me faz acordar com o coração acelerado e o corpo quente, como se eu tivesse estado com ela, tocado nela, mesmo que apenas em minha mente.

Uma jovem rica, bonita e inteligente poderia ser bem vista ao meu lado aos olhos de todos. Ela traria estabilidade, alianças políticas, talvez até filhos fortes para continuar minha linhagem. Mas não seria o que eu quero. Não seria *ela*. E quando eu deitasse ao lado dessa mulher, quando meu corpo estivesse sobre o dela, não seria da forma que eu quero. Não seria da forma dos meus sonhos.

Eu suspiro, sentindo o peso dessa realidade sobre meus ombros. É uma loucura, eu sei. Um Alfa como eu, um líder, não deveria ser dominado por fantasias. Mas eu não consigo evitar. Ela está em mim, como uma marca que não pode ser apagada. E cada vez que eu penso em substituí-la, em encontrar alguém real, sinto como se estivesse traindo algo... ou alguém.

Os criados chegam pouco depois, trazendo meu jantar. Eu mal toco na comida, apenas empurro os pratos com o garfo, fingindo que estou comendo enquanto minha mente continua vagando. Eles não questionam, claro. São bem treinados para não se intrometer. Mas eu sinto seus olhares discretos, cheios de curiosidade e talvez um pouco de preocupação. Eu devo parecer um fantasma, sentado ali, olhando para o nada.

Quando terminam de arrumar a mesa, um dos criados se aproxima, baixando a cabeça respeitosamente. — Algo mais, meu Alfa?

— Não — respondo, minha voz mais áspera do que pretendia. — Podem se retirar.

Eles obedecem rapidamente, deixando-me sozinho novamente. Eu me levanto da mesa, caminhando até a janela. O céu agora está completamente escuro, as estrelas começando a aparecer. É uma noite calma, tranquila, mas eu não consigo encontrar paz.

— Pelo menos quando eu dormir, irei te ver novamente — murmuro para mim mesmo, minha voz quase um sussurro. — Só que dessa vez faça demorar um pouco mais. Só um pouco mais.

Eu me viro, caminhando até a cama. Meu corpo está cansado, mas minha mente está alerta, como se estivesse tentando evitar o sono, sabendo que, quando eu adormecer, ela estará lá. E, ao mesmo tempo, é exatamente isso que eu quero. É uma contradição que me consome.

Deito-me na cama, olhando para o teto. O silêncio do quarto é quase opressivo, mas eu não ligo. Minha mente já está longe, já está com ela. Eu fecho os olhos, deixando a escuridão me envolver. E, como todas as noites, ela vem até mim.

Dessa vez, faça demorar um pouco mais. Só um pouco mais.

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