POV SELENE
O sol já está alto, e eu já recebi minha primeira "correção" do dia. Adivinha o motivo? A senhora Celeste, em um de seus surtos de "genialidade", derrubou um copo de água no tapete caríssimo da mãe. E eu, claro, não fui mais rápida que as partículas de água que se infiltraram na peça valiosa. O resultado? Um tabefe da própria Celeste.
Doeu, mas fingi que não. Nenhuma lágrima surgiu no meu rosto. Chorar é para os fracos, e eu já chorei o suficiente nos primeiros meses aqui. Agora, só resta o sarcasmo e a resignação.
— Pronto, senhora. Está tudo seco — digo, mantendo a voz neutra, enquanto me levanto do chão, onde estava de joelhos com um pano úmido na mão. O tapete está impecável, ou pelo menos o mais impecável que um tapete pode ficar depois de ser atacado por um copo d’água e uma ômega desajeitada.
Celeste me olha com aquele olhar de desdém que já conheço tão bem. — Você é tão lenta, Selene. Se dependesse de você, esse tapete já estaria estragado.
— Sim, senhora — respondo, abaixando a cabeça. Não adianta argumentar. Nunca adianta. Celeste é como uma tempestade: imprevisível, destrutiva e, no fim, você só pode se agachar e esperar passar.
Mas, antes que ela possa continuar sua diatribe, a porta do salão se abre, e a senhora Valéria entra. O ar no ambiente muda imediatamente. Celeste congela, como se tivesse sido pega em flagrante. A mãe dela tem esse efeito nas pessoas — até na própria filha. E, considerando a bronca que Celeste levou recentemente por se meter nos serviços dos criados, não é de se surpreender que ela esteja tentando disfarçar.
— Celeste — a senhora Valéria diz, sua voz cortante como uma lâmina. — O que está acontecendo aqui?
— Nada, mamãe — Celeste responde rapidamente, sua voz um pouco mais aguda do que o normal. — Apenas... garantindo que o tapete estivesse limpo.
A senhora Valéria olha para o tapete, depois para mim, e finalmente para Celeste. Seu olhar é penetrante, como se pudesse ver através de todas as mentiras e desculpas. — Você já se esqueceu da nossa conversa, Celeste? — ela pergunta, sua voz suave, mas cortante.
Celeste engole seco, seus olhos baixando por um momento. — Não, mamãe. Eu só...
— Não há "só", Celeste — a senhora Valéria interrompe, sua voz firme. — Você é uma jovem de classe. Comportar-se dessa maneira é inadequado. Deixe que a ômega faça o trabalho dela. Você não precisa se rebaixar a isso.
Celeste não responde, mas sinto o olhar dela queimando nas minhas costas enquanto a senhora Valéria se volta para mim. — Você — ela diz, apontando para mim com um dedo que parece mais uma arma do que um gesto. — As cartas. Agora.
— Sim, senhora — respondo, abaixando a cabeça novamente. Celeste não diz nada, mas sinto o olhar dela queimando nas minhas costas enquanto saio do salão.
O caminho até o hall de entrada é longo, e eu aproveito cada momento de relativa paz. Passo pelos corredores largos do castelo, as paredes adornadas com retratos de ancestrais que provavelmente nunca fizeram nada de útil além de nascer em uma família rica. Chego ao jardim interno, onde o sol já está alto, iluminando os canteiros de flores e as árvores bem podadas. É um cenário bucólico, quase idílico, se não fosse pelo fato de que eu sou uma escrava em um castelo cheio de pessoas que me odeiam.
Atravesso o jardim, passando por uma fonte que parece ter saído diretamente de um daqueles romances que lia na minha antiga matilha. Mas, ao contrário das heroínas dessas histórias, eu não tenho um salvador. Só tenho tapetes para limpar e tabefes para aguentar.
Chego ao hall de entrada, onde o mensageiro já deixou as cartas. Pego a pilha, sentindo o peso do papel sob meus dedos. Sou uma das poucas ômegas aqui que sabe ler — um luxo que minha antiga matilha me deu, composta de pessoas simples, mas que valorizavam o conhecimento. Agora, tudo o que resta deles são lembranças. O resto foi destruído e dominado.
Meus olhos percorrem os remetentes das cartas, mas um selo me chama a atenção. O selo real do alfa.
Meu coração gela ao pensar nele. Então, tudo volta como um filme. Como ele me salvou, e de certa forma, como ele mostrou minha insignificância.
"Fraqueza não tem lugar aqui. Se você não consegue se defender, então não merece respirar o mesmo ar que eu."
A voz dele ecoa na minha mente, firme e implacável, como sempre foi. Ele, o líder incontestável, aquele que ergueu impérios com as próprias mãos e derrubou quem ousou desafiar sua autoridade. Ele, que me tirou das mãos daqueles que me fariam sofrer muito mais do que Celeste e sua família jamais poderiam. Ele, que me deu um lugar, mesmo que fosse no fundo da cadeia hierárquica.
Mas como vou me defender se você nem me deu a oportunidade? Se você, seu clã, sua matilha dominou meu povo? O mesmo povo que se recusou a se dobrar para você?
Respirei fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções que sempre surge quando penso nele. Gratidão e revolta se misturam em um caldeirão fervente dentro de mim. Se não fosse por ele, eu provavelmente teria sido violentada, torturada, ou pior. As cicatrizes que carrego seriam muito mais profundas do que os tabefes e humilhações que Celeste e sua família me impõem. Ele me salvou daqueles que não veriam em mim nada além de uma presa fraca, um brinquedo para ser quebrado.
Mas ao mesmo tempo, é culpa dele que eu esteja aqui, cativa, rendida. Tudo porque meu líder, o alfa da minha antiga matilha, se recusou a se curvar. Ele preferiu a morte à submissão, e nós, os sobreviventes, pagamos o preço. Fomos dispersos, dominados, reduzidos a servos. E eu, uma ômega, fui entregue a ele como um troféu, uma prova de sua vitória.
Na minha antiga matilha, éramos iguais. O status não definia nosso valor. Éramos unidos, livres. Até que ele chegou. Com seu exército e sua sede de poder. Ele não tolerou nossa resistência, nossa recusa em nos submeter à sua vontade. E quando a poeira baixou, éramos apenas sombras do que um dia fomos.
Ele me salvou, sim. Mas ele também me aprisionou. Ele me deu proteção, mas me tirou a liberdade. Ele me poupou de um destino horrível, mas me condenou a uma vida de servidão. E o pior de tudo é que, no fundo, eu sei que ele não fez isso por bondade. Ele fez isso porque, no mundo dele, pessoas como eu são propriedade.
Minhas mãos tremem ao segurar a carta com seu selo. Por um momento, permito-me sonhar com uma vida diferente. Uma vida em que eu não precise abaixar a cabeça, em que eu não precise limpar tapetes ou aguentar humilhações. Uma vida em que eu seja mais do que uma escrava, mais do que uma ômega cativa.
Mas então, a realidade bate à porta. Ouço passos no corredor, vozes que se aproximam. Celeste, Valéria, ou algum outro membro da família que vai me lembrar do meu lugar. O sonho se desfaz como fumaça, e eu me vejo novamente encurralada pela minha própria existência.
Respirei fundo, engolindo o nó na garganta. Não há espaço para sonhos aqui. Não há espaço para fraqueza. Apenas a rotina, a obediência, a resignação.
Coloco as cartas em ordem, segurando-as com firmeza, como se o papel pudesse me dar alguma força. Mas não dá. Nunca dá.
E agora, tudo o que me resta é voltar. Voltar para a sala, para as ordens, para a humilhação. Voltar para a vida que me foi imposta, para a rotina de uma escrava, de uma ômega cativa.
...CELESTE...
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Atualizado até capítulo 21
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