Uma semana se passou, e eu descobri que o motivo daquela carta era porque o Alfa iria realizar um baile. Sim, depois de fazer uma carnificina e dominar matilhas desobedientes, o Alfa tinha tempo para bailes. Porque, claro, nada diz "paz e prosperidade" como uma noite de valsa e hipocrisia, enquanto os corpos dos que ousaram resistir ainda estão quentes sob a terra.
Eu soube disso porque Celeste não parava de falar. A notícia do baile a deixou em um estado de euforia que beirava o insuportável. Ela passou os últimos dias discutindo vestidos, penteados e joias como se sua vida dependesse disso. E, de certa forma, dependia. Afinal, o baile não era apenas uma celebração — era uma caça. Uma caça às jovens do reino, todas dispostas como iscas para o grande predador: o Alfa Supremo.
Também soube disso porque fui limpar o escritório do senhor do castelo — o pai de Celeste, um beta que raramente olhava na minha direção, a menos que fosse para dar uma ordem — e encontrei a carta aberta. É claro que eu li. É claro que não precisava de meia dúzia de palavras para saber que aquilo era uma forma de reunir as jovens do reino para casamento.
"Convite formal para o Baile da Unificação", dizia a carta, escrita em um papel tão fino que parecia quebrar ao toque. "Uma noite de celebração e união, onde as famílias mais nobres do reino terão a honra de apresentar suas filhas ao Alfa Supremo, em busca de uma companheira digna de seu trono."
Dignidade. Essa palavra sempre me faz rir por dentro. O que é dignidade em um mundo onde os fortes esmagam os fracos sem pensar duas vezes? Onde a única lei é a vontade do Alfa?
Mas, enfim, o baile estava marcado, e Celeste estava em êxtase. Ela via isso como sua grande chance de se tornar a companheira do Alfa, de subir na hierarquia e deixar para trás o título de "filha mimada de uma família rica" para se tornar "a escolhida do Alfa Supremo".
— Selene! — a voz estridente de Celeste ecoou pelo corredor, interrompendo meus pensamentos. — Você precisa ajudar a escolher meu vestido!
Eu me virei lentamente, segurando o balde de água e o pano que carregava. — Sim, senhora — respondi, mantendo a voz suave e submissa, como era esperado de mim.
Celeste não esperou por mais. Ela me agarrou pelo braço e me arrastou para seu quarto, onde uma pilha de vestidos estava espalhada na cama. Cores vibrantes, tecidos caros, detalhes que custariam mais do que minha antiga matilha ganhava em um ano.
— Qual você acha que combina mais comigo? — ela perguntou, segurando um vestido azul-claro contra o corpo. — Ou talvez o vermelho? O vermelho é ousado, não é?
— O vermelho é muito bonito, senhora — respondi, mantendo o olhar baixo. — Mas o azul combina mais com seus olhos.
Era mentira, é claro. O vermelho era perfeito para ela — chamativo, arrogante, exagerado. Mas eu não queria vê-la brilhar no baile. Eu gostaria de ter esse pequeno prazer.
Celeste sorriu, satisfeita com minha resposta. — Sim, você tem razão. O azul é mais delicado.
Delicado. Outra palavra que não combina com ela.
Enquanto ela se virava para o espelho, eu me permiti um momento de reflexão. O baile era uma farsa, é claro. O Alfa não estava procurando uma companheira — ele estava consolidando seu poder. Ao se casar com uma jovem de uma família nobre, ele garantiria lealdade e controle sobre mais um pedaço do reino. Era tudo um jogo, e as jovens como Celeste eram apenas peças no tabuleiro.
Mas, de certa forma, eu também era uma peça. Uma peça pequena, insignificante, mas ainda assim parte do jogo. Afinal, eu seria uma das criadas encarregadas de acompanhar a família ao castelo do Alfa e servir durante o baile. Eu veria tudo de perto — as risadas falsas, os sorrisos forçados, as alianças políticas disfarçadas de romance.
E, claro, eu veria ele. O Alfa.
Apenas pensar nisso fez meu estômago embrulhar. Ele, que me salvou. Ele, que me aprisionou. Ele, que agora estava organizando um baile para escolher uma companheira, como se fosse um rei escolhendo uma jóia para sua coroa.
— Serva! — a voz de Celeste me tirou da minha divagação. — Você está prestando atenção?
— Sim, senhora — menti, olhando para ela.
— Bom, porque você precisa ajudar a preparar tudo para a viagem. Vamos partir amanhã cedo, e eu não quero atrasos!
Viagem. A palavra ecoou na minha mente. Eu não viajava desde que fui trazida para cá, acorrentada e humilhada. Agora, eu voltaria ao castelo do Alfa, mas como uma criada, uma sombra daquela que um dia fui.
Nos dias que se seguiram, o castelo foi tomado por uma agitação frenética. Malas foram empacotadas, roupas foram escolhidas, e os criados corriam de um lado para o outro, preparando tudo para a viagem. Eu estava no meio disso tudo, limpando, carregando e obedecendo ordens como sempre.
Mas, no meio do caos, eu não conseguia parar de pensar no baile. No que significava. No que ele significava.
Na manhã da partida, o sol mal havia nascido quando subimos na carruagem. Celeste estava radiante em seu vestido azul-claro, enquanto o senhor e a senhora do castelo discutiam os detalhes da viagem. Eu me sentei no banco dos criados, ao lado de outros servos, e olhei pela janela enquanto o castelo desaparecia no horizonte.
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Atualizado até capítulo 21
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