CAPÍTULO 14

A noite estava quieta, tão quieta que o silêncio parecia ecoar pelos corredores do castelo. Eu estava deitado na minha cama, mas o sono se recusava a vir. Minha mente, normalmente tão disciplinada, estava inquieta, vagando por terras desconhecidas entre a vigília e o sonho. Diferente de antes, quando a imaginação costumava me levar para longe, agora ela parecia ter me abandonado. Eu estava preso no mundo real, e ele parecia mais pesado do que nunca.

Eu me virei na cama, sentindo o desconforto na barriga. Talvez fosse a comida da recepção, ou talvez fosse o peso das expectativas que eu carregava. Não importava. O fato era que eu não conseguiria dormir assim.

Levantei-me devagar, evitando fazer barulho. Os criados estavam todos descansando, e eu não queria perturbar ninguém. Talvez uma caminhada pelo castelo me ajudasse a clarear a mente. Uma oportunidade de respirar e ser apenas Kael, e não o Alfa. A ideia era tentadora.

Meus passos foram lentos, quase cautelosos, como se eu estivesse tentando não perturbar o silêncio da noite. O chão de pedra estava frio sob meus pés descalços, e o ar noturno que entrava pelas janelas abertas trazia consigo um cheiro de terra molhada e flores noturnas. Eu segui pelos corredores escuros, iluminados apenas pela luz pálida da lua que entrava pelas frestas das cortinas.

Minha barriga ainda doía, e a ideia de um pedaço de pão fresco começou a parecer cada vez mais atraente. A cozinha não ficava longe, e eu sabia que os padeiros sempre deixavam algo pronto para o caso de alguém precisar durante a noite. Decidi que valia a pena tentar.

Quando entrei na cozinha, o ambiente estava escuro, com apenas a luz da lua iluminando as bancadas de madeira e os utensílios pendurados nas paredes. O fogão estava apagado, suas chamas mortas e frias, e o ar estava impregnado com o cheiro de farinha e fermento. Eu me aproximei da mesa onde os pães eram deixados, mas algo me fez parar.

Havia alguém ali.

No início, pensei que fosse uma ilusão, um truque da minha mente cansada. Mas então ela se moveu, e eu percebi que era real. Uma figura esguia, envolta em sombras, passando pela luz do luar que entrava pela janela. Ela parecia quase etérea, como se fosse feita de névoa e sonho. Seus cabelos escuros refletiam a luz da lua, e seus olhos brilhavam como estrelas em uma noite sem nuvens.

Ela me olhou, e por um momento, o mundo parou. Seus olhos eram grandes, cheios de surpresa e talvez um pouco de medo. Ela estava assustada, como se eu fosse uma assombração, e não o contrário. Eu me senti preso naquele olhar, incapaz de me mover ou de falar. Mas, então, algo dentro de mim estremeceu. Algo profundo, primitivo, que reconheceu aquela figura antes mesmo que minha mente pudesse processar.

Era ela.

A ômega dos meus sonhos. A ômega cativa. A mulher que vinha me visitar todas as noites, nos recantos mais secretos da minha mente. Aquela que eu nunca conseguia alcançar, mas cuja presença era tão real que eu acordava com o coração acelerado e a sensação de que ela tinha estado ali, mesmo que apenas por um instante.

Mas agora ela estava aqui. No mundo real. De carne e osso.

Ela estava diferente. Nos sonhos, ela era confiante, radiante, quase etérea. Agora, seus olhos estavam cheios de medo, e sua postura era tensa, como a de um animal encurralado. Ela não era a visão serena que eu conhecia; ela era real, frágil, e isso a tornava ainda mais fascinante. E mais assustadora.

— Você... — eu comecei a dizer, mas as palavras morreram na minha garganta. Eu não sabia o que dizer. Como poderia explicar que eu a conhecia, que ela habitava meus sonhos há anos, que eu a procurava mesmo sem saber que ela existia?

Ela não esperou para ouvir o resto. Assim que eu dei um passo em sua direção, ela se moveu rápido, como um rato assustado. Seus pés descalços mal fizeram barulho no chão de pedra enquanto ela se afastava, segurando o copo com uma mão trêmula. Eu estendi a mão, tentando alcançá-la, mas ela já estava se virando, desaparecendo pela porta dos fundos que levava ao jardim.

— Espere! — eu gritei, mas minha voz soou rouca, quase desesperada.

Ela não parou. Eu a ouvi correndo pelo jardim, seus passos leves ecoando na noite silenciosa. Eu corri atrás dela, mas quando cheguei à porta, ela já tinha desaparecido na escuridão. O vento balançava as árvores, e o som distante de um riacho parecia zombar de mim. Ela se foi, como um fantasma, como sempre fazia nos meus sonhos.

Eu fiquei parado ali, ofegante, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Meu coração batia forte no peito, e minhas mãos estavam frias. Eu não sabia se estava mais maravilhado ou assustado. Ela era real. Ela estava aqui. Bem debaixo do meu teto.

Voltei para a cozinha, sentindo-me como se tivesse acabado de acordar de um sonho dentro de um sonho. O copo que ela havia pegado ainda estava sobre a mesa, e eu o peguei, sentindo o calor que ela havia deixado para trás. Eu olhei para ele, como se pudesse me dar alguma pista sobre quem ela era, mas ele era apenas um copo comum, sem nada de especial.

Eu me sentei à mesa, ainda tentando processar o que havia acontecido.

Não tinha dúvidas de quem ela realmente era.

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