POV SELENE
O quarto das criadas era pequeno e escuro, iluminado apenas por uma única vela que tremeluzia sobre a mesa de madeira desgastada. Harper estava sentada à minha frente, remendando um tecido com movimentos precisos e rápidos, enquanto eu tentava me concentrar na costura que tinha em mãos. Mas minha mente estava longe dali, vagando pelos corredores do castelo, até o salão onde o baile acontecia. O som distante da música e das risadas chegava até nós, abafado pelas paredes grossas, mas ainda assim presente, como um lembrete constante do que estava acontecendo lá fora.
— O Alfa provavelmente deve estar se apresentando para todas as candidatas. Deve estar um burburinho e tanto no salão — Harper disse, sem levantar os olhos do tecido. Sua voz era calma, mas havia uma ponta de curiosidade nela, como se ela também estivesse imaginando o que se passava naquela sala cheia de luz e cores.
Eu olhei para ela, sentindo um nó se formar no meu estômago. — Por que ele está fazendo isso, Harper? — perguntei, minha voz mais baixa do que eu pretendia.
Harper finalmente ergueu os olhos, fitando-me com um olhar que misturava pena e compreensão. — Bem, Selene, o Alfa está por tempo demais sozinho. Você sabe como é, né? Essa coisa de reinado e tudo mais. Um líder solteiro não é bem visto. Ele precisa de uma companheira, alguém que esteja ao seu lado, que fortaleça sua imagem e sua linhagem.
— Então ele está fazendo algo como se fosse uma seleção — eu disse, mais para mim mesma do que para ela. — O baile é o primeiro passo.
— Sim — Harper concordou, voltando a se concentrar no tecido. — E provavelmente a estadia de todas será prolongada. Isso é o que ouvi. Imagina dar conta de tantas jovens assim, juntas? Deve ser um caos.
Eu não respondi imediatamente. Minhas mãos pararam de costurar, e eu fiquei olhando para a chama da vela, perdida em meus pensamentos. O Alfa. Kael. Eu mal conseguia acreditar que ele estava ali, no mesmo castelo que eu, cercado por todas aquelas damas que tinham tudo o que eu nunca teria. Beleza, status, liberdade. E eu? Eu era apenas mais uma criada, um vulto invisível entre as sombras do castelo.
Mas eu não conseguia tirá-lo da minha mente.
A última vez que o vi foi há anos, quando ele invadiu o acampamento da minha matilha.
Eu era apenas uma adolescente então, assustada e confusa, tentando entender por que tudo ao meu redor estava em chamas. Lembro-me de ter sido empurrada para o chão, de ter ouvido gritos e risadas cruéis, e de ter sentido o cheiro de suor e sangue no ar. Foi então que ele apareceu, como uma sombra imponente, afastando o homem que tentava me violentar.
E então ele jogou sobre mim o seu manto. E me disse que eu não merecia respirar o mesmo ar que ele.
Eu guardo até hoje esse manto comigo. É meu casaco nas noites frias. Mas Celeste não podia saber disso, muito menos sua mãe. Provavelmente me tirariam só para ter certeza que eu padeceria no frio do inverno.
Complexo, não? Talvez toda essa situação fosse sobre isso. Eu não sabia se odiava ou tinha gratidão por aquele homem que me salvou, e ao mesmo tempo me aprisionou.
Agora estava sob o mesmo teto que ele, e serviria a ele. Juntamente com suas candidatas.
— Selene? — a voz de Harper me tirou dos meus pensamentos. Eu piscei, voltando à realidade do quarto escuro e da vela tremeluzente. — O que você está pensando? Você parece a milhas daqui.
— Nada — respondi rapidamente, evitando seu olhar. — Só... divagando.
Harper não parecia convencida. Ela inclinou-se para frente, com um sorriso maroto nos lábios. — Está pensando no Alfa, né?
Eu senti meu rosto esquentar e me virei para o lado, fingindo me concentrar no tecido que estava costurando. — Não seja boba, Harper.
— Ah, não adianta negar — ela disse, rindo baixinho. — Eu vi a maneira como você fica pensativa sempre que alguém menciona ele. E, entre nós, ele é muito bonito, não é? Com aqueles longos cabelos castanhos e aqueles olhos cinzentos... facilmente um dos homens mais bonitos do reino.
Eu não respondi imediatamente, mas senti um nó se formar no meu estômago.
— Eu só o vi uma vez — admiti, finalmente, em um tom baixo. — Há muito tempo.
Harper ergueu as sobrancelhas, surpresa. — E o que achou? Tão bonito quanto dizem?
Eu hesitei, tentando encontrar as palavras certas. — Ele era... diferente. Intenso. Mas sim, bonito. De uma maneira que faz você se sentir pequena, sabe?
Harper riu, balançando a cabeça. — Você deveria experimentar vê-lo de novo, quando tiver a oportunidade. Quem sabe você não se apaixona de vez?
Eu soltei uma risada curta, mas sem humor. — E o que adiantaria? Somos servas, Harper. Escravas. Nunca passaremos disso.
Harper sorriu, mas por um momento, vi uma sombra de tristeza cruzar seu rosto. Ela olhou para baixo, como se estivesse revivendo uma memória dolorosa.
— Sei como é isso — ela disse, em um tom mais suave, quase um sussurro. — Sim, sei bem.
Eu fiquei confusa, olhando para ela com uma expressão interrogativa. Harper nunca havia falado muito sobre seu passado, e eu sempre respeitei isso. Mas agora, pela primeira vez, parecia que ela estava prestes a compartilhar algo. No entanto, antes que eu pudesse perguntar, ela mudou de assunto, como se estivesse se protegendo.
— Bem, de qualquer forma — ela disse, levantando-se e pegando uma pilha de lençóis limpos da mesa —, precisamos preparar os quartos para o repouso das damas. Elas vão querer tudo impecável, e não podemos nos dar ao luxo de falhar.
Eu me levantei também, pegando outra pilha de lençóis. — Sim, você está certa. Melhor não dar motivos para sermos punidas.
Harper sorriu novamente, mas desta vez o sorriso não chegou aos seus olhos. — Vamos lá, então. Temos muito trabalho pela frente.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 21
Comments