O cheiro de fumaça e sangue impregnava o ar, misturando-se ao odor de suor e medo. As chamas dançavam na escuridão, iluminando os corpos caídos e os rostos dos guerreiros que tomavam o acampamento inimigo. Eu caminhava entre eles, indiferente aos gritos e ao caos ao meu redor. A vitória era nossa, mas o sabor dela era amargo, como sempre. A guerra não era feita de glória, mas de sangue e sacrifício.
Foi então que a vi.
Naquele momento, o mundo pareceu desacelerar. As sombras das chamas brincavam em sua pele pálida, os cabelos desgrenhados caindo sobre o rosto, o olhar feroz apesar da evidente exaustão. Ela era pequena, frágil... e ao mesmo tempo, indomável. Havia algo nela, algo que fez o ar parecer mais denso, algo que fez meus instintos se aguçarem.
Ela estava nas mãos de um dos meus soldados. Ele a segurava com brutalidade, os dedos cravados em seus braços finos, um sorriso perverso nos lábios. A ômega se debatia, chutava, mordia. Uma fera encurralada, sem opções, mas ainda assim lutando.
— Para de lutar, ômega — ele rosnou, a voz carregada de desprezo. — Você já perdeu. Aceite logo seu destino. Você é apenas mais uma escrava agora.
Mas ela não cedia. Seu espírito selvagem contrastava com a fragilidade evidente em sua estrutura magra. O soldado, impaciente, puxou seu vestido com violência. O tecido cedeu, rasgando-se em um som seco que ecoou como um grito no silêncio da noite.
Minha respiração falhou.
A pele alva se revelou sob a luz tremeluzente do fogo. O seio exposto, a curva delicada e suave. Por um instante, fui tomado por um fascínio primitivo, um desejo bruto que aqueceu meu sangue. Mas então vi o olhar dela.
Vergonha.
Ela se encolheu, apertando os lábios com força, o corpo tenso como um galho prestes a se partir. O rubor em sua pele era uma mistura de humilhação e raiva contida. Ela desviou o olhar, mas por apenas um momento. Quando voltou a me encarar, havia fogo em seus olhos. Um desafio mudo. Como se dissesse que, apesar de tudo, ela ainda era dona de si mesma.
Aquilo me enfureceu.
— Solte-a. — Minha voz cortou o ar como uma lâmina fria, carregada de uma autoridade que não admitia questionamentos.
O soldado hesitou, apertando os punhos, os dedos ainda marcando a pele dela. — Meu Alfa, ela é do inimigo. Agora é nossa prisioneira. Precisa aprender seu lugar. Ela não é digna da sua compaixão.
Meu olhar se estreitou, e dei um passo à frente, deixando minha presença esmagá-lo como uma força tangível. — Eu disse para soltá-la. Ou prefere que eu o faça sangrar por ousar questionar uma ordem minha? — Minha voz era um rugido baixo, uma ameaça que ecoou no ar pesado.
Houve um instante de hesitação, e então ele a largou. A ômega tropeçou para trás, segurando o que restava do vestido, o corpo ainda tremendo, mas os olhos... aqueles olhos ainda eram desafiadores.
Silêncio.
Meu instinto me mandava afastar o olhar, ignorá-la. Mas algo em mim se recusava. Era apenas uma escrava agora, uma peça a mais nas fileiras da minha matilha. E, no entanto, eu não conseguia tratá-la como qualquer outra.
Sem dizer uma palavra, arranquei meu manto e o joguei sobre ela com brutalidade, cobrindo a pele exposta e o vestido rasgado. A batida surda do tecido caindo sobre seus ombros fez com que ela estremecesse, surpresa. Meu olhar perfurou o dela, frio e implacável.
Foi então que a vi. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, traindo a fachada de força que ela tentava manter. Mas ela não disse nada. Nenhum som, nenhum gemido. Apenas aquela lágrima, silenciosa e teimosa, como se ela se recusasse a dar a ele — ou a mim — o prazer de vê-la quebrar.
— Se você quiser sobreviver sob o meu domínio, terá que ser mais forte que isso, ômega. — Minha voz era dura, cortante, impiedosa. — Fraqueza não tem lugar aqui. Se você não consegue se defender, então não merece respirar o mesmo ar que eu.
Ela apertou o tecido contra o corpo, os lábios trêmulos, mas sem desviar o olhar do meu. Havia algo naquela coragem silenciosa que me perturbava, algo que me fazia querer quebrá-la ainda mais, só para ver até onde ela poderia ir.
Lancei um olhar gélido ao soldado. — Se eu descobrir que você fez algo com ela sem a minha ordem, você fica sem pinto. — Minha voz foi baixa, mas cada sílaba carregava uma promessa mortal. — E se eu sentir o seu cheiro perto dela de novo, vou arrancar sua língua e enfiá-la goela abaixo. Entendido?
O soldado engoliu seco, desviando o olhar. Eu o empurrei para trás sem paciência, sentindo o peso do silêncio ao redor. Ninguém ousou contrariar. Ninguém ousou sequer respirar muito alto.
— Reúna o exército e organize a ida dos prisioneiros — ordenei, minha voz ecoando como um trovão. — Quero todos em formação antes do amanhecer. E não me decepcione.
O soldado assentiu rapidamente, afastando-se para cumprir as ordens. Mas antes de partir, ele lançou um olhar para a ômega, como se ainda tentasse afirmar alguma forma de domínio sobre ela. Ela, no entanto, continuou a me encarar, sem se curvar, sem se render. Frágil, sim, mas com uma força que eu não conseguia ignorar.
— Você — disse eu, voltando-me para ela, minha voz cortante. — Se apresse e se junte aos outros prisioneiros. De agora em diante, você é minha.
As palavras saíram com uma satisfação que eu não esperava. Havia algo em tê-la sob meu domínio que me encheu de uma estranha euforia, uma sensação de posse que aqueceu meu sangue. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim se contorceu. Culpa? Não, eu não sentia culpa. Eu não podia sentir culpa. Ela era do inimigo. Era apenas mais uma peça no jogo.
Então, por que aquela confusão? Por que meu peito parecia apertar quando ela finalmente obedeceu, caminhando em direção aos outros prisioneiros, ainda envolta no meu manto? Por que eu ainda sentia o peso do olhar dela, mesmo quando ela já estava longe?
O soldado a empurrou para frente, ordenando que ela se apressasse. Ela tropeçou, mas se recompôs rapidamente, lançando um último olhar para mim antes de desaparecer entre a multidão. Aquele olhar... ele não era de medo, nem de submissão. Era um aviso. Um desafio.
E eu não sabia se queria quebrá-la ou se queria ver até onde ela poderia ir.
— Alfa — o soldado interrompeu meus pensamentos, sua voz hesitante. — Os prisioneiros estão sendo reunidos. O que mais deseja?
Eu o encarei por um momento, tentando afastar a confusão que insistia em tomar conta de mim. — Certifique-se de que nenhum deles seja tocado sem minha permissão. E mantenha os olhos nela — disse, indicando a direção que a ômega havia tomado. — Se algo acontecer com ela, você será o primeiro a pagar.
Ele assentiu rapidamente, afastando-se para cumprir as ordens. E eu fiquei ali, no meio do caos, tentando entender o que aquela ômega havia feito comigo. Por que ela não saía da minha mente? Por que eu sentia que, de alguma forma, ela já era mais do que apenas uma prisioneira?
E, mais importante, por que eu não conseguia parar de pensar nela?
...KAEL...
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Atualizado até capítulo 21
Comments
Marcia Mariley Westpal Mello
Amando a estória!!! Torno-me sua fã a partir de hoje.
2025-03-14
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Lena Lima Lima
Autora do meu coração estou amando a sua história.
Eu sou apaixonada com história de lobisomem parabéns autora.
Q quero quero mais obras sobre lobisomem
2025-02-25
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