Os dias seguintes foram preenchidos com estudos e treinos. Depois das aulas de etiqueta, eu mergulhava na história do império. Aprendi sobre reis, batalhas, alianças e traições que moldaram nossa nação. Algumas partes eram fascinantes, outras, arrastadas demais para minha paciência.
Os professores, cada um com sua peculiaridade, faziam parte do meu cotidiano. Lady Élodie, minha tutora de etiqueta, era uma mulher severa, de olhar crítico e postura impecável. Sempre que eu errava um movimento ao caminhar ou segurava o garfo de maneira errada, ela fazia um leve “hm” de reprovação, o que me deixava arrepiada dos pés à cabeça.
— Maryelle, lembre-se: uma dama não se move com pressa, ela desliza. — Sua voz era firme, e eu suspirei internamente.
Não importava quantas vezes eu praticasse, minha impulsividade tornava tudo um desafio.
— Sim, Lady Élodie… — murmurei, ajustando minha postura enquanto equilibrava um livro na cabeça.
Se etiqueta era difícil, os treinos físicos eram um verdadeiro martírio.
— Apenas mais cinco flexões, minha dama. — O instrutor, Sir Kalell, me observava com um olhar paciente, mas firme.
— Mais cinco? Você disse isso cinco flexões atrás!
— Exato. Agora, mais cinco.
Pela Deusa Celeste, isso era tortura! Meu corpo pequeno e acostumado ao conforto protestava a cada exercício. Meu suor pingava no chão da área de treinamento, e eu sentia cada músculo doer. Ainda assim, havia algo gratificante na exaustão. Eu sabia que, se quisesse usar uma espada no futuro, precisava de um corpo forte.
Nos momentos de descanso, eu passava tempo com minha família. Meus pais me observavam com interesse — afinal, não era todo dia que uma criança com aptidão para todos os elementos aparecia. Meu pai tentava esconder o orgulho em seu rosto, enquanto minha mãe constantemente me perguntava se eu estava bem depois dos treinos.
— Está se esforçando muito, querida? Não quero que se machuque…
— Estou bem, mãe. — Respondi, mesmo sentindo os músculos gritarem em protesto.
Adrian continuava sendo meu irmão provocador, mas também um grande apoio.
— Então, a grande prodígio ainda sofre para fazer flexões? — Ele zombou, rindo enquanto se encostava na parede.
— Cala a boca, Adrian. Quero ver você tentar fazer tudo isso com um instrutor demoníaco.
— Ah, eu passei por isso antes. Sir Kalell gosta de torturar os novatos. Boa sorte.
Além dos laços familiares, comecei a construir amizades fora de casa.
A princesa do império, Elenia von Eldoria, foi a primeira. Desde o teste de aptidão, nos encontramos algumas vezes, e logo percebi que, apesar de sua origem nobre, ela não era tão formal quanto eu imaginava.
— Achei que você seria séria e fria. — Ela comentou um dia, me observando com curiosidade.
— E eu achei que você seria uma princesa mimada e insuportável.
Houve um momento de silêncio.
Então Elenia riu.
— Acho que vamos nos dar bem.
Fiz amizade com algumas crianças de outras famílias nobres, tanto ducais quanto marquesais. Entre elas estavam:
Cedric Halsten, um garoto animado, filho de Sir Kalell, que sonhava em se tornar cavaleiro. Ele era inquieto e falante, sempre tentando me arrastar para brincadeiras ou desafios físicos.
Lisette Bravonne, filha de um marquês, calma e muito observadora. Tinha um jeito refinado e inteligente, e sempre parecia enxergar além das aparências.
Theon Valcrest, que parecia sempre saber mais do que deveria, filho do ducado do Oeste. Ele falava pouco, mas suas palavras sempre tinham um peso, e eu sentia que ele guardava mais segredos do que demonstrava.
Marian Edelstein, filha mais nova do ducado do Leste e determinada a se tornar uma maga poderosa. Sempre que estudávamos juntas, sua dedicação me impressionava.
Erik von Luden, um prodígio nas artes da espada e primo de Elenia. Seu talento com a lâmina era notável, e sua presença em combate era intimidadora, apesar de sua personalidade tranquila.
Conhecer cada um deles foi uma experiência única. Alguns encontros foram formais, em eventos sociais e festas da nobreza, onde nossos pais conversavam sobre política enquanto nós, crianças, tentávamos não morrer de tédio. Outros foram mais inesperados, como quando esbarrei em Cedric em uma das ruas movimentadas da capital.
— Ei! Olhe por onde anda! — reclamei, massageando meu ombro depois do impacto.
Cedric riu, ajeitando a capa curta que usava.
— Eu? Você que veio correndo feito um touro!
— Touro?! Retire isso agora!
— Ah, então você quer brigar? — Ele sorriu desafiadoramente, assumindo uma pose de combate.
Acabamos rindo e indo tomar um suco em uma das barracas próximas, e foi assim que nossa amizade começou.
O treinamento e os estudos nos uniam, criando laços fortes entre nós. Juntos, enfrentávamos os desafios impostos pelos tutores e instrutores, muitas vezes ajudando uns aos outros.
— Preciso de ajuda com essa fórmula mágica, Marian. — Confessei, olhando as inscrições confusas à minha frente.
— Eu te ensino, mas você tem que me ajudar na aula de etiqueta depois.
— …Você realmente quer me usar como referência de etiqueta?
Ela riu, e eu sabia que estava encrencada.
No entanto, com amizades também vinham complicações.
As notícias sobre minha aptidão haviam se espalhado. Muitas famílias nobres começaram a mostrar interesse em alianças — o que significava propostas de casamento, mesmo que eu fosse apenas uma criança.
Cartas chegaram à minha família, algumas educadas, outras descaradamente tentando garantir um noivado comigo.
— Maryelle, quer ler algumas? — Meu pai perguntou, segurando uma pilha de envelopes.
— De jeito nenhum! — exclamei, cruzando os braços. — Isso é absurdo!
Minha mãe suspirou, tocando meu ombro de forma reconfortante.
— Não precisa se preocupar com isso agora, querida. Mas deve estar ciente de que, conforme cresce, essas pressões só irão aumentar.
Eu queria ignorar isso. Mas sabia que, eventualmente, precisaria lidar com essas expectativas.
Por enquanto, me concentrei em meus estudos, no fortalecimento do meu corpo e nas novas amizades.
Houve uma noite, após um dia exaustivo de treinos, em que nos reunimos em um jardim escondido atrás da academia de magia. A lua brilhava no céu, e nós, um grupo de jovens nobres, conversávamos sobre o futuro.
— Qual o seu maior objetivo, Maryelle? — Theon perguntou, sua voz suave, mas curiosa.
Pensei por um momento, observando o céu estrelado.
— Quero ser forte. O suficiente para proteger a mim mesma e a quem eu amo.
Houve um momento de silêncio, depois Marian sorriu.
— Então estamos juntos nisso.
E essa era apenas a primeira etapa da minha jornada.
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Atualizado até capítulo 27
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